quarta-feira, março 17, 2010

O Estado não é a mesma coisa que o povo.

É este o resultado de anos de propaganda, perdão, história oficial: confundir um povo com um Estado. Por consequência, confundem anti-sionismo com anti-semitismo. É por um lado a superstição democrática, por outro o amor pela beligerância ideológica dos EUA. Ambas as coisas são, diga-se, tipicamente de esquerda. Só custa perceber porque será que a direita as ama tanto. O horror do holocausto não explica tudo, e certamente não justifica a imposição arbitrária de uma jurisdição política num território avesso a ela. Que outras consequências se poderiam esperar, senão o ódio natural dos palestinianos àqueles que consideram invasores?

Estes «liberais» compreendem perfeitamente (e daí talvez não) o cocktail explosivo que é a criação de uma estrutura política onde ela não existia nem tem condições de existir, mas só tratando-se de território africano, do Iraque ou do Afeganistão. Israel é para eles uma outra história totalmente distinta. Sei do que falo porque já fiz parte desse estranho grupo. Infelizmente, eu estava e eles estão equivocados.

Israel é uma invenção puramente ocidental, que os judeus agradeceram. É, ainda assim, um presente envenenado, que perpetuará o sofrimento daquele povo. E se esta gente é capaz de ver que o Estado português se endivida em nosso nome sem nós termos qualquer responsabilidade, não é capaz de ver que o Estado israelita é uma potência local sanguinária, mas que o povo israelita não tem responsabilidade pelas decisões do governo.

Antes da criação do Estado de Israel, judeus e islâmicos viviam em paz na mesma região onde hoje vivem em, e para, a guerra. Os árabes queriam ver-se livres dos britânicos, não dos judeus; mas quando se viram livres de uns, apareceu-lhes o Estado judeu para os expropriar. Se existe algum respeito entre esta gente de «direita» pelo princípio da propriedade privada, deveriam estar a defender os árabes que foram expropriados pela criação de Israel.

Um último ponto a favor dos palestinianos: ao menos as guerrilhas são voluntárias; as forças armadas israelitas são obrigatórias por três anos para homens e dois anos para mulheres, o que faz de Israel um dos estados mais militarizados do mundo moderno. É isto que desejam para o povo de Israel? Que sejam escravos de uma guerra que nunca irá acabar?

O que esta direita militarista defende não é o povo judeu, é o Estado de Israel. A única explicação, além do inabalável amor pela guerra, é que as suas cabeças democratas fundem os dois conceitos num só, e assim acusam qualquer denúncia da agressão sionista de anti-semitismo larvar. Como disse, já fiz parte dessa direita. Felizmente, curei-me.