sábado, março 12, 2016

Parolos da província de S. Bento (II)

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Lembram-se disto? Agora temos isto:
Produtores portugueses de leite e carne manifestam-se na segunda-feira em frente à Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, em Matosinhos, Porto, “em defesa da produção nacional” e contra as “práticas comerciais abusivas” da grande distribuição.
(...)
“O leite e a carne suína são produções estratégicas para a soberania alimentar do país, para a economia nacional e para a nossa alimentação”, sustentam, defendendo que o Ministério da Agricultura e o Governo “devem lutar” a nível europeu, “sem mais hesitações, para a retoma de mecanismos públicos de controlo da produção e dos mercados como as ‘quotas’ leiteiras nacionais cujo fim determina, em grande parte, a actual crise”.
(...)
Para o sector, o que se impõe são “ajudas excepcionais para fazer frente a uma situação de excepcional gravidade” e para “apoiar e manter” os produtores pecuários a produzir, não “deitando a perder os vultosos investimentos públicos e privados feitos no sector”.
É brutal. Vamos por partes.

Sim, a "grande distribuição" tem um poder desmesurado. Por cá, o problema está há muito identificado: «[e]xplica-se numa história muito simples: por um lado, há muitos agricultores, que produzem pouco individualmente, visto também não têm parcelas muito grandes; por outro, há poucos canais de escoamento, estando a grande maioria da produção encaminhada para as centrais de distribuição que existam em cada sector, havendo eventualmente um ou outro negociante a título individual que tem possibilidades de absorver alguma produção. Invariavelmente, acontece que são as centrais que definem os preços e, bem pior do que isso, os meios de pagamento. No fundo, não só os produtores se têm que sujeitar a preços fracos, mas para todos os efeitos a financiar a operação das centrais, visto esperarem muitas vezes 6 a 8 meses para verem o pagamento da campanha do ano anterior enquanto fazem face aos custos decorrentes da campanha do próprio ano.» 

Em termos económicos, é simples de perceber: produção pulverizada e atomizada, distribuição concentrada em alguns (poucos) agentes. Como é a distribuição que faz a ligação entre o produtor e o consumidor, existe uma assimetria muito grande na forma como as variações do preço afectam a bottom line dos intervenientes. A ideia é que a distribuição, fruto do poder negocial que advém do descrito acima, tenta que a sua margem líquida seja o mais parecida possível com a sua margem bruta; isto faz com que variações positivas no preço pago pelo consumidor se reflictam pouco no que é pago ao produtor, mas variações negativas são sentidas fortemente pelo produtor. Tudo claro.

O que não é claro é em que medida é que as soluções citadas na notícia da Lusa (via Público) vão resolver o que quer que seja. Desde proteccionismo (“controlo severo das importações, como está a fazer a Espanha desde há meses”), benefícios fiscais ("isenção temporária e “sem perda de direitos” do pagamento das contribuições mensais para a Segurança Social e o reembolso de parte do consumo da ‘electricidade verde’"), subsídios ("aumento da ajuda (ligada à produção) à vaca leiteira e a promoção do “consumo prioritário” da produção nacional nas cantinas públicas e dos mercados de proximidade"), quotas de produção ("o Ministério da Agricultura e o Governo “devem lutar” a nível europeu, “sem mais hesitações, para a retoma de mecanismos públicos de controlo da produção e dos mercados como as ‘quotas’ leiteiras nacionais cujo fim determina, em grande parte, a actual crise”"), e acabando mesmo em honrosas menções aos bons velhos planos centralizados de produção ("Na União Europeia impõe-se a regulação pública da produção e do mercado"). Nada disto vai resolver o problema de fundo, apenas mascarar as deficiências do sector.

Claramente, o problema para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e para Associação Portuguesa de Produtores de Leite e Carne (APPLC) não é a "grande distribuição". O problema é o Estado não fazer o suficiente: o Estado deixa que a produção portuguesa compita em pé de igualdade como as importações, o Estado não dá benefícios fiscais aos agricultores, o Estado não dá subsídios, o Estado não impõe quotas de produção, o Estado não planeia as produções como deve de ser. E isso tudo fica (ainda mais) claro aqui: "o sector reclama também ao Ministério da Agricultura e ao Governo que criem “condições para escoamento, a melhores preços à produção, dos produtos agro-alimentares” nacional".

A agricultura em Portugal não é uma actividade empresarial. Só assim se pode explicar que se espere que tenha que ser o Estado a assumir a responsabilidade comercial da agricultura produzida em Portugal. Qualquer outro sector tem que produzir e garantir que consegue vender a sua produção a um preço que lhe permita continuar a operar. Para a CNA e a APPLC, um agricultor devia simplesmente ser um empregado do Estado, onde se limita a fazer os seus campitos, e, no fim da campanha, algum comité algures garante-lhe que tudo o que produzir irá ser vendido a bom preço. E assim se percebe: afinal, o problema não é a "grande distribuição"; a "grande distribuição" está bem como está. O problema é que ser agricultor dá trabalho.

Mais uma vez, é brutal. Não admira que Portugal, um país com condições extremamente propícias para a prática agrícola — com bons solos, excelentes condições climatéricas para um enorme número de culturas, tradição no sector — seja um desastre no que toca ao sector agro-alimentar. Enquanto não se perceber que a agricultura em Portugal tem se modernizar, e que isso só acontece com os incentivos de uma verdadeira economia de mercado, vamos andar todos os anos a ouvir os "produtores" através das CNA e APPLC da praça a reclamar por mais ajudas "temporárias". Depois, admiram-se.


quarta-feira, março 09, 2016

Estratégia liberal no esquerdistão (IV)

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Permitam-me continuar esta série de posts de uma forma um pouco diferente: vou sair do terreno teórico e passar a questões de implementação de estratégia. Afinal de contas, se digo que até agora as tentativas de implementar o liberalismo em Portugal têm falhado, parece-me boa ideia tentar explicar com um exemplo como é que esta luta podia ser feita. E uma das maiores falhas do movimento liberal em Portugal tem sido a escolha da mensagem que quer passar. Quero pegar num exemplo muito querido de todos os liberais, portugueses ou não: o salário mínimo nacional. A posição default dos liberais tem sido a de se mostrar contra os aumentos que se têm sentido, ora porque o SMN já é demasiado alto, ou porque irá prejudicar os mais desfavorecidos, ou porque são contra a existência de um SMN (exemplos: 1, 2, 3, 4, 5).

A discussão do salário mínimo é, claramente, uma missed opportunity para os liberais. Por um lado, a razão/verdade, de forma geral, está do nosso lado, os argumentos têm sido feitos com encadeamento lógico, de forma mais ou menos sustentados com dados empíricos, e sem muitos apelos à emoção. E isto, a meu ver, é um das condições essenciais para que algo possa mudar, e aqui os liberais estão de parabéns. No entanto, por outro lado, algo está claramente a falhar. O paradigma continua esquerdista, e podemos encolher os ombros e dizer "bem, fizemos o nosso melhor". Mas, tal como nas ciências, para mudar de paradigma, não basta ferir o vigente de morte, também é preciso avançar com uma alternativa.

Afinal de contas, a discussão política sobre o SMN não é um mero exercício teórico. Existe um problema real com os salários em Portugal, que são tendencialmente baixos, e temos uma cada vez maior proximidade entre o SMN e o salário médio e mediano. E se, do ponto de vista económico, as pessoas até podem concordar com a análise feita de que aumentar o SMN nas condições actuais é um problema, há outras considerações a tomar. Dizer "não aumentem o SMN" sem oferecer uma alternativa sobre o que fazer é o equivalente a dizer que se quer que fique tudo na mesma. Em termos de mensagem, especialmente para o estatuto de PME que o liberalismo-qua-empresa tem em Portugal, é suicídio. Ao menos o esquerdistão oferece algo que, no curto prazo, traz mais rendimento, e até oferece uma bonita narrativa onde o milagre da procura interna vai impulsionar o país para uma prosperidade nunca antes vista.

Daí que toda esta história seja uma missed opportunity. Pode-se (e deve-se) dizer "aumentar o salário mínimo, neste momento, não faz sentido", mas também convém dizer "e em vez de aumentar o salário mínimo, eis o que podemos fazer". De que a mistificação da procura interna, impulsionada pelo investimento estatal em grandes projectos, será a solução para os problemas do país. E era aqui que pode entrar uma mensagem diferente: a ideia de que há casos de países com sucesso lá fora, e que já há provas de que o modelo desses países resulta em Portugal. Vejamos.

Uma das preocupações mais frequentemente avançadas quando se discute a questão do SMN tem que ver com o impacto que esse aumento tem sobre as PMEs, especialmente no que diz respeito à sua competitividade — ainda recentemente, foi essa a mensagem que veio de Bruxelas. Num país que tem défices crónicos nas balanças comerciais (apesar da situação se estar, finalmente, a inverter), isto é algo que deve preocupar qualquer pessoa minimamente interessada nos destinos do país e de quem cá vive. Mas (e estou ciente de que o que vou escrever não é de todo consensual), eu gostava de recomendar que se ignorasse esta lenga-lenga. Não só ignorar, como repudiar. Porque Portugal tem de deixar de ser um país onde as empresas competem no preço:
What matters for international competitiveness and growth across countries are technological (non-price) competitiveness and (high-tech) productive capabilities – not labour costs and prices. Our own econometric evidence for Greece, Italy, Portugal and Spain (Storm and Naastepad 2015a) and for Germany (Storm and Naastepad 2015b) shows that RULC [relative unit labour cost] changes did not affect export and importgrowth and trade balances in a statistically significant manner during the period 1996–2008.
Este é o modelo de sucesso de que devíamos falar: a Alemanha. Mais concretamente, tentar perceber o porquê do sucesso desse país, e de como é que podemos criar as condições para que Portugal também possa sair da sua situação actual. Actualmente, está em vigor um modelo onde as suas empresas actuam efectivamente num mercado global, mas se limitam passivamente a produzir uma dada quantidade a um preço definido externamente (concorrência perfeita); e substituir o que existe actualmente para um modelo onde existe uma alta diferenciação e especialização e são as empresas que definem, tendo em conta as condições existentes, o preço que cobram (concorrência oligopolística).

