segunda-feira, junho 21, 2010

A direita que pensa em moldes socialistas (V)

A democracia é provavelmente o mais perene tabu da direita. Vista como alternativa ao «centralismo democrático» (a outra face do igualitarismo político), a democracia de tipo ocidental é a utopia dos pragmáticos, o «pior de todos os regimes exceptuando todos os outros», como eles mesmos admitem sem pudor. Estamos, portanto, perante criaturas que, ao invés de advogar um bem se contentam em defender um mal (mesmo que um mal menor), simplesmente porque ele existe. Eis a tão adorada «disposição conservadora».

No que à direita concerne, a democracia pode não ser, como dizia o ilustre neo-pateta, o «fim da história». É, porém e sempre, o fim da conversa. Pôr em causa o princípio do governo da maioria é, pois, uma heresia a ser tratada com ostracismo e acusações de comunismo.

A verdade, porém, é que qualquer pessoa com miolos na posse das suas faculdades será capaz de apontar inúmeros problemas que um regime democrático enfrenta necessariamente, quer sejam de natureza ética ou utilitária. Mas dada a categoria tabu da democracia, uma questão simples e óbvia deve ser levantadas previamente: se a maioria for composta por assassinos, violadores e ladrões - ou anti-semitas radicais como no caso nazi - será que devemos manter o princípio democrático? Ou devemos sacrificá-lo por valores mais altos?  Que princípio deve reinar: o direito natural ou o igualitarismo político? Coerentemente, só um esquerdista poderia optar pela segunda hipótese.

Porque aqui reside o principal da questão: o facto da maioria aprovar uma determinada acção, torna-a necessariamente aceitável, moral ou correcta? Responder que sim é cair no abismo insondável do relativismo moral - abismo em que a direita, apesar de ainda não se ter apercebido, já caiu há muito. Responder que não é, naturalmente, rejeitar o «menos mau de todos os males», a democracia. Segue-se o abraçar das duas ideologias concorrentes: a monarquia (não-democrática) ou a anarquia (qualquer uma delas  superior porque não-igualitárias).

Da mesma forma que a direita rejeita, em princípio, o igualitarismo económico, devia rejeitar o igualitarismo político - ou seja, a democracia - com igual, ou ainda mais, força. Mas esse passo a caminho da coerência é, admito, difícil de dar para quem vive encafuado na caverna da moderação.