quarta-feira, agosto 04, 2010

Quarta Resposta Breve ao Joaquim

A «representatividade» de uma filosofia (isto é, o número de pessoas que a ela aderem) nada diz sobre o seu conteúdo; a «representatividade» é um dado inútil se o objectivo é avaliar ideias. O facto de haver, em comparação, muito menos anarco-capitalistas do que minarquistas, não prova nem desprova nada sobre a veracidade lógica e prática de uma teoria. Estar certo ou errado não depende do número de pessoas que estão certas ou erradas.

Se o Joaquim acha que o Estado é um «mal necessário», então toda a sua defesa do Estado Mínimo perde toda a fundação ética; toda a conversa sobre «o Estado como agência de protecção dos direitos dos indivíduos» se torna nula perante tal confissão - afinal estamos a falar de um «mal». Que, na opinião do Joaquim, esse «mal» seja necessário, é uma simples consideração utilitária - de acordo com os parâmetros de utilidade que são válidos para si.

Tendo isto em mente, é fácil responder à pergunta sobre estratégia colocada pelo Joaquim. Tanto os anarquistas como os minarquistas concordam que os seus ideais não são passíveis de ser aplicados imediatamente. Existe «um caminho para a liberdade» tal como existe um «caminho para a servidão». A questão estratégica é saber qual é o caminho e se estamos na direcção certa. Ambas as filosofias, minarquista e anarquista, são capazes de concordar sobre a direcção certa. Se existem discordâncias, elas referem-se ao ponto do caminho em que uns e outros pretendem pôr fim à marcha. Assim sendo, a estratégia de um secto minoritário e radical pode ser tão útil (e mais eficaz), do que um secto maioritário e moderado. 

No entanto o mais importante reside na força das próprias ideias. E como já foi dito, tal não pode ser avaliado pelo critério democrático. A maioria pode estar errada. Neste caso, e geralmente, está. Não se trata de observar purismos, a não ser no sentido em que se pretende o purismo da verdade, da razão, da lógica e da ética. E se o objectivo é a realização prática da ideologia, infiltrar libertários no Estado é, no essencial, irrelevante. A única mais-valia é que contribui para a verdadeira estratégia, que os moderados tendem a desprezar pelo seu carácter não-imediato: a educação. Só uma mudança na opinião pública pode realizar na prática aquilo que a teoria argumenta. E se a estratégia suprema tem de ser a educação, o essencial da estratégia terá de ser o avanço das ideias certas. E determinar quais as ideias certas é impossível à luz do critério democrático. Só o debate pode fazê-lo. 

Por isso, caro Joaquim, convido-o a debater ideias, em vez de insistir na contabilidade interna do movimento libertário.

PS: Uma pequena citação de um dos libertários que o Joaquim acha que não é anti-Estado, Ludwig von Mises: «To the princely principle of subjecting just as much land as obtainable to one's own rule, the doctrine of freedom opposes the principle of the right of self-determination of peoples, which follows necessarily from the principle of the rights of man. No people and no part of a people shall be held against its will in a political association that it does not want.» (p.60, Nation, State and Economy).

PS 2: nas minhas respostas prévias recorri, não só a Rothbard, como a Mises - que, apesar de ter exposto a impossibilidade de cálculo económico num regime socialista, não aplicou a sua análise à instituição socialista por excelência: o Estado - falha que Rothbard prontamente rectificou..