sábado, abril 30, 2011

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Elogio da revolta, por Pedro Bandeira.

RE: distributivismo, capitalismo, etc. (I)

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Não sei onde é que o Manuel leu a minha acusação de preguiça ou o meu amor incondicional por John Galts. No meu texo é que não foi, e desafio-o a citar-me (coisa que, dada a impossibilidade de provar o que disse através de citações, obviamente não faz). Basta dizer que não usei a palavra, o conceito ou sinónimos de preguiça nem os atribuí de forma alguma ao Manuel, aos seus colegas ou a católicos em geral; e digo, para quem não souber, que não gosto particularmente da filosofia (política e a outra) da Ayn Rand, e muito menos da sua idealização fútil do empresário-herói e da “minoria mais oprimida” (big business). Mas adiante.

Volto então a reiterar duas posições que são indissociáveis da minha, mais geral, posição sobre a ordem social. Primeiro, que é perfeitamente possível (embora improvável) que uma ordem natural (também chamada “sociedade de lei privada” ou “anarco-capitalismo”) gere um mundo perfeitamente distributivista. O que é necessário é entender que um tal mundo não poderia sustentar a corrente população mundial. Mas é possível que as escolhas voluntárias dos indivíduos (ou, para não embarcarmos em discussões semânticas fúteis, pessoas) deixadas em paz e em liberdade para disporem dos seus recursos gere uma tal sociedade e uma tal diminuição da população mundial. E que, embora seja defensor da industrialização (demoníaca, claro), não sou a favor de industrialização forçada (por meio do Estado e da violência).

Segundo, a escola austríaca é primeiramente uma escola de pensamento económico, mas o trabalho de Mises, de Rothbard e de Hoppe inclui também uma vertente não cataláctica (do estudo da acção enquanto tal, e não apenas do estudo dos fenómenos económicos). Mas é até curioso que o Manuel acuse os austríacos (sempre bastante cuidadosos na sua interdisciplinaridade e sublinhando sempre a limitação dos seus estudos) quando a sua recém-adquirida filosofia política é, em si, uma tentativa de aplicação do catolicismo ao reino (integrado mas contido e separado) da política e da economia. Como pessoa religiosa, tendo a ser crítico desta sobre-interpretação dos assuntos divinos para decidir e opinar assuntos que são essencialmente científicos (economia e política), embora, como disse, integrados na moral religiosa, como tudo o resto na vida. Acho que essa sobre-interpretação é não só errónea como prejudicial à vivência da religião em si. Mas por muito que tente fugir a este estigma, é difícil quando se discute com distributivistas, porque é precisamente isto em que consiste a sua filosofia e atitude. Se existe uma economia católica, porque não arquitectura católica? Ou será que as catedrais foram construídas com um conhecimento exterior aos ensinamentos da Igreja, sem no entanto constituirem uma afronta aos mesmos? Tudo isto para dizer que a acusação do Manuel de que a escola austríaca opina, sob a sua lupa limitada, sobre tudo e mais alguma coisa é, além de falsa, ridícula vinda de quem estabelece para si critérios que, no fundo, consistem naquilo de que acusam os outros.

Quanto às “refutações” dos meus argumentos temo bem que a má representação do que eu escrevi continue. Ora vejamos:

Eu nunca escrevi que não existem formas de acção e cooperação além da obtenção de lucro monetário (embora, praxeologicamente, toda a acção procure obter “lucro” – ou seja, obter um resultado mais satisfatório do ponto de vista do actor - que pode ser, e na grande maioria dos casos é, puramente psicológico e moral, e não monetário). Apenas escrevi, e volto a escrever, que a única forma de haver cooperação entre milhões de pessoas é através do mercado – dado, precisamente, o personalismo que o Manuel usa como objecto de arremesso contra tudo o que não lhe agrade. O que o Manuel entende por sociedade acapitalista não se sabe o que seja, porque aparentemente a palavra capitalista serve, como para os esquerdistas, para descredibilizar tudo e o seu contrário. Pedia-lhe, pois, que definisse capitalismo nos seus termos para eu poder discutir seriamente sem ser acusado de escrever coisas que efectivamente não escrevi.

No segundo ponto, mais uma vez, não sei a que se refere como “pensamento capitalista”, nem eu sugeri aquilo que penso que está a dizer que sugeri. Por isso, peço outra vez clarificações.

