quarta-feira, março 31, 2010

O liberalismo de uns e de outros (III)

Henrique Raposo continua a sua senda mística de confusão completa entre opostos absolutos: o corporativismo e o liberalismo. Ora vejamos:

«A noção de que o liberalismo implica a anulação do Estado é uma absurda simplificação ideológica. A sociedade liberal é uma dança entre duas peças inseparáveis: o estado liberal e o mercado. Neste tango de Adam Smith, a esbelta mão invisível do mercado enrola-se na mão-de-ferro do estado, e vice-versa. (...)»

O escriba continua o texto com duas suposições implícitas: a primeira, é a de que o Liberalismo precisa do Estado; a segunda é a de que o os Estados modernos fora da Europa continental (por exemplo, os EUA e o Reino Unido) são, de alguma forma, liberais. Ambas as suposições são falsas.

Infelizmente, Raposo é, na sua cabeça e na pobre praça intelectual portuguesa, «liberal» - provavelmente da mesma estirpe de Passos Coelho. Como a perversão da palavra é provavelmente irreversível, convém sempre ir salientando que não pertenço à mesma estirpe. Isto é: convém ir apontando as diferenças entre o liberalismo de uns e de outros.

PS: Uma história que ouvi Lew Rockwell contar algures, que vem bem a propósito do «liberalismo» de Henrique Raposo. 

Depois de uma palestra numa Universidade do Sul, Rockwell conta que deu de caras com uma manifestação de jovens (neo)conservadores em protesto contra Obama. Prontamente, juntou-se a eles. Havia uma mesa com cartazes em branco, Rockwell pegou num e escreveu «The Pentagon is a socialist institution». Não demorou muito até que o seu cartaz gerasse desconforto e discussão. Ao fim de uns minutos de conversa com os petizes, Rockwell conseguiu convencê-los da veracidade da frase. A resposta, porém, surpreendeu-o: «Well, we need a little socialism». Raposo não diria melhor, ao contrário do que o título do seu texto sugere.

PS 2: Já agora, reparem na segunda parte do artigo, em que  o escriba demonstra a sua irredutível defesa do status quo, do estatismo e do império (que inclui instituições «liberalíssimas» como o FMI ou o Banco Mundial): 

«Sob liderança portuguesa, a Europa assumiu finalmente uma posição de liderança mundial. É com orgulho que vejo um português - Durão Barroso - a servir de farol para o barco americano na questão da reforma da ordem económica internacional (FMI, Banco Mundial, etc.). Estamos a assistir a um processo que vai redesenhar as instituições criadas após a II Guerra Mundial. E convém frisar que um português está na vanguarda deste momento histórico. Eu sei que esta questão não é tão fotogénica como uma montanha de refugiados a passar fome no Chade. Mas, parecendo que não, esta reforma da ordem internacional é a questão central do nosso tempo.» Muito triste.