sábado, julho 31, 2010

Estratégia (II)

O carácter anti-Estado do liberalismo-libertário coloca um problema estratégico que muitos liberais preferem ignorar. Ter sucesso político para um liberal é exactamente o inverso do sucesso político do ponto de vista de todas as outras ideologias. Assim, qualquer esquema para sucesso político imediato - impor pela força um regime - está à partida vedado - ética e praticamente - a qualquer liberal genuíno.

É impossível que um liberal faça carreira política num regime democrático e estabeleça uma sociedade liberal por meio do Estado porque é impensável que as massas votem num candidato que negue os «direitos sociais» e porque as corporações e os empresários do regime nunca aceitariam a liberalização de sectores cartelizados, subsidiados ou de outra forma protegidos da «anarquia do mercado». Uma tal candidatura estaria votada ao fracasso. Além de que, em termos puramente teóricos, é contraditório para um ideólogo liberal usar o Estado para avançar os seus objectivos políticos anti-estatistas. Mesmo que fosse possível conquistar as massas e conter os interesses que vivem do Estado, um tal liberal ver-se-ia na infeliz posição de chefe da instituição que pretende limitar, sujeito a todo o tipo de influências novas que pretenderiam adquirir os benefícios das velhas. Se o Estado é uma fonte de privilégios, acabar com a antiga classe de privilegiados abre, mesmo que não se queira, a porta a outras classes. Tal como o anel de Tolkien, mesmo um homem bem intencionado está, na posse do poder, sujeito à corrupção; mesmo que o seu objectivo seja justo e as suas intenções honestas, um tal meio com tais incentivos, é inapropriado para fins justos e meios honestos.

Isto quer dizer que, tanto em termos práticos como teóricos, o veículo mais imediato de mudança política - o Estado - está vedado aos liberais genuínos.

Só o separatismo local e a fundação de «cidades livres» evita a armadilha estatista, não só porque a sua área de jurisdição é muito mais pequena que a do Estado-nação, mas também porque nasce em oposição ao centralismo. Mas o separatismo não é, ao contrário do que parece, uma solução imediata. A fundação de «cidades livres» só pode ser conseguida pela transmissão de ideias liberais, ou seja, pela educação. 

O triunfo do socialismo foi o produto não de revoluções violentas mas da propagação da ideologia, razão pela qual o seu espectro paira sobre todas as sociedades ocidentais que não sofreram qualquer revolução ou take-over e que se tentam definir como opositoras do socialismo. O socialismo não morreu em 1990, e não morrerá enquanto o seu cadáver ideológico não for enterrado. Só esse enterro simbólico pode trazer qualquer esperança de realização liberal. Só a propagação da ideologia liberal pode retirar legitimidade a todas as formas de socialismo e, consequentemente, livrar-nos de grande parte do Estado no futuro. Só o debate e a educação podem trazer qualquer mudança a longo prazo. A imposição a frio de um sistema liberal sobre uma população impregnada com cantilenas marxistas só contribuiria para a sua descredibilização, e para o revivalismo socialista.