domingo, junho 20, 2010

A direita que pensa em moldes socialistas (III)

A prova mais explícita de que a direita dos blogs (que é, de facto, a nova geração da direita portuguesa), partilha todos os vícios intelectuais e preconceitos filosóficos com a esquerda, é o facto de todos os blogs ou bloggers mainstream de direita se limitarem ao comentário sóbrio dos «eventos políticos» sem nunca se ocuparem de filosofia política, ou seja, sem nunca oferecer qualquer justificação para as suas premissas.

Uma das razões é que, apesar de constituída maioritariamente por católicos, a direita portuguesa é utilitária e positivista no fundamental. Mesmo os «liberais-conservadores» (ou vice-versa, conforme o dia e a circunstância) são fundamentalmente utilitários e cegos defensores do status quo, influenciados directamente pelo pior Burke (pós-A Vindication of the Natural Society) e pela disposição anti-racionalista (ou mesmo anti-Razão) de Oaskeshott. Se a tradição testada e experimentada de um determinado povo fosse o assassínio ritual e a violação dominical, o conservador continuaria a defendê-la - simplesmente porque o não-assassínio ritual e a não-violação dominical nunca tinha sido «experimentada».

O «conservador-liberal» é, portanto, também um utilitário/empirista, só que lhe acrescenta o determinismo irracionalista - ou seja: só se pode conhecer a realidade através da experiência observável, mas a primeira experiência não deve dar lugar a outras experiências porque a sua validade só pode ser conhecida contra o teste do tempo. Daí conclui-se que, qualquer instituição (tenha sido coerciva ou voluntariamente) instalada na sociedade deve ser respeitada como «work in progress». Disto não resulta um hands-off de assuntos políticos como a teoria oakeshottiana levada à sua consequência última propõe; resulta, sim, numa defesa filosoficamente vazia do status quo.

Pior que isso, o seu utilitarismo é largamente anti-elitista e igualitário, exactamente como os seus colegas utilitários de esquerda. É esse sentimento anti-elitista e igualitário que os torna vulneráveis à superstição democrática, tornando-os os mais acérrimos defensores do totalitarismo parlamentar, da redistribuição e regulação massivas, da excelência do inexistente «equilíbrio de poderes», do corporativismo e das inúmeras vilanias e horrores cometidos para «tornar o mundo seguro para a democracia». A sua cegueira e/ou silêncio em relação ao imperialismo democrático é exactamente igual à cegueira e/ou silêncio da esquerda em relação ao totalitarismo soviético, por exemplo. E a razão para tamanha aberração é a irreflectida defesa do status quo.

Na questão particular da «redistribuição», a direita é da opinião que o Estado Social deve ser muito mais moderado, mais regulado, mais eficiente, mas nunca abolido na totalidade. Por este facto, poder-se-ia pensar que a direita é, neste ponto, um pouco melhor que a esquerda. Tal é simplesmente falso. A diferença entre direita e esquerda na questão redistributiva é simplesmente que a esquerda favorece o Estado Social e a direita favorece o Estado Corporativo. Isto em teoria. Na prática, a direita e a esquerda querem ambas um Estado Social-Corporativo e Democrático. 

Tal como não tem coragem para atacar as instituições estabelecidas do portugalinho, a direita mainstream é também incapaz de pôr em causa o «comité central europeu», perdão, a EU - outra instituição do status quo que a direita mainstream apoiou desde o início e continua a defender. Na verdade, a sua defesa do «poder europeu» (com alguns escrúpulos de circunstância) advém, tal como na esquerda, do facto de não terem qualquer problema ético ou político com esse, ou qualquer tipo de, poder - simplesmente desaprovam certos usos específicos por certas administrações. A direita, tal como a esquerda, acredita na UE porque gostaria de controlá-la para os seus particulares propósitos e para impor os seus particulares valores; tal como acredita no Estado-Nação pela mesma ordem de razões. 

A direita é, pois, tal como a esquerda, um movimento igualitário, centralizador, democrático, autoritário e socialista.