É precisamente este modelo de competição oligopolística que convém promover em Portugal:
German firms, producing high-tech, high value-added, high-priced and mostly very complex manufacturing goods, do not directly compete with Spanish, Portuguese, Greek or even most Italian firms, which are specializing in lower-tech, lower value-added, low-price and less complex goods (Simonazzi et al. 2013). German firms are price-setters and dominate their niche markets, while Greek and Portuguese firms instead compete with low-cost Asian producers—on costs (but not just labor costs)—and get pushed out from their markets by their Chinese competitors (Straca 2013). The upshot is that real-life competition in oligopolistic markets cannot be reduced to just unit-labor-cost competition—whatever the textbooks want us to believe. And if one insists on focusing on unit labor costs, then there is no reason why one should not also look at unit capital costs (or profit margins), as is argued by Felipe and Kumar (2011); oligopolistic firms might as well compete on profit margins. 
E, reparem, isto não é uma defesa de que Portugal deve começar a investir em massa em fábricas de automóveis, apostar em fábricas de maquinaria pesada, ou todas as imagens que se nos oferecem quando pensamos na indústria alemã. Isso é simplesmente a concretização alemã do modelo que aqui defendo, que tem em conta o seu contexto, a sua história, a mão-de-obra disponível, e o capital existente. O que torna a Alemanha especial, o que permite que o país tenha abandonado o paradigma da concorrência perfeita, e avançado para a concorrência imperfeita, é a existência do Mittelstand (recomendo vivamente a leitura deste link), e em especial a conjugação de quatro princípios, o ethos que dá alma a estes hidden champions:
  1. Strategy: Global niche dominance
  2. Governance: 'Enlightened' family capitalism
  3. World class performance in core processes
  4. Locational advantages: The German microeconomic business environment
E não querendo cair nas tentações dirigistas que tão bem caracterizam os nossos actuais actores políticos, convém perceber quão bem este ethos pode encaixax naquilo que já temos. Afinal de contas, o caminho que o vários sectores têm vindo a percorrer (calçado, têxtil, vinhos, agricultura, metalúrgico..) é precisamente este: empresas pequenas, normalmente de gestão familiar, que estão altamente especializadas, a produzir produtos de excelente qualidade.

São estas as pequenas e médias empresas que estão a gerar emprego duradouro, melhor pago do que o que havia anteriormente. E são estas a empresas que estão a dominar os seus nichos: os nossos produtos, seja em segmentos de venda ao consumidor, seja no B2B, começam a dar cartas.  E, claro está, a particularidade das nossas vantagens competitivas (o nosso know-how e a nossa história e contexto não nos permite criar indústria como a Alemanha o fez) leva a que a implementação seja diferente. E é inegável que mesmo tendo nós os custos da mão de obra a aumentar relativamente à Alemanha, as nossas exportações cresceram relativamente mais que as alemãs!

Nunca esquecer que foi o socialismo que nos deixou no estado em que estamos. A insistência no Estado como motor de desenvolvimento só contribui para o nosso atraso; e, de resto, convém lembrar que toda a lenga-lenga da procura interna leva a um efeito muito engraçado:
In a nutshell, since the mid-1990s, Germany has become stronger and more productive in high-value-added, higher-tech manufacturing (in conjunction with outsourcing to Eastern European countries), while Southern European countries became more strongly locked into lower-tech, lower value-added and, often, non-tradable activities. (Storm and Naastepad 2015c). This has reinforced the core-periphery relationship between Germany and the Southern-European countries—meaning that Southern European growth spills over into German growth (via trade and finance) but not vice versa (Janger et al. 2012; Simonazzi, Ginzburg & Nocella 2013; Botta 2014; O’Connell 2015). This centrifugal process has been fueled and strengthened not just by the surge in cross-border capital flows following the introduction of the euro, but also by the common currency itself (as argued by Wierts, van Kerkhoff and de Haan 2014) as well as by the centralized and uniform interest rate policy of the ECB which up to 2008 was perhaps appropriate for stagnant and low-inflation Germany, but was undeniably out-of-sync with inflation levels in Southern Europe (Storm and Naastepad 2015c).
E reparem quão bem esta ideia encaixa nas aspirações dos liberais Portugueses, servindo simultaneamente para responder às ânsias de muitos portugueses. Não só é possível explicar porque é que o socialismo vigente nos afunda cada vez mais, como é possível apontar uma saída plausível (porque já resultou lá fora, e tudo parece indicar que pode resultar cá) para a nossa situação. É possível mostrar como é que, mesmo sem o Estado da equação, pela força e vontade das pessoas em prosperar, há possibilidades efectivas de melhorar a vida de todas as pessoas que querem trabalhar, ser honestas e viver a sua vida sem problemas. E não passsar esta mensagem parece-me ser uma missed opportunity.

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Estratégia liberal no esquerdistão (III)

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I.

Escolho começar este texto pelo reconhecimento de que estou a fugir ao habitual tipo de posts que faço por aqui, por duas grandes razões: por um lado, é um post eminentemente político; por outro, é também contraditório. Sempre fiz questão de afirmar o meu desgosto (também podia dizer nojo) pela política enquanto actividade, e sempre fiz questão de afirmar o porquê de assim o ser. Mas, e daí a parte contraditória, estou cansado e esgotei a esperança de que isto vai lá por si só. O tombo que o país levou desde 2007-8 foi brutal: não bastava o já de si desagradável ajustamento económico (que só aconteceu em parte), mas também o esforço que teve de ser feito para manter o status quo ter sido extremamente pesado (e foi bem mais pesado do que o esforço do ajustamento económico).

A 3ª República está falida, de um ponto de vista moral e financeiro. É visível e palpável a corrupção que assola o aparelho do Estado, a burocracia que tolhe o normal funcionamento do país, o hipotecar do futuro das gerações vindouras graças a décadas de acumulação de défices públicos e respectiva dívida pública, a captura do aparelho público por parte de grupos privados e "elites" podres, a existência de leis anacrónicas e que castigam o comum cidadão, o completo afastamento (e respectivo alheamento) da população dos processos de decisão sobre a coisa pública, e, não menos importante, o atraso económico.

A tudo isto se junta, em simultâneo, um status quo que domina a política e a comunicação social que não oferece qualquer tipo de mudança ou alternativa credível relativamente ao que tivemos até agora - os partidos que proclamam a diferença e a alternativa propõem apenas uma dose mais forte do lastro que tem vindo a afundar o país. Não muda o medicamento, apenas se aumenta a dose. Perceber que o Estado e os seus instrumentos directos de controlo sobre o país estão capturados por uma plutocracia - metade partido, metade grandes grupos económicos - é essencial. Não podemos ignorar que o problema da captura é algo real, documentado, e que acontecerá independentemente da cor partidária enquanto algo não mudar.

É isso que me leva a tentar fazer algo: a noção de que o "sistema" está caduco, e que tem de haver uma refundação moral e ideológica das instituições para que possa haver alguma esperança num futuro melhor. Aqui gostava de partilhar aquilo que vejo como uma possível saída para o país. Este texto é o começo desta empreitada "macro".

II.

Assim sendo, proponho duas verdades que serão os pilares fundamentais de tudo o que será escrito daqui para a frente: por um lado, que o Estado, definido para este efeito como a instituição que detém o monopólio sobre o poder coercivo da força, é um mal; por outro, que a Liberdade, definida em termos negativos como a não interferência por terceiros em assuntos de foro individual, é um bem. Daí que haja uma escolha clara de minimizar um e maximizar o outro. Tudo o que for escrito e aduzido daqui para a frente terá estas duas premissas como base. Sei que muita gente não concordará com estes pressupostos, mas estas parecem-me ser as verdades (com "v" pequeno) que escolho como "self-evident".

Sei que estas premissas não são consensuais, mesmo entre pessoas que partilham o mesmo espaço político que eu. Nem tampouco o ponto de equilíbrio, a existir, será igual para todos. Levará a discussões, a mal-estares e até a quem ache que tal organização deixará de ser parte da solução, passando a fazer parte do problema. Mas isso acontecerá em qualquer tentativa de organização política. O importante será ter noção que a política é uma tentativa de solução de um problema de coordenação a nível colectivo; e que se garantirmos a observância daqueles princípios, a solução tenderá a ser melhor.

E quando escolho estas verdades, sei que também estou a implicitar um ideal de pessoa. Qualquer desenho institucional, seja ele feito de forma orgânica ou de cima para baixo, favorece certos traços de personalidade e comportamentos individuais. Mas esta noção é fundamental. Não sendo possível (nem desejável) que as instituições desenhem um homem novo, elas norteiam e balizam o comportamento dos indivíduos. Será desejável que as instituições favoreçam a responsabilidade individual, a cooperação entre partes livres, e também a competição entre respostas alternativas. De igual modo, será desejável que se desencoraje as falhas de carácter (mentira, fraude, desresponsabilização) e que, de igual modo, não se permita que as eventuais falhas das instituições penalizem quem tente trabalhar e viver de forma honesta.

III.

A formação de um partido de índole liberal é uma das possíveis respostas para melhorar a situação do país. No post anterior deixei antever a minha simpatia por esta solução. Tal deve-se a uma situação de mero confronto com a realidade: as outras soluções tentadas, até agora, não surtiram frutos, e não antevejo que tal vá mudar — e se estiver errado, terei todo o gosto em reconhecê-lo pois isso era sinal de que a causa do liberalismo em Portugal poderia avançar.

De todo em todo, um partido é uma arma extremamente perigosa. Se pode por ele pode passar a resposta de que precisávamos, também por ele pode passar o prego que faltava no caixão do liberalismo em Portugal. Ou, e admitidamente o mais provável, é que não tenha efeito algum, e passe a fazer parte da espuma dos dias. A meu ver, há algumas condições que têm de existir para que possa existir possibilidade de sucesso.

    1. Definição de uma estratégia clara - o que é, mas acima de tudo o que não é, o partido liberal
    2. Definição de uma mensagem clara - qual é o problema ao qual quer dar resposta, e que resposta é essa
    3. Definição de objectivos claros - onde se quer chegar, como se pode lá chegar, quando se pode lá chegar

Gostava de me ocupar do primeiro. Os outros dois serão algo que seguirão naturalmente, e certamente que haverá várias maneiras de aplicar a mesma estratégia. Aliás, será a existência e tentativa de várias maneiras diferentes de aplicar a estratégia que permitirá maximizar a possibilidade de sucesso desta empreitada.

Desde já, muito do que vou escrever será informado por ideias que vêm do mundo empresarial, em especial com recurso a estudos de casos de sucesso de empresas start-up, que começam do 0, com pouco mais do que uma ideia e parco capital. Recentemente, li na HBS a publicação de um artigo que me parece adaptar-se como uma luva ao que procuro explicar: Lean Strategy. Aconselho vivamente a leitura para se perceber melhor alguns pontos que não tenha capacidade de passar. Mas, acima de tudo, o ponto mais importante (e de onde se depreende a importância da estratégia) é o seguinte: «Indeed, the single best piece of advice for any company builder is this: Know what not to do. Strategy helps you figure that out.»

