terça-feira, junho 08, 2010

Divagações sobre os intelectuais de Direita em Portugal

A razão para incorrer nestas divagações sobre a direita portuguesa e não perder tempo com a esquerda é que já toda a gente sabe da petulância, da estupidez, da falência moral e intelectual da esquerda. Não é  pois, justo que tanta gente continue na ignorância sobre a petulância, a estupidez, a falência moral e intelectual da direita.

Incluem-se na categoria de intelectuais de Direita em Portugal as seguintes criaturas: sociais-democratas; conservadores-liberais; liberais corporativistas; neoconservadores e democratas-cristãos.

O facto mais incrível da direita portuguesa, apesar de todos estes epítetos, é a completa ausência de ideologia. Ao contrário da esquerda, que está como sempre esteve imersa em ideologia (uma ideologia falsa, ignorante e imoral), a direita é, com orgulho, anti-ideológica e anti-intelectual. Se a esquerda nos martela constantemente e há quarenta anos com os mesmos lugares comuns, a direita vai ao sabor do vento: de eleição em eleição, as convicções mudam e as prioridades alteram-se. Se os intelectuais de direita têm princípios, ideias ou teorias, escondem-nas no armário como um homossexual envergonhado esconde a sua vergonha homossexual. 

Na verdade, a direita portuguesa só acredita numa ideia e só a essa ideia proclama toda a sua devoção com orgulho: a democracia de massas. Como qualquer esquerdista atordoado pela potência das drogas ilícitas, o direitista pátrio está atordoado pelo vazio da superstição democrática. Não admira, pois, que o direitista pátrio seja anti-intelectual por convicção e, não raramente, oiça heavy metal por gosto; ou seja: o direitista pátrio é a força mais anti-elitista que existe no país.

Igualmente intrigante é que entre os vários espécimes da direita não existe nenhuma diferença fundamental a não ser no epíteto que escolhem para se definir politicamente.Todos eles são democratas, socialistas, corporativistas e igualitários. Sem gravata e do lado esquerdo do parlamento, ninguém notava que não pertenciam ao Bloco. O que os distingue da esquerda, além do facto de serem cidadãos respeitáveis, com bom nome e currículo no Estado (ou nas empresas do regime), é apenas o catolicismo (que se expressa politicamente no conservadorismo para as coisas que não interessam). No que interessa, o direitista pátrio é o mais progressista dos progressistas: desde a centralização política e monetária europeia até ao cartão do cidadão e aos chips nos automóveis, desde a NATO ao Ministério da Educação, a direita pátria faz que sim com a cabeça e bate entusiasmadamente palmas de circunstância. De vez em quando, aparece um que defende o sistema de vouchers e sente-se logo o paladino do liberalismo nativo. Até ao 25 de Abril a direita decidiu aderir, e celebra timidamente o 25 de Novembro como qualquer socialista moderado.

O facto mais curioso dos intelectuais de direita em Portugal é que não são mesmo capazes de entender a sua menoridade, inconsistência e ignorância. Ou seja: o facto mais curioso é que os intelectuais de direita são iguaizinhos aos de esquerda - só que em vez de ter princípios falsos, ignorantes e imorais a direita não tem princípios e é simplesmente falsa, ignorante e imoral.