domingo, janeiro 03, 2010

Being against the left is being right

Eu gosto do estilo cínico/sarcástico do Alberto Gonçalves e, não raramente, concordo com ele, sobretudo sobre a miséria indígena e o riso estupefacto perante ela. Mas no que toca aos EUA o Alberto vê o mundo da mesma forma que a esquerda anti-EUA: a preto e branco. Se a esquerda vê encarnado na América todo o mal do mundo moderno, o AG só lhe reconhece candura e boas intenções; se a esquerda protesta nas ruas contra a invasão do Iraque, o Alberto conclui que o Iraque deve ser invadido para promover a «democracia», capturar «armas de destruição maciça» ou qualquer outra mentira que Washington foi contando ao longo da Guerra. Por outras palavras, se a esquerda odeia Bush, a direita tem de adorar Bush.


Eu sem dúvida que achei compreensível e horrorizei-me na mesma (como não?), mas isso põe-me do lado dos que festejam o acto terrorista? Para me horrorizar tenho de achar que um acto destes vem do simples ódio às calças de ganga e à liberdade de expressão? Não é possível ser lúcido? É necessário partir para o maniqueísmo idiota que divide o mundo entre esquerdistas anti-capitalistas e direitistas neoconservadores? Eu sinceramente estou contra ambos. Da mesma forma que os EUA de Roosevelt provocaram o Japão continuamente, os EUA de Reagan, Bush (pai) e Clinton provocaram o Islão - ocupando territórios, bombardeando civis, interferindo na sua soberania. Que tais intervenções dêem origem a movimentos que odeiam os EUA como um todo não é de estranhar. É de estranhar que para defender o povo dos EUA, a sua história e os princípios que estiveram na sua origem, tenha de se defender o Governo imperialista dos EUA que é a negação desses princípios que fundaram a América. Rejeito esta interpretação maniqueísta, porque o mundo não é a preto e branco, e é legítimo gostar da América sem se gostar ou aprovar o Governo americano.

A razão porque o Governo americano invadiu o Iraque é bem clara até para o mais idiota dos esquerdistas: para assegurar interesses petrolíferos. A conclusão que eu tiro, porém, não é a que a esquerda tira: que o capitalismo é monstruoso e que os americanos são imperialistas por serem capitalistas. A conclusão que eu tiro é que não existe capitalismo nos EUA e que o Governo americano é imperialista para promover determinados interesses particulares, não porque defende a «democracia», o «livre mercado» e o modo de vida ocidental (até porque desde o 9/11 que os EUA se tornaram num Estado policial). E acredito que, se a América tivesse um governo como no Século XIX, não teria havido 9/11, nem radicais islâmicos, nem as razões para ambos: o imperialismo.

Mas a direita tenta nunca tirar uma conclusão que se baseia numa premissa que a esquerda partilha. E logo, é vê-la a defender o imperialismo americano sentindo-se a defender o liberalismo e a civilização ocidental; promovendo guerras infinitas e a intervenção do Estado nos assuntos de outras nações ao mesmo tempo que pretende que o Estado não interfira nos assuntos internos. É triste e incoerente. E só acontece pela necessidade de fazer oposição à esquerda, mesmo quando é preciso fazer a oposição certa que a esquerda não sabe fazer. Os EUA de Bush ficaram na memória geral como o cúmulo do imperialismo capitalista, e não houve oposição de direita na Europa que separasse as duas coisas como elas mereciam.

Esta tendência para estar contra a esquerda em tudo - mesmo quando se pode estar com ela, contra ou a favor das mesmas coisas, por razões diferentes - é uma marca distintiva da nossa direita e ameaça ficar por cá indefinidamente. Não admira que grande parte da população se identifique com a esquerda radical em relação aos EUA. Só é triste que não se possam identificar com alguém que, partilhando da sua visão sobre o assunto, tirem conclusões diferentes sobre ele e ofereçam uma verdadeira alternativa teórica e prática.