Um partido liberal, a existir, deve ter sempre em vista que idealmente não seria preciso para nada. O dia em que a sociedade portuguesa passar a ser liberal, onde o princípio da liberdade se sobreponha ao monstro estatal, é o dia em que o partido liberal deve arrumar as botas e terá a sua missão cumprida. É assim com todas as empreitadas que procurem transformar a sociedade. E no dia em que esse objectivo estiver cumprido, deixa de fazer sentido a existência de um partido liberal.

Devido às condicionantes, deve-se definir bem quais são as vantagens competitivas e procurar apostar o máximo possível em organizar as actividades de um partido liberal em torno dessas vantagens. A meu ver, há algo que o diferencia decisivamente dos partidos já existentes: o partido liberal oferece a resposta correcta aos problema do país; e fá-lo de uma posição de fora do status quo. Daí que seja fulcral, por um lado, construir uma mensagem clara e, por outro, fazer ver que essa mensagem se opõe frontalmente ao que tem sido o curso do país.

A pergunta "porquê essas duas?" é perfeitamente legítima. A meu ver, e tendo em conta o mercado político existente, será fundamental deixar o mais claro possível o porquê de a resposta dada ser a correcta — só assim se pode garantir uma mudança de fundo na sociedade. O facto de ser necessário vincar o facto de a mensagem surgir de uma posição de fora do sistema é igualmente fundamental para o sucesso; afinal de contas, só assim pode haver uma hipótese em procurar persuadir a fatia dos votantes que não se revêm nos partidos existentes e nas respostas que eles procuram dar, nem tampouco se revêm no sistema que existe em Portugal.

A pergunta "por que não outras?" é também importante. Aqui não tenho uma resposta. Será o processo de aprendizagem proveniente da aplicação da estratégia no caso real que permitirá revê-la — e certamente que será necessário revê-la, a certo ponto. Por ora, isto é uma análise teórica. Sem dúvida que existirão outras vantagens competitivas que permitirão, simultaneamente, diferenciar o partido liberal dos restantes e concretizar a estratégia.

A existência de uma estratégia não implica uma mensagem fixa, ou que os objectivos não possam ser revistos. Como qualquer startup, os elementos exógenos (e que não se podem controlar) têm uma influência fundamental nos objectivos de curto-médio prazo, e naquilo que será a mensagem a passar para fora. Mas isso não será um problema — pelo contrário, fará parte do vigor — pois existirá essa estratégia que garante coerência entre aquilo que é dito, aquilo que é feito, e onde se quer chegar a curto, médio e longo prazo. Este processo de aprendizagem e mudança será fulcral para o sucesso, visto que a navegação será feita por águas que ninguém conhece com certezas. E será a estratégia que permitirá levar este barco a bom porto.

E o que não se deve fazer? A resposta aqui é mais difícil, e a experiência será aqui também fundamental para perceber. Mas acho que há alguns pontos demais óbvios.

    1. O mais óbvio será o de ter noção de que qualquer que seja a concretização da mensagem, vai sempre haver (muita) gente que irá discordar, independentemente da qualidade do trabalho do partido liberal ou da veracidade e cogência dos seus argumentos; mas não adianta perder tempo e recursos com essas pessoas, e ter noção que o objectivo não será roubar votantes ao BE ou ao PSD, mas sim à abstenção — no fundo, não tentar vender algo a alguém que não vai comprar.
    2. Igualmente (ou talvez mais) importante é não vender um produto a alguém que não está disposto a pagar o preço que se acha adequado; o objectivo do partido liberal, especialmente numa fase de início, nunca deve ser o de lutar no jogo de maximizar o volume, mas sim de trabalhar com clientes de margens elevadas — isto traduz-se de forma simples: não diluir a mensagem para agradar a mais pessoas. Criar massa crítica é fundamental, e de qualquer modo parece estar a dar-se o caso de que o tempo dos partidos de massas estar a acabar.
    3. "Start-ups are not smaller versions of large companies. They do not unfold in accordance with master plans. The ones that ultimately succeed go quickly from failure to failure, all the while adapting, iterating on, and improving their initial ideas as they continually learn from customers." Isto para dizer: o partido liberal não é um partido estabelecido, com uma mensagem convencional. Não se deve olhar para esses partidos para ter inspiração, pois o objectivo não é tornar-se um deles.
   
Mais uma vez, haverá muito mais a não fazer. Aplicam-se, claro, os princípios básicos da decência: não mentir, não roubar, não praticar fraude, admitir erros, e procurar sempre fazer melhor. Mais do que princípios liberais, a sociedade precisa de princípios de comportamento. Mas esses, para o bem e para o mal, só podem ser transmitidos através de bons exemplos.
   
IV.

Acho que antes de terminar, há algumas palavras que gostava de deixar. Em primeiro lugar, é provável que esta empreitada vá falhar. Seja por falta de interesse, seja porque a estratégia seguida (a que foi aqui delineada, ou outra) se revele errada, seja por falta de recursos, seja por erros catastróficos, quezílias internas ou externas, ou simplesmente porque o país não está preparado. Independentemente disso, e repetindo-me um pouco, pelo menos seria bom tentar e dar o melhor.

Em segundo lugar, não vai ser fácil. Afinal de contas, as discussões internas («If you put two economists in a room, you get two opinions, unless one of them is Lord Keynes, in which case you get three opinions.» -e os liberais tendem a ser um pouco como o Lord Keynes) e as externas (os socialistas deste país nunca foram propriamente fãs da liberdade de expressão, mas sempre foram bastante fãs do insulto) serão intensas e muito desgastantes.

Em terceiro lugar, e para terminar da mesma maneira que o post anterior, "também acho que [um partido liberal] pode ser uma ferramenta que pode destruir a réstia de esperança que há em mudar o país". Ter isto em conta será fulcral para garantir o eventual sucesso.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Estratégia liberal no esquerdistão (II)

2 comentários:
(Faz hoje 4 meses do último post neste blog. Mas ainda cá estamos, nada temam.)

Nesta última semana, muito se tem falado sobre um partido liberal. Umas pessoas contra (ex., outro), outras a favor. Acho que o post mais interessante é mesmo o primeiro que citei, do Rui A. (que expande sobre o mesmo assunto aqui e aqui), porque me parece conter a expressão mais correcta do sentimento mais presente nos grupos liberais portugueses. Tem ainda a vantagem de esse post fazer uso de uma analogia (a política como actividade de mercado, o partido como empresa, o votante como consumidor, etc) como forma de ilustrar o argumento. É esse post (e essa analogia) que vai servir de base para o que vou escrever. Mas permitam-me começar um pouco mais atrás.

No último post deste blog ("Estratégia liberal no esquerdistão") falava de um assunto a jusante deste; ali, procurava definir uma estratégia de comportamento individual (na boa tradição Miseana) que depois poderia ser extrapolada para empreendimentos colectivos. O post terminou de uma forma um pouco atabalhoada ("A nível institucional, não sei responder a essa questão, mas vou pensar sobre o assunto.") porque, de facto, não sabia como responder. A resposta fácil a nível institucional (viz., criar um partido) sempre me causou repulsa e referi-o já várias vezes, neste blog e noutros sítios. No entanto, e tenho de reconhecer, não me ocorrerem, até hoje, outras. Explico.

Fui participante no defunto Movimento Libertário, que desapareceu porque as pessoas que dinamizavam aquele espaço perderam o interesse — eu perdi-o porque me pareceu que os esforços que desenvolvia não estavam a surtir o efeito desejado. Naturalmente, alheei-me do projecto, e eu e os meus camaradas percebemos que não valia a pena continuar a insistir. Declaramos bancarrota, e cada um seguiu com a sua vida. Tenho alguma pena, mas acho que o trabalho que fizemos foi bom e meritório.

Fui participante no ainda vivo Instituto Ludwig von Mises Portugal. Deixei de participar porque deixei de me rever na forma como o Instituto era orientado — i.e., a estratégia que a nova (à altura) direcção tomou não me parecia correcta, e distanciei-me também desse projecto. Aqui, tenho ainda mais pena, pela admiração velada que tenho pelo ILvM americano, e por ter visto aquilo que foi possível fazer no Brasil através dos esforços do ILvM-Brasil. A versão portuguesa é até agora um falhanço. Se calhar, não dei o meu melhor para que as coisas fossem diferentes, mas isso é imaterial.

Haverá ainda outras concretizações institucionais, umas bem sucedidas (acima de tudo, o Insurgente e o Blasfémias) e outras nem tanto (Causa Liberal, PLP, outros que não me ocorrem ou não tenho conhecimento). Há razões, muitas, para assim ser. Mas parece-me que há duas que são fundamentais: por um lado, a estratégia (quando existia) era insuficiente ou errada; por outro (ou devia dizer: por causa disso), o desenho institucional não era o mais indicado. O facto de haver "muitos" liberalismos, o facto de supostamente haver "purgas" (apesar de eu nunca ter assistido a isso), de as pessoas discordarem, ou de sermos poucos, parecem-me ser apenas desculpas para ficar parado. E aqui, voltava ao post do Rui A.

A analogia de base parece-me ser correcta; isto é, há de facto muitas similaridades entre uma empresa e um partido, entre o mercado e a democracia, entre um votante e um consumidor. O que me parece é que há um entendimento errado sobre como (na prática) funciona o mercado, e sobre o que é preciso fazer para uma empresa que começa do 0 (ou próximo disso) possa ter viabilidade. O Rui A. diz que para um partido liberal triunfar "carece de causas e objectivos, de bons vendedores e, obviamente, de um presidente do conselho de administração que seja carismático e atraia as preferências dos consumidores." Eu, pessoalmente, discordo.

Do mesmo modo como o mercado mudou — a paisagem do século XX não é a mesma do século XXI, seja no mundo empresarial, seja na política —, também mudaram os caminhos para obter o sucesso. O exemplo mais premente desta mudança de paradigma é o caso da Procter & Gamble; o gigante dos bens de consumo tem desde finais da década passada procurado estar em menos e menos negócios, e a concentrar-se naquilo que faz bem (leia-se, nas marcas mais lucrativas). Em 2014 anunciou que ia vender mais de 100 das suas marcas, e já em 2015 vendeu 43 marcas de produtos de beleza. Não é que os negócios que a P&G vende tenham deixado de ser lucrativos; mas a verdade é que o tempo dos grandes conglomerados que fazem de tudo um pouco ("jack of all trades, master of none") está a chegar ao fim. E isto, na política, quer dizer que a ideia do partido de massas está a acabar. (Note-se que quando estes partidos surgiram, fizeram-no fora das estruturas e instituições políticas existentes, para dar resposta aos novos votantes, que não estavam representados pelos partidos já existentes.)

