quinta-feira, junho 17, 2010

Personagens que os liberais deviam esquecer (I)

Ronald Reagan.

Este actor de filmes B é provavelmente a personagem política da segunda metade do Século XX mais querida entre as criaturas que dão pelo nome de «conservadores-liberais». Dado que a filosofia e economia política dos «conservadores-liberais» é, no máximo, corporativismo (ou seja, fascismo) anglo-saxónico – por vezes moderado e democrático, outras vezes extremo e democrático – é natural que Ronald Reagan, tendo entrado no mundo político enquanto trabalhava como spokesman para a General Electric depois de ter impressionado um alto executivo da empresa, seja querido aos corações dos neo-mercantilistas anglo-saxónicos. Infelizmente, não é só entre neo-fascistas que Ronald Reagan encontra admiradores. Pessoas com princípios e com cérebro também sofrem do síndrome Reagan, ou pelo menos apresentam claros e alarmantes sintomas.

Reagan começou como Democrata e grande admirador de Franklin Roosevelt (o Mussolini americano); mais tarde, durante o período GE, mudar-se-ia para os Republicanos onde começaria a sua carreira política (dizendo no entanto sobre os Democratas: «não fui eu que abandonei o Partido foi o Partido que me abandonou.»).

Tal como o mito de Winston Churchill, o mito de Ronald Reagan tem origem na, e vive da, retórica, do sofismo e da elouquência. Mas se Churchill era, de facto, um homem brilhante (mas maligno) e escrevia sublimemente, Reagan era simplesmente um actor – ou seja: um homem treinado na arte de enganar. É difícil para mim aceitar que liberais inteligentes e perspicazes admirem um actor enquanto político: se é verdade que um político (sobretudo democrático) será sempre um actor, também é verdade que não é benéfico ter um actor como político, capaz de incorporar seja qual for o delírio que as massas desejam e mentir abertamente e com todos os dentes a quem lhe queira dar crédito.

O Reagan político posou sempre como um liberal clássico, um libertário que desconfiava do Estado e respeitava a liberdade económica. Dizia-se até admirador de Bastiat. Infelizmente, o Reagan das câmaras e dos telepontos não é o Reagan político, o verdadeiro Reagan, aquele que foi Governador da Califórnia e, nessa posição, enviou a Guarda Nacional ocupar a cidade de Berkeley para bater em hippies e instaurar uma mini-ditadura; aquele que foi presidente para «tirar o Estado das costas» dos cidadãos e, no entanto, aumentou a despesa do Estado em 68%; aquele que pretendia pôr os «welfare bums» de volta ao trabalho e expandiu o Estado Social; aquele que queria ver-se livre do Departamento da Educação e duplicou os seus burocratas; aquele que pretendia baixar a carga fiscal e que depois de diminuir a carga para os escalões mais altos do Income Tax, aumentou-os para o cidadão comum e continuou a aumentar os impostos da Segurança Social entre outros impostos para cobrir os  prévios tax cuts (além, obviamente, da inflação); o Reagan que queria «equilibrar as finanças do Estado» e duplicou os défices de Carter; o Reagan que prometeu acabar com o Departamento da Energia e, naturalmente, não acabou; o Reagan que pregava a «desregulação» e aumentou o número de price supports e price controls; o Reagan que, apesar da sua devoção por Bastiat, foi um dos maiores proteccionistas americanos. 

Ronald Reagan não passou de um impostor; isto é, foi na política o mesmo que fora antes da política: um actor, ou seja, um farsante. O seu único feito foi ligar o bom nome do Mercado e da Liberdade ao seu contrário, e assim mais uma vez denegrir as boas ideias que a sua retórica aplaudia, mas que os seus actos traíram sempre.