terça-feira, junho 15, 2010

Direita e Esquerda: duas faces da mesma imoral moeda

É geralmente aceite a visão do espectro político segundo a qual a esquerda defende a liberdade pessoal denegrindo a liberdade económica e a direita defende a liberdade económica denegrindo a liberdade pessoal. Se assumirmos, por momentos, a veracidade desta visão, teríamos de apontar para a incongruência de ambos os campos políticos e concordar com o argumento de Walter Block que os liberais-libertários não pertencem nem à direita nem à esquerda, sendo o único movimento político coerente. Isto porque a liberdade económica e a liberdade civil ou pessoal não são esferas distintas, separadas e independentes uma da outra. Pelo contrário, a liberdade económica e a liberdade pessoal estão interligadas e pertencem ao mesmo núcleo de «liberdade negativa», ou seja: ausência de interferência humana na esfera de acção de um indivíduo no uso da sua propriedade justa. Os usos particulares são, pois, irrelevantes para o princípio, e logo não existe liberdade económica nem liberdade pessoal, apenas liberdade, como foi acima definida. A separação artificial que direita e esquerda fazem do conceito não passa, portanto, de uma falácia que resulta naturalmente numa incongruência. (Por exemplo, se a direita defende – supostamente – a liberdade económica, como pode rejeitar a venda e compra de serviços sexuais ou de plantas que se fumam?; ou se a esquerda defende a liberdade de associação para as pessoas que se pretendem divorciar dos seus cônjuges, como pode rejeitar a liberdade de associação de um empresário que pretende desassociar-se de um empregado?). 

Está então estabelecido que, sob esta assumpção de que a esquerda defende só as liberdades civis e a direita só as liberdades económicas, tanto a direita como a esquerda são irreversível e tristemente incongruentes. Infelizmente, o caso é pior do que parece. Porque nem a esquerda defende as liberdades civis nem a direita defende as liberdades económicas. A verdade é que, seja qual for a ordem de razões porque o fazem, tanto a esquerda como a direita desprezam ambas as esferas de liberdade e pretendem diminuí-las sempre que possível, em todas as direcções. Entre direita e esquerda, apenas muda o particular ataque à particular liberdade que pretendem destruir no momento; ambas usam sem qualquer pudor – ou usariam se pudessem - a força bruta do Estado para fazê-lo; ambas são adeptas da regulação massiva do comportamento individual e empresarial e da burocratização da actividade económica e cívica;. Onde esteve a oposição de esquerda ao Cartão do Cidadão, por exemplo? Onde está a proposta da direita de acabar com o monopólio da EDP? Não esteve e não está. A direita e a esquerda, cada uma com as suas razões, detestam a liberdade em todas as suas faces e detestam sobretudo a ordem espontânea que resultaria de uma sociedade livre. Em suma, a única liberdade que direita e esquerda subscrevem como fundamental é a liberdade do Estado agredir e oprimir, taxar e expropriar, controlar e regular, proibir e coagir. 

Como partidários da liberdade, podemos apenas rejeitar a direita e a esquerda como duas faces da mesma imoral moeda, duas facções cuja única reverência é pelo poder puro e duro. Entre autoritários e libertários não pode haver amizade ou cooperação.