terça-feira, janeiro 26, 2010

Neocolonialismo

Pouca gente consegue ver a «foreign aid» por aquilo que realmente é: neocolonialismo. Mais importante ainda: neocolonialismo de esquerda, sustentado por uma teoria económica falaciosa.

Comecemos pela ideia política. Segundo a retórica comum os países pobres precisam de ajuda dos países ricos, não só porque os países colonizadores têm uma «dívida» a saldar mas porque, caso contrário os países pobres permanecerão sempre no mesmo estado de irremediável miséria: trata-se, portanto, e em primeiro lugar, de uma forma de paternalismo em que a única salvação do pobre é a caridade do rico – temperada com um pouco de culpa tipicamente ocidental e de esquerda. Entre a retórica imperial de antigamente (que pretendia civilizar os primitivos) e a retórica socialista de hoje (que pretende a mesma coisa), não vai um passo de distância.

O essencial da «ajuda externa» é, como se sabe, a redistribuição de riqueza massiva dos contribuintes dos países ricos para os países pobres. E quem diz «para os países pobres» diz maioritariamente «para os governos dos países pobres». As razões variam: guerras civis, desastres naturais ou simplesmente pobreza extrema (normalmente devido a políticas governamentais). Na essência, porém, o dinheiro destina-se a perpetuar governos centrais com aprovação ocidental, geralmente corruptos, em lugares onde só o tribalismo floresce.

Se por um lado os países ricos financiam governos perversos, por outro impedem que forças alternativas – como o mercado – se desenvolvam. As políticas agrícolas da Europa e dos EUA, por exemplo, protegem os agricultores nacionais, que podem depois competir injustamente não só nos mercados europeus e americanos, mas nos mercados dos países pobres – que naturalmente precisam da agricultura – destruindo a sua capacidade produtiva ou impedindo-a de expandir, retirando o meio de trabalho fundamental de populações inteiras e forçando o êxodo rural e decorando as cidades com bairros de lata, crime violento e miséria extrema.

Mas se a ideia política é paternalista, a ideia económica é simplesmente inconsistente. Eis a essência da coisa: dada a fraca produtividade dos países pobres devido à escassez de capital, só existe uma forma de o fornecer: exportando-o dos países ricos para os países pobres em massa. Mas mais uma vez, o dinheiro acaba na mão de ditadores sanguinários e permite a perpetuação de regimes abjectos e de políticas destrutivas que - como a História confirma – não contribuem em nada para o desenvolvimento económico dos países que recebem, bem pelo contrário. Mas o fundamental é que existe uma clara contradição nesta teoria: se para desenvolver as economias pobres é preciso uma injecção de capital dos países ricos, convém perguntar quem injectou o capital nos países ricos antes de eles serem ricos. Obviamente, ninguém (e para um exemplo moderno basta olhar para Hong Kong).

A única condição para a acumulação de capital e para a melhoria das condições de vida nos países pobres é a defesa da propriedade privada (através do princípio de apropriação original) e de um mercado livre, factores que não abundam no Primeiro Mundo, quanto mais no Terceiro (em grande parte porque os países ricos não permitem).

Já não nos devíamos surpreender com a contradição entre as intenções e os resultados das políticas estatistas. Não é apenas por ignorância, nem apenas por maldade: é uma mistura perversa de ambas.
Do envio de forças militares para «proteger» as populações nem é preciso falar: é o neocolonialismo por definição. O Haiti é apenas o caso mais recente.