quinta-feira, julho 29, 2010

Estratégia

Por muito que os pragmáticos-neoconservadores a pousar como liberais desprezem a noção de ideologia, tanto o liberalismo clássico como o moderno libertarianismo são ideologias. E como qualquer movimento ideológico, o objectivo não é apenas fazer malabarismos conceptuais, nem consiste somente num jogo intelectual. O objectivo é, naturalmente, a realização prática da teoria. E para tal é necessária uma estratégia. Se se pretende uma mudança radical na organização política, é não só útil mas essencial ter em mente como efectuar essa mudança ou, pelo menos, saber se o caminho tomado é o certo para a sua realização.

Seria de esperar que, concordando sobre os princípios, os liberais-libertários concordassem, também, sobre a estratégia para os realizar. Mas o problema é mais complexo do que parece, e em respostas (inclusive de colegas anarquistas) que tive ao meu texto sobre a constituição, percebi que mesmo entre pessoas que concordam sobre praticamente todos os princípios e objectivos, o consenso sobre como os pôr em prática não é minimamente garantido.

Como qualquer movimento ideológico, o nosso enfrenta essencialmente duas formas de estratégia: a acção política ou a acção propagandística. Posto noutros termos: podemos tomar o poder ou doutrinar as massas, ou concretizar ambas as hipóteses. Em qualquer outro movimento político, a primeira hipótese (tomar o poder) é não só atractiva, mas plenamente consistente com os princípios ideológicos. Comunistas, Fascistas, Sociais-democratas, Monárquicos ou Neo-conservadores, todos eles, começam e acabam no Estado - tomar o poder é, na verdade, a sua essência. E logo, o caminho natural para cada uma dessas ideologias.

O liberalismo-libertário é, pelo contrário, anti-Estado e pró-individualismo. A sua realização passa não pela tomada do poder e pelo uso do aparelho de Estado, mas pelo seu desmantelamento e neutralização. Como poderemos, consistentemente, advogar a liberdade, a propriedade privada e a auto-determinação, se para as afirmar nos apoderamos do aparelho que constitui a sua antítese?

Mesmo que os liberais fizessem campanha e apresentassem candidatos num exercício meramente educativo para a população e com uma atitude de mera «pedra no charco» do status quo político, a conquista de assentos no parlamento seria no mínimo um erro estratégico, e no máximo uma traição. O liberalismo-libertário é, para mais (e pelo menos na minha visão), radicalmente anti-democrático - e participar no processo eleitoral seria dar o braço a torcer a um dos horrores que se pretende combater.

Por isso, a meu ver, o nosso movimento (desde os mais moderados aos mais radicais como eu), deveria dedicar-se somente à educação, à provocação e ao repudio absoluto pelas instituições políticas. Devia, para mais, utilizar apenas meios pacíficos de desobediência e rejeitar todas as formas de violência para atingir os seus fins. Sendo o Estado o instrumento de violência por excelência, devíamos evitá-lo de forma consciente, convincente e consistente. Se apelarmos ao voto, deveria ser ao voto nulo como forma de repudio por todas as formas de governação estatais. Um partido político é, pois, a última coisa que o nosso movimento precisa. Precisamos, isso sim, de um anti-partido.