Uma empresa, para ser bem sucedida no séc. XXI, tem de ter uma estratégia, algo diferente das "causas e objectivos". Isto é, tem de saber qual é o problema ao qual quer dar resposta, e tem de saber o que pode (e não pode) e quer (e não querer) fazer para dar essa resposta. Precisa de um bom vendedor, mas o trabalho do vendedor passou a ser explicar que o seu produto é o que melhor dá resposta ao job to be done, independentemente do seu custo ser elevado ou não — isto contrasta com o vendedor do séc. XX que procura vender o máximo de volume possível, nem que para isso tenha de esconder informação ou oferecer descontos brutais. Os consumidores têm as suas preferências, que não mudam assim tanto, especialmente no caso da política; o trabalho da empresa é desenvolver o melhor produto que dê a melhor resposta possível a esse problema, e não fazer o consumidor mudar as suas preferência para ir de encontro ao seu produto. 

Mais: de nada interessa que o CEO seja um tipo carismático ou um introvertido de primeira água: o que interessa é que o cliente fique satisfeito. Olhem para Espanha: o Podemos atingiu a votação sem um líder carismático (Pablo Iglesias tem tanto de carismático como de liberal). O Cs e Albert Riviera idem. Mesmo no caso português, e com todas as qualidades intelectuais e políticas de Francisco Louçã, o carisma nunca foi uma arma que lhe assistiu. Pelo contrário, sempre soube explicar muito bem o que representava e porque achava que a sua resposta era a correcta para os problemas que assolavam as pessoas. Muita gente acreditou, muita gente discordou. Mas a verdade é que o BE é um caso de sucesso ao nível partidário, mesmo sem um líder carismático, com vendedores que não procuravam agradar a todos, e que não iam ao encontro das pessoas, mas sim com as pessoas a irem de encontro à linha do BE. 

Daí que não consiga perceber a sugestão do Rui A. em dizer que os liberais devem juntar-se ao CDS e ao PSD. Partidos esses que não têm uma mensagem clara (PSD) ou que têm uma mensagem pouco ou nada liberal (CDS). Esses são os liberais que estão a diluir e confundir a mensagem. É como eu querer vender uma distribuição de GNU/Linux e decidir que a melhor maneira é juntar-me à Microsoft para os convencer a fazê-lo. O mais provável é eu acabar a usar Windows.

Daí que discorde de Rui A. Acho que há um mercado considerável por explorar para o liberalismo em Portugal. Acho que um partido pode ser uma boa ferramenta para mudar o status quo. Mas também acho que pode ser uma ferramenta que pode destruir a réstia de esperança que há em mudar o país. Daí que seja uma linha a caminhar com muito cuidado. Continuo sem saber se se deva fazê-lo, mas nos próximos dias vou tentar explicar como, a meu ver, tal empreendimento pode ter sucesso.

segunda-feira, outubro 19, 2015

Estratégia liberal no esquerdistão

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O panorama político português tem uma forte influência das ideologias de esquerda: entre sociais-democracias, socialismos, e comunismos, pouco espaço sobra para o resto. Isso acaba por se reflectir na comunicação social, que tem uma visão do mundo tendencialmente esquerdista (é irrelevante se essa tendência é ou não premeditada, apenas interessa que ela está presente), e na percepção que existe sobre o que é a opinião pública portuguesa. Afinal de contas, independentemente dos partidos que apoiam, a maior parte dos eleitores portugueses têm mais ou menos as mesmas opiniões sobre qual o caminho a seguir para atingir uma sociedade melhor — e daí se explicar que os partidos em Portugal sejam relativamente parecidos.

Para quem defende algo remotamente liberal, o panorama é desanimador. Isto não é (ou não devia ser) novidade para ninguém. É desafiante tentar participar numa discussão num qualquer espaço público (num café, na faculdade, numa rede social) e assumir frontalmente uma posição liberal. A resposta normal é a pessoa com tal opinião retrair-se, pois ao fim do quarto ou quinto "está calado, seu fascista!" começa a tornar-se cansativo. E isto não faz dos liberais uma espécie de mártir, vítima das maiorias esquerdistas que não gostam de ouvir contraditório. Apenas é o resultado normal de um processo de tentativa de controlo do discurso, onde quem faz parte do status quo fará sempre por abafar aquilo que ponha em risco a sua base intelectual.

O que fazer? Pondo de lado o incitamento à revolta armada e a um movimento secessionista do povo do Norte, onde nos juntaríamos aos nossos irmãos galegos (isso ficará para outra altura), o problema de conseguir fazer com que a ideologia liberal tenha maior peso junto dos que nos são próximos (e só depois sonhar com os que nos são longínquos) é importante. Daí que esta semana me tenha cruzado com duas leituras que me parecem que podem iluminar o que poderá ser uma estratégia liberal no esquerdistão.

A primeira é um artigo no Washington Post, baseado num paper intitulado "The Majority Illusion in Social Networks" que explica como é que é relativamente fácil existir uma desconexão entre a observação local por parte de um indivíduo, e aquilo que é realmente o comportamento/opinião da maioria. Se tivermos em conta que a formação de uma opinião ou o comportamento de uma pessoa é, em parte, baseado em considerações sociais (sendo mais frequente uma pessoa adoptar algo que vê que uma boa parte das suas relações também adoptou), podemos ver o efeito poderoso que um pequeno grupo de pessoas pode ter na sociedade.

A outra é um artigo de Nassim N. Taleb que explica, com recurso a exemplos (e.g., comida kosher, halal, a utilização do inglês em grupos grandes, etc), como é que uma minoria consegue, estando reunidas algumas condições, "impor" comportamentos à maioria. Usando o exemplo da comida kosher, a ideia é que uma pessoa que siga uma dieta kosher apenas pode comer certo tipo de comida, enquanto que uma pessoa que não tenha restrições dietárias poderá consumir qualquer tipo de comida. Daí que a solução de "equilíbrio" tenderá para ser que a produção alimentar adopte as regras kosher, pois assim pode chegar a consumidores kosher e não-kosher. Certamente que esta "regra" (se lhe podemos chamar assim) dependerá do tamanho relativo dos diferentes grupos, do que implica a adopção dos diferentes comportamentos, e por aí afora. Mas a ideia base será sempre a mesma.

O que é que tudo isto implica para a "estratégia" de um liberal (ou grupo de liberais) que gostava de mudar um pouco o panorama? Em primeiro lugar, há que perceber que precisamente pelo facto de o panorama partidário estar completamente "commoditized" — como vimos, os partidos políticos em Portugal têm um eleitorado que, mais coisa menos coisa, tem todo a mesma opinião, e os partidos respondem a isso propondo, mais coisa menos coisa, a mesma coisa —, essa comoditização leva a uma gigante oportunidade para que possa aparecer algo/alguém que diga algo diferente. Afinal de contas, e a julgar pelos números da abstenção, há uma considerável fatia da população que não se revê nessa visão que os partidos actualmente existentes nos oferecem. 

Se a esta ideia de que o espaço político português está maduro o suficiente para ser aproveitado por alguém que diga algo diferente, juntarmos as ideias de que um pequeno grupo de pessoas pode ter um efeito poderoso na percepção da adopção de uma ideia; de que essa percepção pode afectar decisivamente a aceitação efectiva dessa ideia; e de que uma minoria pode, reunidas as condições certas, levar uma maioria a adoptar comportamentos que até então não o teriam; então o que teremos?

Teremos que, e aqui entra a opinião pessoal, o liberalismo pode passar a influenciar o discurso e as decisões políticas em Portugal, dado que cumpra algumas regras base, nomeadamente: 

  1. Que a razão estará do nosso lado, mas que isso implica saber do que se está a falar, implica estudo, e implica o mínimo de coerência e decência — viz., as pessoas não são estúpidas, os esquerdistas não são seres inferiores, toda a gente se engana e que o nosso trabalho é explicar o melhor possível, não insultar.
  2. A noção de que vale a pena entrar em discussões onde se possa dar uma visão liberal sobre o assunto em questão, mas que não vale a pena deixar que a discussão se arraste para o lamaçal do costume; o objectivo não é "converter" esquerdistas, o objectivo é fazer ver que existe uma posição liberal e que terceiros, que leiam aquela discussão, vejam que é uma posição defensável.
  3. A rejeição da associação aos partidos actualmente existentes. A rejeição da participação neste jogo partidário, num ping-pong entre PSD/CDS/PS/etc. Não me vou alongar muito aqui, mas é fácil ver que nenhum eles é liberal ou procura defender o liberalismo. (cf. A direita "liberal" Portuguesa
  4. Fazer o caso positivo pelo liberalismo. Se o socialismo e afins são maus, péssimos, horríveis e tudo mais, é relativamente indiferente. Se aos olhos das pessoas o liberalismo não for uma alternativa credível (e é esse o trabalho que temos de fazer), então de nada adianta que o socialismo seja mau, péssimo, horrível.

Certamente que, posto tudo isto, surgirá a pergunta de como é que se concretiza esta estratégia liberal. A nível individual, é fácil e óbvio: cada liberal deverá evitar retrair-se, e fazer ver que existe uma alternativa legítima ao status quo, e que o liberalismo pode providenciar essa alternativa. Acho que é por aí que deve começar. A nível institucional, não sei responder a essa questão, mas vou pensar sobre o assunto.

sexta-feira, outubro 16, 2015

A distribuição de riqueza no séc XXI

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A distribuição de riqueza, como existe hoje, é um problema. Negar isso e encolher os ombros é um erro de enormes proporções. Note-se que isto não é uma preocupação igualitarista, porque o problema que identifico não é contra a desigualdade em si, mas apenas com a forma como chegamos a este ponto. Este processo de transferência de riqueza para as mãos de poucos — os que beneficiam do modo como o "jogo" está montado — deve ser denunciado, pois prejudica precisamente as pessoas que procuram fazer a sua vida de modo honesto.

A seguinte imagem ajuda a perceber porque é que esta não é uma preocupação igualitarista:


A identificação da acção dos bancos centrais como agentes primeiros na criação de desigualdade na distribuição de riqueza já não é de agora. Aquilo a que se convencionou chamar "efeitos Cantillon" (algo já conhecido desde o século XVIII) explica bem o que se está a passar na ilustração acima: a ideia de que as políticas monetárias expansionistas dos bancos centrais são "neutras" e que há um número mágico que coloca o mercado em equilíbrio (sem qualquer efeito secundário no crescimento económico) é mentira; como sabemos que os mecanismos de transmissão monetária estão longe de ser perfeitos, é obviamente diferente receber o dinheiro criado nos balanços dos bancos centrais em primeiro lugar (quando ainda não houve ajustamento) do que em último (quando a economia já incorporou a nova quantidade de base monetária).

