segunda-feira, julho 19, 2010

Aculturados à força - uma cortesia da esquerda.

O Sérgio Lavos está certo em apontar a hipocrisia de alguns direitistas em relação ao financiamento estatal da cultura. Falha porém em atribuir a estes direitistas o nome «liberal». Se eles são contra o financiamento e intervenção do Estado na cultura, não são concerteza contra o financiamento e intervenção do Estado e inúmeras outras actividades e logo, não são liberais, são outra coisa. Considerar os artistas-subsídio-dependentes parasitas só faz sentido se considerarmos que o Estado é uma entidade parasítica em si. Como se sabe, a direita não pensa desta forma. E logo não tem qualquer fundamento ético ou intelectual para considerar parasitas estes artistas, mas não os polícias, os políticos ou o governador do Banco de Portugal.

Porém, é absurdo condenar algum destes hipócritas por visitar museus ou de alguma forma aproveitar a cultura subsídiada. Seria o mesmo que condenar uma vítima de roubo por aceitar uma parte do que o ladrão lhe roubou.

Também é certo que, como o Sérgio diz, distorcem os factos como lhes apetece, e que  apesar dos países de tradição «liberal» também financiarem a cultura através do Estado, esse facto costuma ser misteriosamente esquecido. A resposta a este dilema é simples: estes países não são liberais. E se não são liberais no fundamental (sistema monetário monopolizado, imperialismo militar, educação e saúde cartelizadas, etc), não há razão para esperar que sejam no acessório, como a cultura.

Da minha parte, posso assegurar que, tendo de existir um Estado, preferia que financiasse e intervisse na produção cultural e deixasse o sistema monetário, a educação ou o sistema judicial livres. Infelizmente, as coisas não se processam assim, nem a liberdade é indivisível. 

O problema é que tanto o Sérgio como as pessoas que critica são incoerentes, e geralmente incapazes de entender a sua incoerência. Ou o Estado serve para tudo ou não serve para nada; a sua presença é desejável em todos os sectores, ou não é desejável em nenhum. Se a cultura é melhor servida com a ajuda do Estado, porque não a indústria das meias, das pastilhas elásticas e dos vegetais? E se a cultura não é melhor servida com a ajuda do Estado, porque hão-de ser a polícia, os tribunais ou as estradas?

Se fossem coerentes, o Sérgio seria comunista hardcore e os direitistas seriam anarquistas. Infelizmente, as coisas são mais complexas, e tanto os esquerdistas como os direitistas pretendem que o Estado intervenha  naquilo que lhes parece razoável; desejam a coerção sobre terceiros para avançar os seus propósitos e cumprir aquilo que consideram essencial. Interessa-lhes que o Estado exista e promova os seus valores individuais com o dinheiro de outras pessoas com outros valores. E aprovam o Estado precisamente porque sabem que as pessoas em liberdade fariam escolhas fundamentalmente diferentes daquelas que eles desejam que o Estado faça por elas.

No caso do Sérgio será a cultura, a educação ou a saúde; no caso dos seus críticos serão outras actividades. No essencial, não são diferentes. Ambos são adeptos da violência. Os propósitos, distintos, que uns e outros têm são, porém, irrelevantes para as vítimas.