Quanto ao uso do Estado por parte de “grandes capitalistas” para invadir a propriedade de “pequenos capitalistas”, o Manuel já devia saber a minha opinião, dado que sou anarquista. Naturalmente, considero ilegítimo, condenável e repulsivo. Mas, e mais uma vez, nem toda a industrialização foi assim conseguida nem é necessário que assim seja. É apenas o processo natural de intensificação da divisão do trabalho e o processo pelo qual as pessoas escapam à miséria. Quanto aos “preços baixos” de que fala, o Manuel devia aprender o que é “produtividade marginal” para não se embaraçar publicamente com esse tipo de argumentos. E ainda, o “controlo sobre a própria alimentação”, é uma obsessão que eu não entendo. A forma mais simples e “económica” (uma palavra herética, parece) de um pintor, de um escritor ou de um carpinteiro obterem alimentos não é produzindo-os eles mesmos, mas trocando o seu trabalho por um meio de troca (dinheiro) e voltando a trocá-lo por alimentos – não só porque, se fossem eles a produzi-los, não teriam tanta variedade ou qualidade; mas além disso, seguindo o raciocínio até à sua consequência lógica, não haveria pintores, escritores ou carpinteiros, dado que seriam obrigados a ser agricultores. Se alguma coisa permitiu o avanço moral, cultural e material da humanidade foi o facto da maior produtividade do trabalho permitir uma maior especialização fora da agricultura (ou seja, fora dos meios de subsistência em si mesmos) – razão pela qual sociedades primeiramente agriculturais não geram grandes poetas ou grandes compositores.

Quanto aos argumentos “materialistas” dos “austríacos” - se o Manuel tivesse lido as primeiras cem ou cento e cinquenta páginas do Human Action sabia certamente que estava a dizer uma parvoice de todo o tamanho.

Mas acho especialmente engraçada a interpretação enviesada que liga a industrialização (em si, e não os meios estatistas pela qual, muito possivelmente, foi feita) aos males morais da humanidade. Quem o lê pensa certamente que eu sou um fervoroso defensor de doenças venéreas e do divórcio. Ou da democracia. A isto chama-se, em bom português, pure nonsense. O Hans-Hermann Hoppe explica a proliferação desses comportamentos em grande detalhe no Democracy: The God that Failed – e recorre, como tem de recorrer, ao facto inegável da “preferência temporal” e dos factores que influenciaram o seu aumento geral (não a industrialização e a intensificação do mercado, que são pelo contrário factores de diminuição de preferência temporal, mas o crescimento do estatismo – que se explica, naturalmente, não porque obtivemos automóveis ou papel higiénico, mas porque a opinião pública foi infectada por pensamentos socializantes, incluindo os do “pensamento social católico”).

Mais uma vez, quanto às “coisas patrocinadas pelo Estado”, digo o mesmo: é uma falácia lógica dizer que o facto do Estado ser um mal, e patrocinar certos avanços tecnológicos, que os avanços tecnológicos são maus e que não poderiam ter surgido de outra forma. Como diria o Hoppe, o facto de macacos andarem de bicicleta não significa que só os macacos andem de bicicleta.

Depois o Manuel volta à tal coisa que eu não sei o que será mas que a escola austríaca supostamente “preconiza”: a mentalidade capitalista. Clarificação, clarificação.

E por fim, gostava de saber que propósito foi esse que criou “a internet e a bomba atómica”, e volto a chamar a atenção para a falácia lógica em que o Manuel incorre (embora a internet tenha sido o produto do exército americano, a sua disseminação e função social foi o produto de indivíduos, perdão, pessoas privadas).

O meu desaparecimento da blogosfera? Só em férias ou aos sábados.

segunda-feira, abril 18, 2011

Comprar o que é português (II)

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Já não é uma surpresa ver coisas escritas no Insurgente que envergonhem (defesa de agressão militar ou apelar ao voto no PSD, por exemplo) mas geralmente não tratam propriamente de questões económicas. Mas este disparate do “comprar português” causou-me especial comichão mental. Se o texto da Elisabete já não era propriamente bom, as respostas aos comentários críticos são ainda piores. Por um lado surgem claramente as definições errónea de termos como “acção racional no mercado” ou “competitividade”; por outro, a tentativa da Elisabete defender a causa representando mal aquilo que a causa pretende torna a sua defesa dela, na realidade, uma defesa de algo completamente distinto.