Por isso é que não se pode falar do aumento da desigualdade e da má distribuição de riqueza sem falar nas acções que os bancos centrais têm vindo a desenvolver já desde os finais da década de 70, e com especial ênfase desde a crise de 2007/8 (que, lembrem-se, está longe de estar ultrapassada — afinal de contas, dá sempre a sensação que estamos a um espirro de um evento catastrófico, só este ano já foi a Grécia, a China, as flutuações diárias de 5000pts na bolsa americana, etc).

domingo, agosto 02, 2015

Porque erram os economistas?

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0.

«Porque erram os economistas?», publicado no Observador, é um artigo que toca num dos meus assuntos preferidos. E é um artigo especialmente bom de se ler porque põe a nu toda uma série de questões de que gosto muito de falar. Sendo escrito por um PhD em Física, alguém que sabe lidar com uma ciência a sério, estão reunidas todas as condições para que volte a poder falar do assunto (talvez seja interessante ler este post, para quem gostar do assunto).

1.

O primeiro ponto tem que ver com o objectivo da Economia (enquanto objecto de estudo). O que é que podemos esperar de uma teoria económica? Pelo que leio do artigo, é assumida uma posição marcadamente instrumentalista; isto é: a Economia serve para prever fenómenos económicos. É o seu propósito (aim), sendo a "qualidade" (latu sensu) de uma teoria económica medida em função da sua capacidade de prever. Não há nada de particularmente radical aqui, visto ser assim que a maior parte dos economistas pensam, pelo menos, já desde o tempo do sempre muito citado paper de 1953 de Milton Friedman The Methodology of Positive Economics:
Positive economics is in principle independent of any particular ethical position or normative judgments.  As Keynes says, it deals with “what is,” not with “what ought to be.”  Its task is to provide a system of generalizations that can be used to make correct predictions about the consequences of any change in circumstances.  Its performance is to be judged by the precision. scope, and conformity with experience of the predictions it yields.  In short, positive economics is, or can be, an “objective” science, in precisely the same sense as any of the physical sciences.
Esta posição, contudo, parece-me ser a primeira razão pelos quais os economistas erram: porque se focam pura e simplesmente numa Economia que apenas prevê, e não explica. E, correndo o risco de incorrer nos perigos a que o realismo científico nos leva, permitam-me assumir uma forte posição a favor do objectivo da explicação. E é fácil (apetece-me mesmo usar a palavra preguiçosa) equacionar explicação com poder de previsão, mas não é bem isso que estou a pensar; pelo contrário, uma disciplina deverá ser capaz de explicar o porquê de um dado fenómeno acontecer, e terá de ser julgada de acordo com a sua concordância (ou inexistência de contradição) para com a realidade. E sim, estou convencido que é a única solução para que os economistas dêem o passo certo para que deixem de errar.

Resumindo, os economistas erram porque se focam muito na previsão, e nada na explicação. Mas porquê?

2.

Porque o problema da Economia mainstream não é a relativo à qualidade ou abundância dos dados. E suponho que seja aqui que se gere a maior confusão para quem vem de um background onde o "método científico", inspirado no falsificacionismo Popperiano, funciona relativamente bem. De certo modo, percebe-se que haja uma tentativa de emular uma série de processos e modelos que se revelaram bem sucedidos noutras áreas. O problema é quando já andamos há coisa de 70 ou 80 anos (estou a pensar no trabalho de Irving Fischer em meados da década de 20, e de Ragnar Frisch e Jan Tinbergen na primeira metade da década de 30 — sendo que estes dois últimos acabam por ganhar, em conjunto, o primeiro prémio Nobel da Economia) a insistir nos mesmos erros.

Arrisco a responder a pergunta do título da seguinte maneira: os economistas erram porque ainda não perceberam o que deviam estudar. Do meu contacto com o processo de formação de economistas, de economistas em diferentes pontos da sua carreira académica, bem como de economistas já formados, sempre notei que existia uma grande preocupação em entender bem o formalismo que assistia a modelização da economia, em conjunto com a necessidade de se sentir por dentro da espuma dos dias no que toca às movimentações do mercado de capitais, das empresas, e até mesmo das novas trends que davam sinais de se poderem tornar importantes. No entanto, poucas pessoas procuravam entender o ser humano, ficando-se apenas pelos resultados aparentes das suas acções. O interesse não estava no porquê de as pessoas se comportarem de dada maneira, mas apenas em tentar desenvolver modelos que pudessem prever o seu comportamento.

Os economistas erram porque têm a caixa de ferramentas errada. Um físico que ao tentar estudar a formação do universo, use como base um livro de física do século XV, irá chegar a resultados estranhos; do mesmo modo, também um economista que use a framework neoclássica, e a partir daí tentar construir conhecimento através de um método empírico de recolha, tratamento e modelização de data, irá chegar a resultados estranhos. Irá, por exemplo, perceber que há inversão de preferências, que elas não são bem ordenadas, que a maximização não é o objectivo, etc. E, no entanto, continuará a tentar resolver os seus puzzles usando uma forma de ver o mundo que lhe diz que tudo aquilo é verdade, apesar de a realidade lhe mostrar que é mentira.

3.

Há uma série de razões para isto acontecer, e a maior parte podem caber dentro daquilo a que se convencionou chamar sociologia do conhecimento. Já por este blog se falou um pouco sobre a situação ser como é, e não de outro modo. Talvez também contribua para toda esta situação a gritante falta de reflexão que a maior parte dos economistas têm perante a sua disciplina — e se me disserem que um biólogo ou um químico também não fazem reflexão sobre a sua ciência, certamente que terão razão, mas não me parece que eles precisem; algo que não se passa com os economistas: afinal de contas, não é comum escrever-se artigos com títulos como "porque erram os biólogos?".

Sejamos sérios. Os economistas não erram porque a economia é mais complexa de que se pensava. Porque se assim for, podemos já arrumar as botas: especialmente desde a entrada em cena da internet, o mundo está-se a tornar cada vez mais complexo, mais fragmentado e mais heterogéneo, e esta tendência não dá sinais de abrandar. Também não erram porque os dados que tinham ao seu dispor eram de fraca qualidade ou insuficientes.

Os economistas erram porque não querem dar o braço a torcer e reconhecer que andamos a, e perdoem-me a expressão, encher chouriços. Porque não reconhecem os problemas e limitações inerentes ao método que usam. Há que mudar o paradigma

sexta-feira, junho 26, 2015

Isto não é post sobre as eleições legislativas

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Os últimos anos em Portugal (talvez desde 2008/9) têm sido particularmente penosos em termos económicos, com todas as consequências sociais que se conhecem. Falo naquele par de anos porque, apesar de o país antes dessa data já estar numa trajectória de degradação, é nessa altura que se manifesta a verdadeira crise. E há que perceber que Portugal teve, em simultâneo, três crises a acontecer: por um lado, uma crise relacionada com a dívida pública e privada, e do respectivo financiamento; por outro, uma crise relacionada com o reajustamento da economia; e, por último, os efeitos que o abrandamento das economias dos nossos parceiros económicos externos. Claro que todas elas estarão relacionadas — afinal de contas, a economia é um sistema orgânico, que obedece a relações de causalidade — mas para as tentar resolver, será interessante pensar nelas em separado. Sendo que em relação à última pouco se pode fazer, resta concentrar nas outras duas, e eu só vou aqui falar de uma.

A mais importante, a meu ver, sempre me pareceu a segunda. Portugal, durante muitos anos, viveu à custa da procura interna, com constantes défices da balança comercial, garantindo que o desemprego estava mais ou menos sob controlo através de sucessivas grandes (e muitas, muitas pequenas) obras públicas, e também graças ao sector dos serviços (mais concretamente, aquilo que se pode incluir na categoria dos "não-transaccionáveis"). Certamente que apesar do lip service que se prestava a coisas como a aposta na agricultura e pescas, o desenvolvimento do tecido industrial, o financiamento da investigação e desenvolvimento, e outras coisas bonitas, o grosso da economia era mantido a funcionar através dessas áreas. O dinheiro rolava, umas alturas melhor, outras pior, e ninguém se chateava muito porque a maior parte das pessoas estava razoável.

A verdade é que, surpresa surpresa, esse modo de desenvolvimento se tornou insustentável. O crescimento anémico que caracterizou a economia de Portugal do virar do século em diante tornou-se em verdadeiro retrocesso com o rebentar da crise do sub-prime e das dúvidas que se levantaram sobre a saúde das finanças públicas de alguns estados na EU. Muita gente entrou em verdadeiro pânico. Cantaram-se amanhãs verdadeiramente assombrosos. Mas, contudo, (quase) ninguém cantou o amanhã que se está a viver, e que parece animador. Não perfeito, não algo que assegure o bom funcionamento do país durante muitos e vários anos, mas são sinais que o país está a mudar para melhor. 

Sim, acho que o reajustamento da economia se está a fazer. Casos de sectores como o vestuário, calçado, metalúrgico, alguma agricultura (especial destaque para os vinhos e, em menor medida, os hortícolas e frutícolas), alguma IT. Tudo sectores que, se recuarmos há 10, 15, 20 anos, foram considerados mortos, enterrados e para sempre renegados. Não eram sectores sexy (bem, talvez o caso das IT), e por isso foram largamente ignorados pelo frenesim da política de querer mostrar uma grande obra em menos de 4 anos. E, claro, por um lado isto não é suficiente, porque são tudo mudanças recentes e que ainda não tiveram o tempo necessário para serem criados clusters, massa crítica, que realmente potenciem esses sectores; e, também, porque ainda não se entranhou a mudança de paradigma que está associada a esta mudança estrutural (e esta última não pode existir sem a primeira). Mas, ainda assim, mostra que há uma saída e que é possível as coisas melhorarem.

E convém frisar isto, para o deixar bem claro: esta evolução acontece apesar da existência dos comentadores da praça que muito gostam de falar por falar para se manterem relevantes; apesar de um Governo que, para mal dos nossos pecados, é mais do mesmo; apesar de todas as previsões de que a emigração ia arrasar o país porque estávamos a ter uma "fuga de cérebros"; apesar da contracção da procura interna; apesar de termos os piores patrões do mundo (pelo menos, é o que dizem); apesar da espiral descendente da recessão; apesar de tanta coisa.

