segunda-feira, março 14, 2011

O caso para o pessimismo a curto e médio prazo quanto à Geração (à) Rasca.

Acho que esta visão (e visões similares) da manifestação de sábado e dos macaquinhos que a encetaram é demasiado ingénua. Segundo tais visões, as razões dos manifestantes são duas, uma positiva e uma negativa: a positiva é que os manifestantes revelam cansaço do sistema partidário e revolta contra o regime (alguma direita quis ver descontentamento particular com a administração-Sócrates, mas é obviamente muito mais que isso). A negativa foi que as soluções que propõem são, de uma forma ou outra, mais do mesmo – fantasias socialistas de um mundo de recursos ilimitados.

Eu simplesmente não creio que estas duas razões possam ser separadas, e que haja qualquer sinal positivo nelas. Acho que são apenas as duas faces do objectivo comum da manifestação – recriar aquilo que na cabeça deles foi o 25 de Abril, em que o povo sai à rua, o poder cai, e um novo poder que lhes dá tudo de mão beijada, como deu aos seus pais, triunfa. Claro que antes havia uma guerra, e logo um princípio legítimo contra o qual lutar – hoje, nem isso; a geração rasca quer apenas, e numa palavra, mama.

O seu descontentamento com o presente sistema não é meramente preocupado com a liberdade. Na questão das propinas, nos recibos verdes ou no desemprego, a sua revolta baseia-se no facto de que os governantes não lhes dão o suficiente, não têm ajudas que cheguem. Eles não pretendem acabar com a classe parasítica, pretendem fazer parte dela. A insustentabilidade do modelo, de resto, nunca lhes passa pela cabeça. Mas pior que isso: acham justiça na redistribuição sistemática.

O que está fundamentalmente errado na visão optimista da coisa, é considerarem o descontentamento com um regime, só por si, algo benéfico. Mas se a revolta pretende instaurar um sistema igualmente colectivista, o descontentamento e a revolta são inúteis para o causa da liberdade. Podem até gerar algo pior do que existe, um cenário historicamente possível e com alguns exemplos lusitanos. Pessoalmente, não gosto de revoltas e caos só por si. E detesto, sobretudo, quando depois da desordem e dos gritos, estivermos de novo e ainda no caminho para a servidão.

3 comentários:

Baka disse...

Sempre em cheio.

Filipe Andrade disse...

Concordo com quase tudo o que aqui foi escrito. Só gostaria de me referir à frase "Na questão das propinas, nos recibos verdes ou no desemprego, a sua revolta baseia-se no facto de que os governantes não lhes dão o suficiente, não têm ajudas que cheguem".
Há bastante descontentamento porque se pagam propinas que não correspondem ao nível de aprendizagem nem aos espaços disponíveis para o ensino, tal como se pagam propinas demasiado elevadas tanto para frequentar uma licenciatura como um mestrado sem termos cadeiras em conformidade com o curso. Mas há excepções, claro. Sobre Recibos verdes, isto será sempre assim para determinadas profissões, só que infelizmente são utilisados durante demasiado tempo. E retira-se cada vez mais dinheiro em impostos que não dão benefício nenhum a quem o "aplica" (porque ainda acho que os impostos são aplicações a longo prazo nos serviços fornecidos pelo Estado). O espanto advém sempre da comparação com outras sociedades europeias e sul-americanas (para não falar das norte-americanas). Será que se abusa em ajudas, em subsídios? Sim. Só que se o resultado positivo estivesse à vista, não havia pinta de razão, no meu entender.

Rui Botelho Rodrigues disse...

Caro Filipe,

três pontos são expedientes.

1) acho que o facto da inanidade dos cursos, dos professores e das cadeiras, bem como as más condições de algumas faculdades expõem mais o facto das propinas serem demasiado baixas do que o seu contrário. claro que, muita da ineficiência das faculdades públicas se deve fundamentalmente ao facto de serem públicas.

2) os recibos verdes idealmente seriam para prestações de serviços pontuais. e naturalmente que há pessoas que, na realidade, trabalham como se tivessem contrato mas sem o terem. é injusto? é. mas a culpa é da rigidez das leis laborais e só pode ser resolvido com a liberalização da contratação e do despedimento.

3) se os impostos fossem aplicações voluntárias a longo prazo nos serviços fornecidos pelo Estado, não haveria qualquer necessidade de compulsão ou extorsão. a verdade é que, por um lado, não são os contribuintes que determinam que impostos pagar e o que vão eles financiar e por outro o não pagamento não implica apenas não usufruir dos serviços do Estado mas a impossibilidade de viver em sociedade.

PS: além disso, os jovens que protestam contra os recibos verdes (ou a maioria deles) não protestam os privilégios que os impostos pagos por si possibilitam para outros. pelo contrário, eles protestam o facto de não fazer parte dos privilegiados.