Começemos pelo princípio. O consumidor é racional nas suas escolhas? A Elisabete diz que sim, mas o que ela entende por racional não se refere à racionalidade presente em qualquer escolha (comercial ou não) mas ao conteúdo particular da escolha. O consumidor é racional na medida em que qualquer escolha (no mercado ou não) implica um fim que se pretende atingir e uma análise dos dos meios para o conseguir – essa procura de um fim e essa análise dos meios é feita pelo meio da razão. Logo, o indivíduo enquanto consumidor é racional. Isto não implica, porém, que a análise não seja falaciosa ou errónea nem que o fim seja, em si, inteligente ou justificável. A Elisabete, porém, diz que sim. Por exemplo: «acredito ser economicamente impossível “pessoas voluntariamente serem proteccionistas”, pois isso implicaria fazer reiteradas escolhas irracionais»». Porém, ser proteccionista consiste em preferir comprar o que é produzido num determinado país em vez de o que é produzido noutro – geralmente, implica preferir também o mais caro e o inferior nacional ao mais barato e ao superior internacional. Essa escolha, sendo originada por uma análise do preço, da qualidade e da componente emocional que liga a pessoa ao país de origem, é não irracional mas profundamente racional. Significa simplesmente que o custo monetário e de qualidade é subjectivamente inferior ao custo emocional de consumir produtos estrangeiros na mente do consumidor. E isso significa, tal como a causa “560”, ser “voluntariamente proteccionista” - sem ser irracional. Ser racional, no entanto, não põe de parte a possibilidade de ser estúpido, ignorante ou mal informado. E um proteccionista é sempre um pouco das três coisas – apesar de ser praxeologicamente sempre racional. E essa escolha, ao contrário do que a Elisabete diz, não implica ficar sempre prejudicado. Pelo contrário, preferir comprar nacional e caro ao estrangeiro e barato, em si não implica prejuízo. Claramente um nacionalista considera o lucro emocional da sua escolha superior ao custo monetário da mesma. Logo, não fica prejudicado. Fica, necessariamente, beneficiado. Existem benefícios além dos monetários. Noutro comentário a Elisabete diz que o seu post pretendia demonstrar precisamente que o “homo economicus” não existe e que existem considerações exteriores às simplesmente económicas. O seu comentário de que alguém voluntariamente proteccionista fique sempre prejudicado diz exactamente o contrário, como mostrei acima.

Outro ponto muito curto: a Elisabete diz que a tal tendencia voluntariamente proteccionista nunca teria um número muito extenso de fanáticos. Mas quase oitenta mil pessoas subscreveram a coisa no facebook. Se isso não é uma legião de pessoas mal informadas (voluntariamente proteccionistas), não sei o que será.

Mas se a Elisabete pretendia de facto negar o “homo economicus” ao defender a causa “560”, então mostra ainda mais confusão mental. Porque os argumentos da causa são tudo menos emocionais ou culturais. Não se apela à compra do que é português por ser português, por cultura, por amor ao país ou outra consideração não-económica. Apela-se por razões puramente económicas, como criar emprego e dinamizar empresas. O objectivo é expresso abertamente, e consiste em ajudar a economia portuguesa a sair da lama. E estando no plano económico, podemos analisar a coisa nesse prisma. E a verdade é que, embora as intenções sejam boas, os meios são completamente inadequados para os fins, como quase toda a gente que comentou o post percebeu e explicou (vantagem comparativa e tal e coiso).

Outro problema: a definição de competitividade e de produtos competitivos. A Elisabete diz que “uma “mentalidade compre 560″ só é racional enquanto os produtos portugueses forem competitivos”. Ora, voltamos ao problema de que mesmo preferir coisas mais caras e de menos qualidade por razões emocionais não é em si irracional – e logo, é competitivo na mesma, a partir do momento em que alguém racionalmente prefere os custos monetários aos custos emocionais, etc. Uma empresa ou produto competitivo é simplesmente uma empresa ou produto que gera lucro – ou seja, que alguém voluntariamente compra. Logo, é possível que um consumidor prefira e sustente – por razões puramente emocionais – uma empresa portuguesa que venda caro e de má qualidade em detrimento de uma estrangeira que venda a mesma coisa mais barata e de mais qualidade. Ou seja, é igualmente competitiva.

