sábado, abril 10, 2010

Um parlamento de fascistas (II)

Aqui abordei, ao de leve, as origens políticas das crenças económicas dos nossos parlamentares, de todos os partidos: o corporativismo. Isto quer naturalmente dizer que, todos, de uma forma ou de outra, favorecem a ideia de propriedade privada e de mercado, desde que dirigida pela mão de ferro do Estado. Ou seja: não temos adeptos da mão invisível, nem da colectivização dos meios de produção. O nosso parlamento e os parlamentos de outros países social-democratas limitam-se, portanto, a uma colecção peculiar de intervencionistas violentos, isto é, corporativistas, ou fascistas económicos.

Neste post o objectivo é conhecer as origens filosóficas deste ethos intervencionista. Se esse ethos foi posto em prática ao seu máximo pelos regimes fascistas, não se pode apesar disso deduzir que as origens filosóficas desse ethos são exclusivas desses regimes. Pelo contrário, a origem principal desse ethos encontra-se em Marx, e num aspecto peculiar de Marx: a teoria da exploração. 

Essa teoria, mais do que nenhuma outra, legitima não em termos de eficiência mas em termos morais, o intervencionismo. Se o fascismo nos seus aspectos não-económicos utilizava a «nação» ou a «raça» como modelo e justificação, na sua conduta económica e sobretudo na sua relação com o capitalismo puro, o fascismo é derivado da teoria ignorante e falaciosa da exploração das massas assalariadas pelos capitalistas proprietários dos meios de produção. Para o indivíduo comum o corporativismo, a cartelização das indústrias, o dirigismo estatal e a regulação e intervenção na forma como proprietários dispõem da sua propriedade, justifica-se com a teoria da exploração. Marx conseguiu, com a ajuda de intelectuais ignorantes, legitimar o poder do Estado e cobrir de imoralidade a ideia de liberdade – que, num regime capitalista, se limitaria à famosa frase «livre para morrer de fome». Não admira que a grande maioria do público tenha um medo irracional de uma sociedade em que o Estado não interfere massivamente na esfera económica, quando existe uma vasta literatura que engloba teoria e história que desmente essa falácia.

No entanto, ela perdura. E perdura mais duramente no nosso parlamento. Razão pela qual, dia a dia, o Estado concede poderes aos burocratas que os capitalistas nunca poderiam sonhar em ter – não só para dirigir a vida económica, mas para dirigir vastas áreas da vida não-económica. Na verdade, o Estado acaba por conceder poderes e privilégios a um bando de «capitalistas do regime» que vive de mão estendida à porta dos ministérios. Apesar disto, na visão dos parlamentares e da população em geral, os capitalistas são, por natureza, avessos à intervenção no mercado e, por convicção, grandes defensores do capitalismo livre. Nada poderia estar mais longe da verdade, visto que só o Estado pode travar a competição e impedir que ela destrone as empresas do presente na preferência dos consumidores. Que é o mesmo que dizer: o intervencionismo do Estado, fundamentado pela teoria da exploração sob um regime de mercado livre, consegue tornar essa exploração numa realidade ao mesmo tempo que culpa o capitalismo puro (que não existe) pelos erros e desgraças que o intervencionismo gera.

É uma espécie particular de doublethink, natural num parlamento de fascistas.