Muito mais tem de ser feito. Mas, pela primeira vez em muitos, muitos anos, parece que as coisas se começam a dirigir para algo melhor. Querer negar isto apontado aquilo que o país ainda tem de mau é desconversar, pura e simplesmente. Sim, o desemprego (especialmente entre as pessoas da minha idade) é assombroso; sim, há muita gente, precisamente nas classes mais sensíveis (idosos, desempregados de longa duração, pessoas com deficiência, etc) que sofreu e sofre. Sim, o estado ainda é um empecilho, porque a justiça e a polícia não defendem quem tem razão, porque a Autoridade Tributária e a ASAE estão transformadas numa espécie de cães de caça à infracção, porque tanta coisa. Sim, porque o país vive num plano inclinado, sendo que quem quer ser honesto, trabalhar e realmente acrescentar algo de valor à sociedade sofre de ter de se mover contra essa inclinação. Mas nada disso anula o que o país está melhor em muita coisa.

E eu percebo que muitas pessoas não vejam isso. Literalmente, não vejam. Porque uma das razões pelas quais tenho alguma esperança é que algo está, finalmente, a mudar. A maior parte dessas pessoas, essas que não vêm ou não querem ver, passaram 20, 30, 40, e às vezes mais, anos a olhar para o país e a economia de uma dada maneira, a pensar que a procura interna é que era "o" indicador, que o sector da construção e restauração era suficiente para absorver o emprego da "populaça" com pouca qualificação, que o governo tinha sempre a hipótese dar choques à economia para a ir espevitando aqui e ali. E é normal que agora não vejam isso e pensem que está tudo perdido, que o país está a ir pela sarjeta. Mas tenho para mim que é por não se ver isso que o país está a sair da sarjeta.

Porque a diferença, o que está a correr bem, se faz fora das grandes cidades. Se faz em pequenas e médias empresas, nos sectores abandonados, sem pompa nem circunstância, com muito suor. Se faz longe do olhar da maior parte dos jornaleiros do costume, mais interessados em cumprir com uma agenda política do que em dar notícias. E faz-se. E espero que se continue a fazer, porque é aí que está a saída para o nosso país. É normal que não se veja nem se fale disso. Mas que acontece, acontece: é só deixar acontecer.

PS - Disse que isto não era um post sobre as eleições legislativas. E era verdade. Primeiro, porque tenho a certeza absoluta que vai haver quem leia aqui um elogio rasgado ao actual governo; mas essa interpretação não podia estar mais longe da verdade. A este governo, só posso fazer um elogio, e ter uma esperança: por um lado, não são tão maus como os anteriores, e por outro, que não sejam tão maus como a alternativa. Mas ainda estão longe, muito longe, de ser algo minimamente satisfatório. Faço aqui a minha declaração de voto, em público: se for votar, votarei tal qual como nas últimas legislativas; nulo. Para mim, a minha consciência é mais importante do que o eventual cálculo político-partidário.

quinta-feira, maio 14, 2015

Agricultura em Portugal: organizações de produtores

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Ultimamente, por questões profissionais, tenho andado envolvido no mundo da agricultura (mais concretamente no sector dos frutos) em Portugal. Tal obviamente implica que tenha muito mais contacto com este mundo, e tenho podido confrontar as impressões que tinha "antes" com a realidade que sinto no terreno. E tenho descoberto duas coisas que me deixaram algo surpreso. Em primeiro lugar, é um mundo altamente partido, em dois vectores: falando apenas das empresas que trabalham no meio, temos, simultaneamente, excelentes exemplos de empresas, mas também péssimos exemplos, e incrivelmente pouca coisa no meio; por outro lado, temos pouquíssimas empresas e muitos agricultores, o que revela a parca profissionalização (industrialização?) do sector. O segundo aspecto tem que ver com as péssimas estruturas institucionais montadas, especialmente a nível comercial, que levam quase invariavelmente a um esmagamento do produtor e a um perpétuo atraso do sector. Gostaria de me debruçar neste segundo aspecto.

Este problema de que falo está há muito identificado. Explica-se numa história muito simples: por um lado, há muitos agricultores, que produzem pouco individualmente, visto também não têm parcelas muito grandes; por outro, há poucos canais de escoamento, estando a grande maioria da produção encaminhada para as centrais de distribuição que existam em cada sector, havendo eventualmente um ou outro negociante a título individual que tem possibilidades de absorver alguma produção. Invariavelmente, acontece que são as centrais que definem os preços e, bem pior do que isso, os meios de pagamento. No fundo, não só os produtores se têm que sujeitar a preços fracos, mas para todos os efeitos a financiar a operação das centrais, visto esperarem muitas vezes 6 a 8 meses para verem o pagamento da campanha do ano anterior enquanto fazem face aos custos decorrentes da campanha do próprio ano.

A realidade parece indicar algo muito concreto: os produtores ou se juntam, ou morrem, pois não têm escala para fazer face a condições de mercado que parecem degradar-se com o passar dos anos. No seguimento desta preocupação, e com a nova PAC, surgiram incentivos para que os produtores se organizassem — já agora, note-se que os incentivos passam, por exemplo, pela facilitada aprovação e majoração dos apoios ao investimento no âmbito do PDR 2020. Com a reforma da PAC de 2013, existe uma Organização Comum de Mercado (OCM) que estabelece um regulamento comum comunitário para o estabelecimento e reconhecimento das Organizações de Produtores (OPs). Não há dúvida de que no que depender da existência de formulários, regulamentos, despachos, requerimentos e regulações, os agricultores têm tudo o que precisam para poder triunfar. Excepto, claro está, as condições que realmente interessam.

As OPs já existem há alguns anos em Portugal. Se a OCM veio, porventura, uniformizar a paisagem institucional das OPs, não vem resolver o problema de fundo: até agora, elas foram parte do problema, não parte da solução. A razão de perceber o porquê é simples: as OPs funcionam um pouco como as cooperativas em Portugal, estando completamente orientadas não para servir os seus sócios, mas sim para servir quem lá trabalha. Para ilustrar o ponto: aqui há uns anos descobriu-se que a direcção de uma dada cooperativa usava o rapel comercial (desconto adicional que um fornecedor oferece a clientes que comprem quantidades elevadas — como será o caso de uma cooperativa que compre estrume) não para baixar os preços cobrados aos seus sócios, mas sim para dar algumas bonificações em género aos membros da direcção. E não estando a querer dizer que todas as OPs cometam práticas deste género, a verdade é que fizeram parte, até agora, de um sistema que sistematicamente esmaga e prejudica o produtor; afinal de contas, são as grandes OPs, em conjunto com os entrepostos comerciais, que ditam os preços e as condições de pagamento para praticamente todo o mercado.

Posto isto, é com péssimos olhos que vejo o ímpeto regulador que a OCM introduziu na criação das OPs. Na altura em que se devia precisamente puxar pela criação de OPs que permitissem quebrar os vícios existentes e equilibrar um pouco os pratos da balança em favor dos produtores, faz-se exactamente o contrário. Porque, não nos enganemos: as regulações beneficiam os incumbentes, não quem está a tentar entrar no mercado. 

Claro que a defesa fácil de que são necessárias regras para a criação da OPs visto elas terem benefícios vários no âmbito da obtenção de subsídios cai por terra quando se troca de perspectiva: era preferível que não se oferecessem benefícios nenhuns pela pertença a uma OP, visto que a pertença a tal organização deveria valer por si só — e, se as coisas forem bem feitas, eu acredito que vale. Uma OP tem de valer por aquilo que oferece ao produtor (seja apoio técnico, capacidade de escoamento do produto a um preço melhor, capacidade negocial para melhores condições, etc), e não pelos subsídios que pode captar. Senão estamos só a viciar o jogo de uma forma diferente, não a resolver o problema. A agricultura "profissional" começa a atingir, finalmente, alguma massa crítica. Sufocá-la com burocracia era o pior que podia acontecer ao sector. 

Ainda há muito trabalho a ser feito. Se, por um lado, tem de ser feito um trabalho do lado dos produtores para que as coisas melhorem a nível de gestão de cada exploração, a concentração de agricultores em torno de organizações tipo-OP seria um passo importante para que o sector pudesse descolar e tomar o seu lugar como pilar da economia nacional. Mas devemos desenganar-nos, e apontar desde logo o caminho: mais concorrência, mais diversificação, mais qualidade, menos burocracia e menos incentivos que distorçam o mercado. O resto são peanuts

terça-feira, maio 12, 2015

A mulher sexista, a minoria racista, e o indivíduo metodológico

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Estava a passar os olhos por essa internet fora, e cruzei-me com uma notícia que me fez pensar um pouco: «'I can't be racist because I'm an ethnic minority woman', says Goldsmiths university diversity officer embroiled in racism row». Estou ciente que este é um assunto que, hoje em dia, faz palpitar muitos corações, e tem todo o potencial de chatear toda uma horda de sociólogos especializados em estudos de género. Great.

Retiro qualquer ilusão que possa haver: tal notícia e os seus conteúdos são só a manifestação de terem deixado à solta uma série de tolinhos nos departamentos de estudos sociais. Prima facie, a afirmação é completamente desprovida de sentido: claro que uma pessoa de uma minoria étnica pode ser racista! Claro que uma mulher pode ser sexista! Já ouço gritos de no such thing!, de que tal é impossível. Mas permitam-me citar a senhora:
«I, an ethnic minority woman, cannot be racist or sexist towards white men, because racism and sexism describe structures of privilege based on race and gender. 
Therefore, women of colour and minority genders cannot be racist or sexist, since we do not stand to benefit from such a system.»
Aqui o erro torna-se claro como a água: a não subscrição uma metodologia de análise e estudo do fenómeno social séria e consistente! Se, pelo contrário, tivesse havido da parte de Mustafa uma preocupação em olhar para os eventos seguindo os preceitos do individualismo metodológico, nada desta confusão tinha acontecido; ou, mesmo tendo acontecido, estou certo que teria sido encontrada uma desculpa mais coerente do que a descrita acima. E mesmo tendo um pequeno Geoffrey Hodgson em cima do meu ombro a lembrar-me que esta coisa do individualismo metodológico é terreno pantanoso, já lá vamos. 

Primeiro, acho que é importante perceber o que está a acontecer ali: a descrição do racismo e do sexismo não como manifestação concreta de um conceito abstracto, mas sim como "sistemas/estruturas de privilégio". Daquilo que conheço da filosofia feminista (julgo não ser um erro colocar este tipo de argumentação bem dentro da 3ª "onda" feminista), a explicação de fenómenos sociais será feita sempre em função da relação da pessoa para com o sistema onde ela se insere: "A mulher não pode ser sexista porque o sistema de privilégios da sociedade está montado contra ela!". Daí que o objecto de estudo, o ponto de partida, sejam esses sistemas e estruturas societais que privilegiam ou oprimem pessoas dependendo das suas características.