Dito isto, é perfeitamente legítimo (e racional) preferir por razões emocionais o caro ao barato e a qualidade inferior à qualidade superior. Mas acontece que as razões da causa “560” não são emocionais. São económicas. E se o objectivo é melhorar as condições económicas do país, então a causa é absurda, porque os meios escolhidos não geram o fim pretendido, pelo contrário. Um liberal, por isso, deveria tentar educar os coitados que acreditam naquela forma peculiar de proteccionismo, em vez de insistir na asneira e acrescentar mais umas à lista como a Elisabete faz.

domingo, abril 17, 2011

sábado, abril 16, 2011

Comprar o que é Português.

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Por um lado a Elsabete tem razão: a proposta não advoga medidas legais para obrigar ninguém a comprar produtos fabricados nacionalmente. E por outro também não advoga que se compre tudo português. Mas por exemplo, existem problemas com esta frase: «prevê-se que se escolham produtos portugueses mas apenas enquanto forem competitivos; e aceitar “pagar mais uns cêntimos” é preferir português desde que o custo dessa preferência seja mínimo.» Ora, claramente a preferência por produtos portugueses é subjectiva, logo o custo de preferir o "português ao estrangeiro" também o é, seja uns cêntimos ou milhares de euros. Alguém decididamente nacionalista não quererá saber do preço monetário se o preço emocional ou ideológico for mais pesado - e uma preferência pelo "produto nacional" de facto implica esse tipo preço.

É evidente que, sendo voluntário, não existem objecções morais ou éticas a fazer a essa escolha. Nesse patamar de escolha, é como preferir produtos kosher - por exemplo. Mas a portugalidade não é uma religião e o preferir português não é uma obrigação religiosa. Em última instância, o "preferir português" faz tanto sentido como preferir "os produtos feitos na minha rua". Ou seja: é uma preferência geograficamente arbitrária e, temo bem, anti-civilizacional. Até porque os argumentos do emprego e do dinamismo das empresas são, numa palavra, uma bela treta. Possivelmente, o que cá produzimos poderia ser produzido com menos custos e mais qualidade noutros sítios - ou seja, são empregos que não deveriam existir e empresas que não deviam ser dinamizadas. 

Mas não há forma de saber sem a manutenção e o funcionamento do mercado - e a implicação da campanha é que é melhor comprar cá seja qual for a condição (traduzindo: o mercado - e a alocação de recursos escassos - que se lixe). Se essa mentalidade estivesse inculcada nas cabeças dos primeiros seres humanos, nunca teria a humanidade saído da cepa torta - já que nenhum mercado teria surgido e nenhuma divisão do trabalho teria sido possível. A única forma de um país - por exemplo, Portugal - não viver numa miséria abjecta é se a população desse país se especializar numas coisas e trocá-las por bens e serviços em que outras populações se especializem.

A campanha até pode não advogar uma auto-suficiência nacional, mas a sua conclusão lógica é essa. E, como diz o AA no comentário, "O proteccionismo pode não estar na legislação, mas se é a “lei da terra”, então os resultados económicos vão ser os mesmos. Se toda a gente decidir partilhar tudo, isso até pode não estar na constituição, pode ser totalmente voluntário, mas o comunismo passa a ser “lei da terra”, e cada um e toda a gente ficará mais pobre. Se as pessoas decidirem voluntariamente comprar caro para vender barato, pode não ser obrigatório, mas fica cada um e toda a gente mais pobre.» Naturalmente, o Estado não deveria impor a ninguém que compre produtos estrangeiros ou só compre produtos nacionais.

Mas isso não torna a ideia menos perniciosa e menos anti-civilização. Porque não, já agora, "prefira Química portuguesa" ou "prefira matemática nacional"? Não será justo argumentar contra estas patranhas da mesma forma que se deve argumenta contra a patranha do "comprar o que é nacional"?

Mais: levado à sua consequência lógica, comprar o que é português implica que, mesmo produzindo em Portugal, as empresas portuguesas não deveriam comprar máquinas fabricadas por estrangeiros mesmo para produzir em território nacional (porque isso não ajuda a produção de bens capitais portugueses, logo não cria emprego, etc.). E aí sim, e rapidamente, toda a gente entenderia a estupidez da coisa. O facto de não ser individualmente irracional - no sentido tautológico de que toda a acção é racional - não implica que do ponto de vista da alocação de recursos, comprar só o que é português não seja uma estupidez. Implica que alguém convenceu esta pobre gente (ou eles se convenceram a si mesmos) da racionalidade de fazer essa escolha essencialmente absurda e ineficiente. A escolha de um indivíduo se suicidar pode ser racional no sentido em que foi um curso de acção livremente escolhido, mas isso não implica que o acto em si não seja estúpido. E é óbvio que quem prefere comprar nacional apenas não entende a implicação de que, ao fazê-lo, está a tornar-se a si e ao país mais pobre. Se entendesse, essa preferência rapidamente desvaneceria. Felizmente, os portugueses - mesmo não entendendo nada de economia - sabem que preferem ser prósperos com produtos estrangeiros do que miseráveis e "orgulhosamente sós".

