domingo, junho 27, 2010

O liberalismo de uns e de outros (VI)


Mas a bola vai à barra e ressalta inevitavelmente para a bancada colectivista. 

De facto, cada um deveria pagar só o que utiliza (em vez de ser extorquido para financiar os serviços utilizados por outros). Tal raciocínio (liberal até ao tutano) implica o total desmantelamento do Estado e a desmonopolização de áreas como a construção de estradas, pontes, barragens e também dos serviços de protecção e arbitragem judicial - de forma a que a separação entre «pagador» e «utilizador» seja dissolvida, ou pelo menos tornada totalmente voluntária. 

Isto era o que um liberal diria. Mas para o Rodrigo, parece, um pouco de socialismo de vez em quando, e aplicado arbitrariamente a certos assuntos, nunca fez mal a ninguém.

PS: o Nuno Branco diz mais ou menos o mesmo que eu nos comentários (não sei se o aplica à polícia e aos tribunais também) . Graças a Deus ainda nem tudo está perdido para os lados do Insurgente.

PS 2: também nos comentários O Raio fala do problema não resolvido do «ganhador pagador», que se traduz nisto: um proprietário não tem apenas propriedade sobre recursos físicos, mas sobre o valor de mercado dos respectivos recursos. Assim, visto que a ponte Vasco da Gama (o exemplo dado), aumentou o valor da propriedade de alguns indivíduos na margem sul, esses indivíduos deviam partilhar os custos da construção da ponte que levou a esse «aumento em valor». O Raio queixa-se, aliás, que lhe construíram uma estação de metro à porta e que a sua propriedade valorizou imenso... sem ter pago nada por isso. Já viram que horror?

Levado à sua consequência lógica, este argumento implica que, não só no caso da valorização mas também da desvalorização, o Estado devia operar para repartir os custos e os ganhos, o que se traduz. em situações absurdas. Como por exemplo: se eu abrir uma loja que satisfaz melhor os clientes do que uma loja do mesmo ramo do outro lado da rua, o Estado devia tirar-me dinheiro porque a minha actividade levou a uma desvalorização da loja do outro lado da rua. Inúmeros exemplos absurdos do género, que servem como justificação para o efectivo controlo do Estado sobre toda a economia, poderiam ser dados de forma a ilustrar a natureza falaciosa e ridícula do princípio do «ganhador pagador». De facto, podemos dizer que por tomar banho de manhã eu beneficio imensas pessoas que passam por mim na rua, sem que elas tenham contribuído minimamente para o meu asseio. Assim, segundo a teoria do «ganhador pagador», todas essas pessoas deviam ser obrigadas a financiar o meu banho matinal.