quarta-feira, junho 30, 2010

A PT, a Direita e o Estado.

Apesar dos gritos de virgens ofendidas (e, não se sabe bem porquê, surpresas) da direita, a intervenção do governo na PT é trivial e a golden share não tem qualquer utilidade ou poder especial e especialmente perigoso. No essencial, o Estado perpetra inúmeros crimes mais graves, tanto moralmente como utilitariamente, que este (ou outro) uso da espúria golden share. Se o Estado mantivesse a golden share na PT e, por exemplo, abolisse todas as regulações do mercado das telecomunicações o resultado seria melhor do que simplesmente acabar com a golden share e manter o status quo regulatório. 

A golden share é por certo uma aberração, uma estupidez e uma forma ridícula de proteccionismo moderno; é obviamente a manifestação de uma pulsão nacional-socialista provinciana; a golden share não é, porém, o bicho de sete cabeças que as virgens ofendidas parecem acreditar. Não é, principalmente, o prolema principal da PT. 

O problema da PT é ter como terceiro maior accionista a Caixa Geral de Depósitos. Na verdade, a Caixa Geral de Depósitos é um problema em si mesmo, e um enorme; não apenas o problema da PT. Desde a sua enojante participação em praticamente todas as empresas do regime até aos bizarros empréstimos que faz aos alunos das universidades públicas, a Caixa está em todo o lado, como o verdadeiro braço armado do Estado que é.

Privatizar totalmente a CGD é muito mais urgente do que acabar com a golden share, se objectivo é deixar o mercado funcionar e abandonar o corporativismo bacoco, em nome da moral e da prosperidade. Só não sei bem se será esse o objectivo da direita.

Tenho sempre a tentação de pensar no que a direita diria caso tivesse sido um governo PSD (melhor ainda: PSD-CDS-PPM) a fazer exactamente o mesmo (intervir na PT), da mesma forma (usar a golden share), com as mesmas justificações (o interesse nacional, sempre o interesse nacional). E o problema é que não consigo deixar de pensar, e de lembrar, nos inúmeros e mirabolantes malabarismos retóricos que a direita (como a esquerda) usou e usaria para justificar o seu poder.