PS: outra coisa má do movimento no Facebook, e que eu não entendo é o "pedir sempre factura". O que dá ainda mais a ideia de que tudo isto foi patrocinado pelo Estado. Quem é que pagou aquela campanha promocional? Cheira a Estado. Mas mesmo que não seja, o que se disse acima é igualmente válido.

quarta-feira, abril 13, 2011

Há privatizar e há privatizar.

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Estamos na eminência de ver privatizados muitos (senão todos, embora duvide muito) dos tentáculos empresariais do Estado e devemos à partida aplaudir a coisa. Mas não nos devemos entusiasmar demasiado. Devemos, como em tudo o que diz respeito ao Estado e ao FMI, ficar de pé atrás. Porque há privatizações e depois há "privatizações". Se por um lado é benéfico que o Estado se livre destes tentáculos directamente, nada impede que os não mantenha de forma indirecta. Afinal, muitas destas "empresas" usufruem de privilégios e monopólios oferecidos e garantidos pelo Estado, e a simples privatização do capital (por exemplo da EDP ou dos transportes públicos) não forma nem chega para formar um mercado livre. O caso dos CTT é paradigmático. Por muito que privatizem a coisa, a verdade é que nenhuma outra empresa pode concorrer no mercado principal dos CTT. Ou seja, mesmo com capital totalmente privado podemos esperar que estes privilégios e monopólios se mantenham intactos, porque o principal objectivo do FMI é cortar nas despesas e no "peso" directo do Estado na economia, não exactamente e por si abolir regulações. Claro que, se o fizer é óptimo. Mas, talvez pela minha disposição pessimista e desconfiada, tenho muitas dúvidas. 

Convém sempre lembrar que privatizar é só uma das faces da moeda. A outra face é abolir os privilégios monopolísticos. Se alguém dissesse agora que o mecanismo de cobrança de impostos ou que a polícia seriam totalmente privatizados, não haveria razão nenhuma para aplaudir a coisa (caso isto fosse mesmo possível, o que é duvidoso). Afinal, quem é que quer ser roubado ou controlado eficientemente?  Da mesma forma, privatizar as empresas do Estado é óptimo, mas não chega. Mais importante é abrir, sem restrições nenhumas, a competição nos sectores que hoje são monopolizados por empresas públicas. Um monopólio com capital privado não deixa de ser de alguma forma estatal. E em geral, é pior. A Reserva Federal Americana é o melhor exemplo.

segunda-feira, abril 11, 2011

Distributivismo II: conflito de interesses entre assalariados e capitalistas , degeneração moral e a prática da teoria distributivista.

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Belloc afirma que ao contrário de pequenas empresas que contratam poucos trabalhadores localmente, as grandes empresas que contratam “legiões de proletários” (para usar o vocabulário marxista, apesar de tudo adequado) criam um fundamental conflito de interesses entre o patrão e os trabalhadores. O marxismo é aqui chamado porque os distributivistas, sem saberem, subscrevem uma das premissas dele: que é a do conflito irreconciliável. Mas ao contrário destes os seguidores de Chesterton e Belloc não acreditam que o caminho seja “para a frente” (isto é, para a realização inevitável do socialismo) mas para trás: um retorno ao sistema corporativo medieval.

Como no texto anterior salientei, é na prática impossível estabelecer o ponto numérico a partir do qual o contrato entre patrões e trabalhadores se torna exploração. Não nego nem condeno que pessoalmente os distributivistas prefiram relações localistas e pessoais a relações comerciais de grande escala e impessoais. Mas daí até que as segundas se distingam pela exploração das primeiras vai um salto (de fé, talvez) muito, muito grande. E em falso.

