domingo, janeiro 31, 2010

A cultura da corrupção

Se «o que aconteceu no BPP é da responsabilidade do BPP», porque teve o Estado de salvar a instituição? Não será igualmente da responsabilidade dos depositantes o acto do depósito e o consentimento em manter lá investidas as suas poupanças? O Estado responde que não.

Mas se o Estado se propõe a assegurar o investimento de pessoas privadas num determinado banco, porquê parar aí? Porque não assegurar outras formas de investimento? A resposta parece ser que os clientes do BPP - como do BPN - não estavam implicados nos investimentos do banco, e que a responsabilidade das más práticas e das perdas é do banco e não dos depositantes. Só que os depositantes confiaram no banco para canalizar os seus depósitos, ou por outras palavras: consentiram que o banco dispusesse e aplicasse o seu dinheiro. Se tivessem dúvidas sobre a credibilidade do banco, certamente teriam exigido o seu dinheiro de volta mais cedo. O caso é que não o fizeram, por descuido ou por convicção: incorreram num erro. Quer isto dizer que o Estado vai passar a assegurar o dinheiro de cada indivíduo contra os erros que possa cometer na sua aplicação? Por exemplo, estará o Estado disposto a devolver-me o dinheiro que gastei num maço de tabaco horrível, que deitei fora pouco depois de abrir? Ou a reembolsar-me se comprar uma acção que baixa para metade do valor no dia seguinte? É pouco provável. Esse privilégio é reservado a determinados clientes de determinados bancos.

Mas a garantia do Estado, que retira o risco do negócio bancário, criou – como é natural - uma disposição irresponsável nos depositantes e nos bancos. Acontece que o risco e a incerteza são partes essenciais do sistema capitalista e a sua supressão pelo Estado condena toda a estrutura. E se é verdade que quase todas as acções do Estado promovem a irresponsabilidade, esta não promove apenas isso: promove a corrupção. É a socialização das perdas e a privatização dos lucros. E de todas as imoralidades cometidas pelo Estado, esta é das mais perversas e tirânicas.