Isto não parece um tipo de argumentação estranho para quem está familiarizado com o Marxismo. O materialismo histórico segue, sensivelmente, o mesmo modus operandi: a ideia de que a organização da sociedade e os fenómenos societais podem ser explicados se olharmos para as estruturas de produção e para as classes sociais. Não é de todo ao acaso que haja alguma sobreposição entre a "antiga" esquerda marxista e a "nova" esquerda feminista (apesar de, como está bom de ver, as explicações materialistas e feministas serem em larga medida incompatíveis). 

Mas onde é que o individualismo metodológico entra aqui ao barulho? Em primeiro lugar, convém explicar que esta posição metodológica não devia levar (because it can't, and can't implies oughtn't) a nenhuma posição ontológica: isto é, o facto de se analisar algo de acordo com os preceitos do individualismo metodológico não implica dizer que para efeitos de análise só existem indivíduos (e aqui sim, estaria contida uma posição ontológica). Contudo, implica pelo menos o reconhecimento do indivíduo como objecto primeiro de análise (e isto sim, torna-se uma posição metodológica). 

Nesta perspectiva, o que é o racismo? Será uma ideia abstracta que serve para descrever o acto de descriminação de uma pessoa de acordo com a sua etnia. Ou seja, uma pessoa agredir outra na rua por motivações raciais constitui uma manifestação da tal ideia abstracta. Usando o exemplo concreto que a notícia nos deu, uma pessoa que proíbe a entrada a terceiros apenas e só por causa do seu género, orientação sexual, ou étnia, está a incorrer num acto racista/sexista. Independentemente do género, orientação sexual, ou étnia de quem o faz. E aqui reside, a meu ver, a beleza do individualismo metodológico: como olhamos para a acção de um ponto de vista abstracto e sempre com o indivíduo como âncora, permite-nos ver que a mesma acção, com o mesmo propósito, será analisada da mesma forma, independentemente das particularidades do indivíduo em questão.

Se a frase "as mulheres não podem ser sexistas" vos faz alguma comichão, a razão terá algo que ver com o que foi abordado aqui acima. Claro que pode ser sexista! Tanto podem ser, que o são, como se viu. Se porventura vos disseram que não, agora já sabem que tudo não passa de uma patranha metodológica que já tem barbas mais longas que o Marx.

segunda-feira, abril 27, 2015

O papel da política numa sociedade saudável

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Gostaria de começar essa reflexão relembrando uma verdade que a mim me parece inquestionável, o axioma da acção humana: as pessoas agem com o objectivo de substituir uma circunstância menos favorável por uma mais favorável. É este o desígnio do ser humano. Simultaneamente, gostaria de começar por relembrar uma outra verdade, menos evidente mas ainda assim importante: a política, tida em sentido estrito como o exercício de funções de governação e tudo o que isso envolve, é uma função subsidiária numa sociedade saudável. E a importância da política estará inversamente correlacionada com a prosperidade que cada sociedade sente. Permitam-me explicar.

A necessidade que se possa sentir para que exista política nasce da nossa incapacidade de resolver problemas comuns de forma simples: problemas comuns como a necessidade da existência de estradas, relações com outras sociedades, protecção contra ameaças externas e segurança contra ameaças internas, etc; e a incapacidade de resolver esses problemas resulta de limitações de ordem técnica — temporais, tecnológicas, organizacionais, entre outras —, de limitações de recursos, e limitações de ordem "natural" (à falta de melhor termo, mas com isto quero remeter para problemas intrínsecos, de ordem genética, cognitiva, etc, do ser humano). Por isso, criamos artifícios e estabelecemos regras melhor ou pior fundamentadas. Hoje em dia, o artifício chama-se democracia, e a regra é um refinamento da lei da maioria (outrora já tivemos monarquias, ditaduras, e outros que tais). No mundo ideal, onde não existiriam limitações, não teríamos necessidade de artifícios. Claro que o mundo não é ideal — daí ainda existir a percepção da necessidade destes artifícios —, mas não convém estarmos iludidos e pensar que uma dada organização de instituições será o fim da história. Conforme as limitações existentes vão sendo tornadas irrelevantes, ora por desenvolvimento tecnológico ou outros, as instituições tornam-se obsoletas. Pensar o contrário é ter vacas sagradas, um dogma.

Não é demais frisar que estes artifícios têm um propósito: resolver problemas comuns. Nascem de, por um lado, existir necessidade de viver em sociedade e, por outro lado, das fricções que essa vida comunal traz. Essa necessidade decorre directamente do axioma da acção humana: é inegável que o ser humano viverá melhor se inserido no seio de um grupo de pessoas semelhantes (resta saber quão semelhantes, e qual o número "óptimo", algo que variará de pessoa para pessoa), e daí as suas acções serem orientadas para satisfazer essa necessidade. E a resolução dos problemas passará por alocar recursos necessários para que os problemas que forem surgindo sejam resolvidos.

Parece-me natural considerar que quanto mais próspera for uma sociedade, menos necessidade terá de ter e fazer política. Quanto maior for o desenvolvimento tecnológico, quanto mais conhecimento tiver uma sociedade, quanto melhor souber dispor dos recursos à sua disposição, e quanto melhor souber contornar e superar as suas limitações, será naturalmente menor a necessidade de recorrer à política: os problemas comuns passam a ter uma resolução (mais) simples. Basta pensar, por exemplo, que contrariamente àquilo que acontecia há alguns anos atrás, hoje em dia é possível disseminar uma informação de forma completamente fidedigna e imediata para ser consultada numa multitude de locais em simultâneo e, em sentido inverso, é possível todos esses locais registarem uma reacção a essa informação de forma igualmente fidedigna e imediata num local centralizado, que voltará a disseminar a informação e por aí afora — pense-se em algo tipo uma rede social, um website tipo reddit, uma plataforma de blogs, etc. Se ainda pensarmos que graças a inovações como redes mesh, mesmo a limitação da necessidade de um local centralizador da informação tenderá a desaparecer.

Obviamente que isto soa muito a sonho tecnocrata. Convém chamar a atenção que a tecnologia apenas resolve as limitações de ordem tecnológica, podendo eventualmente facilitar a resolução de problemas de outra natureza. Mas isso não quer dizer que temos apenas que apostar nesta vertente e tudo ficará bem; simplesmente é onde se torna demais óbvio que a evolução de um dado sector permite que limitações anteriormente existentes possam ser anuladas. O mesmo se passa pelo simples processo de acumulação de riqueza (que permite um maior investimento inicial, que redundará em maiores rendimentos futuros), ou uma ideia sobre como melhor organizar uma dada instituição. E o próprio processo de adaptação para uma sociedade com menos limitações trará fricções (que se revelam por falências de empresas tornadas obsoletas, desemprego nesses sectores,..) que, talvez, importa acautelar. Ainda assim, o processo será positivo e benéfico.

Ainda assim, e contrariamente ao que nos fazem crer diariamente, a necessidade da política e dos seus instrumentos (genericamente, o estado; mas também partidos, profissionais de política, comentadores e demais) tende a diminuir. A sua subsidiaridade tenderá a ficar mais e mais demonstrada conforme as limitações ficam resolvidas, e mais recursos ficam livres para resolver outros problemas. E o problema de evolução de uma sociedade passa, também, pela constante renovação e mudança do seu status quo. Algo que não se revela fácil, nesta situação em particular, por uma razão simples: entregar o poder a um grupo de pessoas, criar uma casta de privilegiados que confundem a missão pública com o seu propósito privado, para mais tarde o tirar e obrigar esse grupo de pessoas a voltar a uma condição de "civil" não é tarefa fácil. Esperar que os privilegiados renunciem pacifica e conscientemente aos seus privilégios é, talvez, algo ingénuo. Já dizia Lord Acton, o poder corrompe.

Pode não parecer, mas este texto foi inspirado numa reflexão sobre o 25 de Abril, e sobre Portugal. Afinal de contas, o dogma do Deus, Pátria e Família do antigo regime foi substituído por outro algo, nunca posto de forma tão explícita (afinal de contas, as democracias não fazem propaganda, têm escolaridade obrigatória no ensino público gratuito). Mas, se calhar, convinha começar a dizer alto e bom som que estará na altura de algo mudar. Que a política ocupa um lugar demasiado preponderante na nossa sociedade, e isso revelou-se em 3 bancarrotas, atraso económico fruto de uma performance anémica nos últimos 15 a 20 anos, dívida pública a dar com o pau, e tudo mais. Se calhar, convinha deixarmos de lado fantasmas e esqueletos no armário e perceber que isto não resultou. E que estava na altura de mudarmos o status quo, quer a nível de ideologia, quer a nível de organização política. De preferência, para algo que consumisse menos recursos, e que se limitasse a ajudar a resolver os problemas que de facto existem na sociedade.

segunda-feira, abril 06, 2015

Premiar quem faz bem, não punir quem faz mal

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Independentemente das orientações ideológicas de cada pessoa, parece-me óbvio que o emprego de curta duração é um "menos" — isto é, dadas as mesmas condições e variando apenas a duração do contrato de trabalho, a tendência será que uma pessoa privilegie contratos de maior duração. Isto não significa que contratos de curta duração não tenham méritos e não existam situações onde, de facto, é completamente justificada a sua utilização; significa apenas que há uma preferência abstracta pelas vantagens de um contrato de maior duração.

Se temos que viver numa sociedade onde as contribuições e cotizações para a segurança social são aplicadas de forma coerciva, então o mínimo que se poderia esperar é que os agentes políticos (enquanto gestores da "coisa pública") alinhassem isso com a preferência descrita acima. No fundo, criar uma instituição que, estando de origem contra os direitos básicos de um individuo, pode ao menos estar mais alinhada com aquilo que são os interesses de quem é suposto servir. Parece-me ser o mínimo exigível.

Aqui há uns dias, graças a uma conversa com um amigo (obrigado, Cláudio), deparei-me com esta proposta: «Abarataremos las cotizaciones a la Seguridad Social de las empresas que contraten indefinidamente a nuevos empleados.» Reparem que não é posta em causa a instituição que é a Segurança Social, mas está aqui algo importante: o alinhamento com o princípio acima. Afinal de contas, se se acha que o emprego de maior duração é algo que deve existir, então não faz sentido promovê-lo? 