Tendo já trabalhado para uma multinacional e para pequenas empresas sei bem o que a casa gasta em ambos os casos. Mas na minha experiência não passei a ser menos indivíduo por trabalhar para um patrão invisível, internacional e múltiplo. Da mesma forma que o bem da empresa significa o bem dos trabalhadores nas pequenas empresas, significa exactamente o mesmo numa grande. Que a grande maioria das pessoas não seja capaz de o ver num caso e seja no outro, demonstra não o conflito de interesses no caso da grande empresa, mas a miopia filosófica do homem comum, incapaz de pensamento abstracto. Na verdade, o sucesso da pequena empresa significa o sucesso dos trabalhadores dessa empresa, na exacta medida em que dessa forma o empresário pode investir os fundos para aumentar a produtividade marginal de cada trabalhador – processo pelo qual pequenas empresas se tornam, muitas vezes, grandes.

O facto de um grupo de pessoas ter controlo sobre meios de produção e outro grupo que não tenha só cria um conflito a partir do momento em que aqueles que controlam os meios de produção não os colocam em uso produtivo, mas pelo contrário consomem o seu capital. Uma das maravilhas do capitalismo é, precisamente, que a procura de lucros por parte daqueles que controlam os meios de produção significa a possibilidade daqueles que os não controlam de obter salários, de consumir os produtos fabricados com esses meios alheios e, se forem poupados, se tornarem também eles capitalistas e proprietários.

E também não é verdade que a existência de grandes empresas apague do mapa todas as empresas médias, pequenas ou ínfimas – ou que limite por si só a entrada de outros empresários capazes de oferecer mais ou melhor ou ambos. Enquanto não existir entraves institucionais à acumulação de capital e ao investimento, o meio pelo qual os empresários lucram é ao oferecer os produtos desejados pelos consumidores e existirá sempre a pressão para que aqueles que controlam os meios de produção lhes dêem o uso mais produtivo, demonstrado pelas escolhas dos consumidores no mercado (isto é, pelo que é mais ou menos lucrativo).

Os distributivistas também gostam de menosprezar essa característica humana, do consumo, mas sucede que ela está na origem de toda a produção (material ou espiritual) e protestar contra o lucro é, em si, protestar contra a vontade de quem compra e vende – ou seja, protestar o livre arbítrio de indivíduos no uso da sua propriedade. Que o conteúdo dessas escolhas seja do desagrado dos distributivistas em nada condena o sistema de lucros e perdas. Condena sim o conteúdo ideológico e moral das cabeças dos indivíduos.

A miopia que tende a ver conflito de interesses onde na verdade existe harmonia deve-se também ao outro ponto muito importante que devemos mencionar, que é o conteúdo ideológico (muitas vezes inconsciente) dos trabalhadores e dos patrões. Se há algo que podemos agradecer aos marxistas (e digo agradecer ironicamente) é ter semeado nas cabeças de proletários, capitalistas e (valha-nos Deus) distributivistas, essa ideia do conflito irreconciliável entre capitalistas e trabalhadores.

Esse conteúdo ideológico é também responsável pela preocupação legítima dos distributivistas (e tradicionalistas em geral) que é a degeneração moral que o mundo moderno gerou. Mas essa degeneração não é um produto da industrialização e das grandes empresas. É um produto da democracia, do estado social e, em última instância, da intervenção do estado nas escolhas voluntárias dos indivíduos. O progresso tecnológico é, em si, neutro – e o que lhe confere o carácter moral ou imoral é o conteúdo ideológico das cabeças de quem o usa. Os distributivistas, claro, acreditam que o problema verdadeiro é a “grandeza”, o “volume” e o “número”.

E qual é a solução dos distributivistas? Naturalmente, se o problema é a grandeza, e não o conteúdo ideológico e moral das cabeças humanas, a solução não passa pela educação, mas em última instância, só pode ser o uso da força (do estado ou de outro organismo qualquer que actue como um) que destrua as grandes empresas e as divida em pequenas e que redistribua a propriedade que uns têm a mais para aqueles que têm a menos, de forma a ficarmos todos pequenos proprietários e (supõe-se) tementes a Deus. O critério, naturalmente, é arbitrário. E sem um controlo permanente e uma purga constante dos mais inteligentes e mais dotados, rapidamente estes se tornarão novos grandes capitalistas e estabelecerão de novo grandes empresas que produzam industrialmente.

