sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Continuação

(1,2,3, 4).

Diz o Manuel que eu vivo «como todos os libertários, com um quase-esquizofrénico receio de coerção.» É possível, mas não interessa nada para a minha visão política, porque ela não é definida pelo receio, mas pela oposição ética à agressão. O meu anarquismo é apenas uma convicção normativa, e não diz nada sobre a «possibilidade» ou «praticabilidade» de uma sociedade sem Estado. É possível ser um anarquista pessimista, isto é: ser contra a agressão - e por consequência contra o Estado - sem no entanto acreditar que o anarquismo seja possível na prática. Mas a prática é «ao lado do ponto». E o ponto é a legitimidade da agressão: e só os anarquistas libertários rejeitam a legitimidade de todas as formas de agressão, inclusivé a do Estado, de qualquer Estado.

O pragmatismo utilitário, pelo contrário, afirma a necessidade (ou a inevitabilidade) de um Estado (e logo de agressão institucionalizada) de forma a evitar agressões piores entre indivíduos. O que isto quer dizer é que o minarquismo considera justificada uma forma limitada de agressão por razões pragmáticas. Convém no entanto ter em conta que, com base em argumentos utilitários, pode chegar-se a conclusões perversas. Uma posição política baseada em princípios não permite tais licenciosidades: roubo é roubo; agressão é agressão; e o Estado é ambas.

Por exemplo o Manuel acredita que «logo após o fim dos governos, as pessoas tratariam de arranjar outros.». Mas mais uma vez, é a mistura entre o princípio e a prática. A oposição à anarquia - à forma de governo totalmente voluntária - exige essa manobra de diversão: chamando à atenção a questão pragmática da praticabilidade da sociedade voluntária, pode-se escapar à conclusão indegesta de que se está a defender e a justificar uma forma de agressão. Não é nenhuma posição extrema ou estranha, já que de todo o espectro político só os anarquistas negam a legitimidade de qualquer forma de coerção (sobre não-agressores). Mas fazia bem ir lembrando este ponto, e era por isso que no texto que iniciou esta conversa eu pedia aos minarquistas para abraçarem a anarquia ou se renderem ao Estado total: porque, uma vez admitida a legitimidade de certas formas de agressão, não há nenhum limite racional ou ético que permita parar a meio do caminho. Não há meio termo: a agressão sobre não-agressores é ou não é justificada. Para os anarquistas, não é. Para todos os outros, é-o sob alguma condição.