Agora, para introduzir um pouco de ideologia ao barulho, não sou a favor da medida. Não acredito na ideia de que um estado eficiente é um melhor estado; na lenga-lenga de que "se todos pagarmos, todos pagam menos". Vezes e vezes sem conta, já deu para perceber que os resultados do aumento da eficiência da máquina do fisco revertem a favor do estado sem qualquer benefício para o contribuinte. O Portugal de hoje em dia é isso mesmo: nunca fomos tão eficientes a cobrar impostos e, ao mesmo tempo, nunca se espoliou tanto rendimento dos indivíduos e empresas. Mas, então, porque é que acho que aquela medida tem algum mérito?

A razão é que acho que há uma mudança de perspectiva interessante, que deve ser emulada num sem número de casos práticos: premiar quem faz bem, e não punir quem faz mal.

O sistema que existe agora é, por natureza e desenho, punitivo. Temos um caso por defeito (empresas e trabalhadores a pagar contribuições e cotizações) que trata as entidades contributivas como meros recursos, quase-escravatura, exploração — e peso bem o que digo aqui. O que se espera de uma empresa é que, independentemente das suas circunstâncias e estratégias, simplesmente contribua; se se desvia da norma para melhor, fixe para ela, mas não faz mais do que a sua "obrigação". Se, pelo contrário, faz algo para pior, quebrando a lei (independentemente das razões que levam a essa situação), pune-se. E isto, numa visão de curto-prazo, interessa à máquina do estado: as multas, coimas e demais são boas fontes de receita. E no entretanto, vamos ouvindo palavras de ordem que clamam pelo fim da precariedade, dos contratos de curto-prazo, recibos verdes e afins. E, claro, que se ponha fim a esta situação, punindo empresas que tenham essas práticas.

Eu gostava de tentar a outra perspectiva. Certamente, quando uma empresa faz mal e lesa outra parte (empresa, trabalhador, stakeholder, etc) não deve ficar impune. Mas o objectivo principal não deve ser esse. Pelo contrário, deve ser o alinhamento com aquilo que se considera ser o melhor. As partes devem cooperar, e não andar num terrível jogo de gato e do rato, com burocracia à mistura, para ver quem engana quem mais depressa. E aquela medida reflecte isso: há um claro objectivo de promover o emprego de longa duração, e então beneficia-se quem o faz. É essa a mudança de perspectiva nas relações entre as diferentes partes da sociedade civil — especialmente quando uma delas tem um claro ascendente negocial que lhe é conferido pelo facto de, de modo mais ou menos arbitrário, poder impor as regras que mais lhe convém — que seria interessante ver implementado. 

Nitidamente, tenho pouca esperança que isto aconteça. O estado é, desde a sua concepção, uma força de conflito na sociedade. E já sabemos como é: de boas intenções está o inferno cheio. De políticos, também. Mas pensar não custa.

sexta-feira, abril 03, 2015

Pormenores que fazem toda a diferença

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A Rita I Carreira, no Destreza das Dúvidas, tem um post onde fala sobre gestão de risco na agricultura. Usando o exemplo dos EUA — que são, de facto, um dos líderes mundiais na indústria que é a agricultura —, a conclusão a tirar do post pareceu-me que é algo próximo disto: Portugal tem imensos problemas a nível das instituições que suportam a actividade agrícola, seja a nível do sector público ou do privado. Para combater isso, é sugerido que se olhe para o exemplo dos EUA e se tente emular aquilo que de melhor se faz por lá a nível institucional. Tudo certo. But the devil is in the detail.

O detalhe que interessa está escondido no meio do texto citado: «Producers, mostly family enterprises operating medium sized farms (average 445 hectares. Imaginando que isto não é erro — e, do pouco que conheço do sector agrícola nos EUA, não deve ser ―, este pormenor explica bem porque é que o exemplo dos EUA não pode (não deve!) ser seguido em Portugal. Salvo eventuais herdades no Alentejo, não existe em Portugal nada que se assemelhe a propriedades com 445 hectares, muito menos 445 hectares a produzir. Olhando para aquilo que os EUA produzem, faz todo o sentido que todas aquelas estruturas para gestão de risco existam: em culturas intensivas, onde 1 ou 2 cêntimos de variação de preço/kg se traduzem em centenas de milhares de dólares no final do ano para o produtor, faz todo o sentido que se faça uma gestão extremamente cuidadosa destes factores. Quando as margens são razor thin, é assim.

Aqui há uns tempos tive oportunidade de conhecer um produção de vinho no Dão. Uma quinta enorme, cerca de 40ha, tanto que permitia fazer várias experiências no tocante às misturas de castas. Cada garrafa era vendida, à saída da quinta (que também engarrafava, claro) por cerca de 3€ ("Preço de amigo!"); nos supermercados, chegavam aos 7.5€, às vezes mais. Se havia variações nos custos ou nas receitas na ordem dos 1 ou 2 cêntimos por garrafa, era relativamente indiferente — claro que era chato, e no final do ano todos os cêntimos contam, porque era trabalho que saía do corpo de alguém que não era remunerado. Mas o produtor sabia que aquele não era o jogo que ele estava a jogar. No médio prazo, sabia que era mais importante preocupar-se em conseguir subir o preço da garrafa em mais 50 cêntimos ou 1€, do que propriamente brigar com um distribuidor por causa de um desconto de 1%. Afinal de contas, ele não tinha uma commodity; tinha um vinho de alta qualidade. O seu produto era muito difícil (impossível?) de copiar, tinha uma marca associada, e acreditava que era de qualidade. E tinha margens de 20, 30, às vezes 40% por garrafa — especialmente nas reservas.

Tudo isto para dizer algo muito simples: Portugal não é os EUA. Portugal não deve (porque não pode) jogar o jogo das commodities. E não pode porque não tem dimensão, independentemente das suas potencialidades: produtos indiferenciados só são rentáveis em situações de economia de escala. 

Se isto quer dizer que algumas das coisas de que são faladas dentro da umbrella "gestão de risco" não fazem sentido existir? Claro que sim, informação é sempre bem-vinda. Mas tudo isto serviu para tentar fazer ver uma coisa: as nossas instituições (públicas ou privadas) têm, por necessidade da nossa realidade, de ter uma missão diferente das dos EUA. Não negando que em Portugal o Ministério da Agricultura (e quejandos) são pura e simplesmente, única e exclusivamente um entrave ao desenvolvimento do mundo rural e agrícola, parece-me mais ajustado uma estrutura institucional que reflicta as necessidades de flexibilidade, experimentação e não-comoditização da nossa produção agrícola. Porque, parece-me, só assim é que vamos conseguir explorar as nossas potencialidades.

segunda-feira, março 30, 2015

Estratégia, valor, e capitalismo

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Durante os anos 30 do século passado, houve um senhor (o senhor McVicker) nos EUA que fez uma descoberta interessante: se misturar água, sal, ácido bórico, e óleo mineral, tudo nas quantidades certas, então obtém-se uma óptima maneira de limpar o papel parede que havia nas casas americanas, sempre tão sujo pelos sistemas de aquecimento que funcionavam a carvão. No entanto, e após a WWII, dá-se uma migração na utilização de carvão em favor do gás natural, deixando por isso de haver (tanta) necessidade de limpar. No entanto, o senhor McVicker, vendo que o seu produto tinha um uso alternativo (viz., que servia para entreter crianças), decide que está na altura de mudar. Mais coisa, menos coisa, nasce assim a Play-Doh. 

Esta história, quase anedota (apesar de ser verídica), serve para ilustrar dois pontos essenciais sobre o capitalismo: por um lado, a importância que a definição de uma estratégia tem para uma empresa — podendo, realmente, ser a diferença entre a falência e o sucesso; por outro lado, que o processo de criação de valor num sistema capitalista é algo que pouco (ou nada) tem que ver com histórias de exploração, e vai muito para além de uma lenga-lenga redutora sobre lucros. 

De há uns tempos para cá, duas coisas têm acontecido que me fizeram ver o valor da estratégia na lógica empresarial: uma delas, foi ter começado a trabalhar numa empresa; a outra, foi o que ia lendo no blog Balanced Scorecard. O conceito de estratégia parece-me que pode ser resumido da seguinte maneira: «strategy is about being different.» Posto de outro modo, e no contexto empresarial, a estratégia serve para nos guiar no caminho para criar diferenciação, serve para nos relembrar no que somos realmente bons e no que nos permite ser melhor do que os outros. 

Isto, num contexto de um sistema de mercado livre, é fundamental. Especialmente no séc. XXI, não chega ser "eficiente", não chega oferecer o preço mais baixo. É preciso saber onde é que podemos ser os melhores. A história da Play-Doh mostra um pouco disso: mesmo que o produto inicial fosse excelente a desempenhar a sua tarefa de limpar papel de parede, não era suficiente. Daí que a mudança de estratégia, com a reconfiguração do produto (que passou a ser um brinquedo para crianças), tenha salvo aquela empresa; e não só a salvou, como a levou ao sucesso. Reparem que não houve alteração ao produto (fora a introdução de coloração), simplesmente houve uma mudança no foco. E isso foi o suficiente.

Esta mudança na estratégia de uma empresa, e os seus resultados, reflectem o ponto de que a criação de valor numa economia capitalista está removida de uma narrativa de exploração, e igualmente mostra que outras narrativas sobre maximização dos lucros, eficiência, e tudo mais, para além de redutoras, podem ser destrutivas — para uma empresa, um sector, ou mesmo mais. 

Quando confrontado com as dificuldades que a evolução tecnológica trouxe, tornando o produto de limpeza em algo supérfluo, o senhor McVicker podia ter seguido a receita do costume: cortar custos, apostar na eficiência, por ventura até gastar algo mais em marketing. Se calhar, até resultava. Mas, provavelmente, iria ser a maneira que a empresa iria definhar, até por fim falir. E mesmo que resultasse, era extremamente difícil que resultasse tão bem quanto a mudança de público-alvo.

E reparem que houve aqui algo incrível a acontecer: a simples mudança estratégica de escolher um público-alvo diferente fez com que a empresa passasse de um estado de pré-falência para um de sucesso. Sem grandes alterações na estrutura de custos, sem mudar pessoal, processos ou fornecedores. Para alguns, o senhor McVicker passou a extrair ainda mais mais-valias aos trabalhadores por ter passado a vender o produto a pessoas diferentes; para outros, passou a ter lucros porque foi mais eficiente. Ambos parecem estar errados. O senhor McVicker ficou rico porque ajudou a resolver o problema fundamental da economia, o da alocação de recursos escassos para fins alternativos que competem entre si. O senhor McVicker, pela simples alteração de estratégia, foi capaz de criar valor. E é isto que deve acontecer no capitalismo.