No essencial, pois, o distributivismo requer a redistirbuição contínua (tal como o socialismo vintage ou a social-democracia), dado que num mundo livre, a natural desigualdade entre seres humanos gerará, claro, desigualdades de rendimento e de posse de propriedade produtiva. E dado que o mercado é o que sucede na ausência de intervenção violenta, uma nova industrialização surgirá. Claro que, no entretanto, teremos perdido várias vidas dada a regressão económica e a diminuição da produtividade necessária e inerente a um tal esquema. Um resultado que nenhum católico (aliás, que ninguém metalmente são) pode considerar como bom.

Distributivismo e o trabalho assalariado (essa invenção do demónio).

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Eu gosto muito do Manuel Rezende mas não compreendo de todo, e de resto acho infeliz, a sua recente rejeição dos mais básicos ensinamentos da ciência económica como exemplificada neste texto que ele citou no seu novo blog (dedicado ele mesmo a uma rejeição desses mesmos ensinamentos).

Aparentemente, se um proprietário contrata um trabalhador falamos de dois homens livres que entraram livremente num contrato mutualmente vantajoso. Mas se, por um acaso, vários proprietários (sob a forma de uma empresa de capital aberto ou corporação) contratam vários trabalhadores, já não falamos de indivíduos que procuram melhorar as suas condições de vida entrando em contrato, mas de... exploração.

A partir de que número, gostava eu de perguntar, os proprietários deixam de ser apenas proprietários para ser exploradores? E a partir de que número os trabalhadores passam a ser explorados? Certamente que existe um ponto objectivo a partir do qual as pessoas que trabalham por salários deixam de ser indivíduos com almas e capazes de decidir sobre a sua própria vida e passam a ser pobres coitados oprimidos. Se não existe, é porque não existe também qualquer fundamento ético ou económico para preferir o “pequeno” ao “grande”, o “reduzido” ao “numeroso”. Trata-se apenas de retórica, ou de teimosia, ou de ambas.

Os distributivistas, tenho a impressão, tendem a acreditar erroneamente que a ordem económica feudal e corporativa (no sentido medieval) constituia um sistema fundado no catolicismo e que o advento do capitalismo industrial (com as temíveis grandes concentrações de capital) constituiu um afastamento dele. Que o sistema de pequenos proprietários e pequenos ofícios era, por assim dizer, a ordem natural das coisas – e que qualquer desvio desse modelo é, naturalmente, uma heresia e uma infelicidade para a civilização.

O facto, porém, é que grandes concentrações de capital já existiam nos tempos medievais: apenas não havia inventividade para transformar os fundos poupados em investimentos lucrativos e de grande escala. Esse grande salto, em vez de ser uma maldição como os distributivistas supõem, foi uma definitiva benção para a humanidade e sobretudo para os assalariados. Pela primeira vez foi possível evitar a armadilha maltusiana e multiplicar o número de pessoas no planeta com meios de subsistência; aumentar o nível de vida, não só em grau, mas em género (introduzindo luxos que os ricos de outrora não puderam sonhar mas de que os pobres de hoje podem usufruir); foi possível libertar parte do tempo que pais, mães e filhos teriam de trabalhar para conseguirem uma parte ínfima do que num mundo industrial têm para poderem usufruir e cultivar o meio familiar, as artes, a cultura e a religião; foi possível diminuir a mortalidade infantil e aumentar a resistência perante a doença. Todas estas coisas foram possíveis, e possíveis apenas, devido ao sistema industrial e à divisão do trabalho que os distributivistas vilificam e desprezam.

No entanto, o crescimento da população (que houve, também, noutros momentos da história antes da revolução industrial) teria necessariamente de criar uma classe sem terra, dado que a terra é limitada. Mas onde antes essa camada populacional estaria condenada a morrer de fome (não só por não ter terra, mas porque a produtividade das pequenas propriedades não chegava para os alimentar), o capitalismo e a industrialização, ao criar postos de trabalho para gente sem capital e sem terra e ao aumentar massivamente a capacidade produtiva de cada trabalhador permitiu que essa gente sobrevivesse e eventualmente prosperasse. Não consigo ver de que forma um católico pode negar que o “crescei e multiplicai-vos” ordenado pela Bíblia seja permitido pelo capitalismo como nunca foi por nenhum outro sistema de organização económica. E logo, que o capitalismo não é apenas compatível, mas é preferível, de um ponto de vista bíblico, a qualquer outra forma de organização.

