quinta-feira, abril 15, 2010

Do liberalismo como extrema-esquerda e do socialismo como perversão cristã.

Por uma vez posso concordar com o prof. Arroja. Não só o liberalismo é de esquerda como é mais de esquerda do que o socialismo, coisa que já tinha referido aqui. Como o próprio prof. Arroja nota, o socialismo é a rejeição do individualismo político e regressa, assim, aos braços fraternais da ideia católica de sociedade.

A superioridade do liberalismo - se se quiser pôr as coisas nestes termos, e o prof. Arroja parece querer - sobre o catolicismo e o socialismo (em termos políticos), é que este não rejeita ou impede a opção de organizações socialistas e católicas, comunitárias e colectivistas dentro da sua jurisdição (como a Igreja ou a família). Isto é: o liberalismo concede ao indivíduo a liberdade de escolher; a essência do liberalismo é a supremacia do indivíduo, e naturalmente do voluntarismo. O liberalismo anarquista é o extremo máximo dessa visão, e a ausência total de autoridade arbitrária. Ou para usar as palavras do prof. Arroja: o liberal tem aversão à política.

Pelo contrário, o catolicismo (transposto para o campo político pelo prof. Arroja) e o socialismo rejeitam e impedem opções individualistas dentro da sua jurisdição. Que é o mesmo que dizer: rejeitam o indivíduo e impõem-lhe uma visão, um caminho e um modo de vida. A escolha, sob ambos os sistemas, não é deixada ao indivíduo mas a uma qualquer autoridade superior não-consentida, ou seja, arbitrária. E enquanto que o catolicismo sob um regime liberal pode constituir uma autoridade consentida, sob o regime católico não existe consentimento: porque não existe escolha. E logo, o catolicismo sob um regime católico é uma imposição violenta. O mesmo se pode dizer do socialismo.

Termino com uma paráfrase de Vasco Pulido Valente, escrita há muitos anos para O Independente: para onde vai a Igreja? «Vai para a esquerda, que remédio», querendo com isto dizer: vai para o socialismo. Por mim, estão muito bem juntinhos. Como inimigos da sociedade livre, do indivíduo e da propriedade privada, o catolicismo político e o socialismo merecem-se.

PS: O prof. Arroja anda tão obcecado com Kant que até o aponta como uma das origens do socialismo, uma leitura claramente falaciosa e/ou mal-intencionada.