Comecemos por conceder que a questão de saber se o liberalismo é uma ideologia de esquerda ou de direita é, como o Lourenço bem disse, algo fútil. Afinal, e voltando a parafrasear o meu colega de blog, o que realmente deveria interessar a um liberal/libertário é a aderência ao Non-agression Principle e o reconhecimento dos direitos de propriedade privada que dão sentido a esse princípio.
No entanto, e mantendo que se trata de um exercício fundamentalmente fútil, não quer isso dizer que na sua órbita não se situem assuntos mais interessantes. A dicotomia Esquerda/Direita pode ser limitativa e anacrónica, sobretudo em termos estritamente políticos. Sobre esses termos já se disse que o único ponto que deve importar a um liberal é a estrita aderência ao princípio de propriedade privada, sendo que qualquer aumento dessa aderência é uma melhoria e qualquer diminuição um detrimento. No entanto, há mais a dizer sobre o assunto.
Se é certo que o liberalismo oitocentista se sentava à esquerda no parlamento e que lutou contra os privilégios de classe defendidos pelos elementos mais conservadores, não é possível ignorar dois acidentes históricos, um anterior ao liberalismo “à esquerda” e outro posterior, que põem em perspectiva a narrativa usual.
O Filipe Faria diz-nos que: «Do ponto de vista moral, o liberal considera que todos os homens são formalmente iguais e que no indivíduo e só nele reside a soberania última. Daí a crença liberal em “direitos”, sejam eles “humanos”, de propriedade ou de libertação. Esta foi uma revolução igualitária contra a autoridade da tradição». Não sei com que liberais anda o Filipe a falar, mas desconfio que nenhum considerará que os homens são “formalmente iguais”, tendo isso nada que ver com a igualdade perante a lei ou com a soberania última que devem usufruir. O que é manifestamente errado na afirmação do Filipe não é, porém, esta “rasteira” intelectual: é sim o assumir que a crença em direitos constitui uma revolução igualitária contra a tradição. Porque a tradição é precisamente onde o liberalismo foi encontrar a ideia de direitos, especificamente ao Direito Natural. O Direito Natural, como o Filipe saberá, não é originário de um secto revolucionário, mas da tradição racionalista religiosa, em especial da tradição católica. Podemos ir até mais longe e datar a ideia de direitos individuais, e da centralidade do indivíduo, aos Dez Mandamentos.
Que o absolutismo tenha sido bem sucedido em remover a tradição bíblica e o Direito Natural da vida política, e é este o acidente que colocou o liberalismo à esquerda dos conservadores, não torna o liberalismo uma ideia revolucionária, porque a verdade é que, com a excepção da defesa do sufrágio universal por erro de cálculo, os liberais procuravam um retorno aos princípios éticos da idade medieval, ao direito natural e à Bíblia.
O segundo acidente, posterior, que definitivamente afasta o liberalismo da esquerda pode ser resumido a duas palavras: Karl Marx. A influência que este homem, seja ou não por misticismo mais que por outra razão, mantem ainda sobre aqueles que se designam à esquerda afasta qualquer possibilidade do liberalismo ser aí emparelhado. Se o âmago do liberalismo está nos direitos de propriedade privada e tem como origem a tradição jusnaturalista, então nada na Esquerda pode ser correctamente colocado ao lado do liberalismo. Para o bem ou para o mal, a Esquerda é desde Marx uma força pelo relativismo moral. Característica que, por curioso que seja, partilham com os conservadores (como explico aqui).
No que diz respeito aos partidos, e visto que um partido liberal é uma contradição em termos, podemos concluir sem grandes rodeios que só existem partidos de Esquerda, todos lutando por uma ou outra faceta do socialismo, e frequentemente realizando ambas.
Descrito em termos clubísticos: o liberalismo é a verdadeira Direita. A Direita da “tradição”, como exposta pelo Filipe Faria é, comicamente, apenas um abraçar do relativismo moral que alimenta a Esquerda, cuja única tradição identificável é a defesa do status quo contra princípios éticos inalteráveis. O sapato está no outro pé, como dizem os ingleses. O pé esquerdo, permitam-me acrescentar.