Os distributivistas, como os mutualistas, gostam de salientar que o êxodo rural foi, em muitas instâncias, um movimento involuntário – isto é, forçado por decreto governamental. E, como tal, ilegítimo e coercivo. Em parte, estão correctos. Mas de forma nenhuma justifica as conclusões (fundamentalmente semelhantes) que uns e outros tiram, embora uns à direita e outros à esquerda. Embora, em alguns casos a história tenha decorrido assim, não foi sempre e em todo o lado assim, e nem é necessário que seja. Por um lado, os salários nas cidades industriais eram bastante superiores à remuneração conseguida pela venda de produtos agrícolas (além de que, em muitos casos, se tratava na essência de agricultura de subsistência). Mas isso em si não justifica a expulsão pela força e o confisco de terra, evidentemente. O que os distributivistas e os mutualistas parecem implicitamente aceitar (infectados, uns, pela visão católica da pobreza; e outros pela visão socialista da mesma) é que os assalariados são sempre uma classe movida pelas “forças da história” ou outro nonsense do género, em vez de serem apenas indivíduos movidos pela vontade de melhorarem as suas condições de vida. E desde a revolução industrial o meio pelo qual as pessoas mais pobres podiam fazê-lo, era deixar a agricultura e encontrar trabalho no mundo industrial por, choquem-se, salários.

Na verdade, sem a industrialização e sem trabalho assalariado, seria impossível o Manuel e os seus colegas exporem as suas ideias ou eu expor as minhas, pois não existiriam computadores ou internet. Mas não só, o mais provável era que nem sequer estivessemos vivos. E a estarmos vivos, seríamos atavicamente pobres – a menos, claro, que fizéssemos parte da nobreza (nesse caso, seríamos um pouco mais ricos que, digamos, um cidadão da Mauritânia).

quarta-feira, abril 06, 2011

O caso para o pessimismo.

2 comentários:
A demissão de Sócrates criou o vácuo e chamou a direita portuguesa à acção. Quem esperava a liberlalização ou pelo menos a “dessocialização” do regime, só o poderia fazer com uma dose cavalar de ilusão e fé. Porque fundamentalmente a direita tem tantas soluções como a esquerda. Se a extrema-esquerda promete veementemente arrastar o país para um novo (mas clássico) lamaçal, a direita e a esquerda moderada que no essencial partilham o espartilho social-democrata não podem prometer senão paliativos que consistem em não sair do lamaçal presente. Do status quo do regime dependem a cabeça e a bolsa das figuras políticas proeminentes e respeitáveis. Mais: depende a classe média em peso.

É absurdo pensar que uns e outros (PSD e CDS) farão alguma coisa que lhes diminua a popularidade ou lhes afecte a carteira e a carreira. Como esperar que confessem que o caminho que tão convictamente trilharam e recomendaram era na verdade uma promoção pessoal sem consequência e o cavar lento da sepultura do país? Como esperar honestamente que digam a verdade e que actuem em conformidade?

Por outras palavras, só é possível a ilusão da direita a quem se dispõe a acreditar na ilusão esquerdista por excelência: a de que se pode mudar, para melhor, em democracia.

Imaginem o “liberal” Passos Coelho a discursar aos portugueses e a dizer a verdade: que é preciso cortar na mama; que o modelo “tendencialmente gratuíto” é, além de insustentável, uma mentira perpetrada pela rotatividade partidária do regime para seu próprio proveito; que as empresas públicas e as parcerias público-privadas, que as obras públicas, que o subsídio de desemprego e o RSI perpetuam, em vez de atenuarem, a miséria. E por aí fora. Ia o povo todo votar no PCP e no BE. O povo não está preparado para estar uns passos à frente do Zimbabué. A expectativa é grande demais e a perspectiva da queda causa tonturas.

Alguém seriamente espera que, mesmo compreendendo o problema (o que já de si é duvidoso), o PSD ou o CDS se suicidem eleitoralmente a bem do país, da verdade e da moral? Que ameaçem pôr na rua os seus boys e prejudiquem os seus parceiros privados que vivem, como o povo, à espera de uma esmola estatal? Que peçam responsabilidades, políticas e legais, aos seus antepassados políticos que ainda por aí andam a lucrar com a sujeira?

Se alguém acredita ainda nessa infantilidade, trata-se certamente de um caso clínico para o qual existem estabelecimentos especializados. Pois mais valia acreditar no pai natal e rezar para que este lhes traga uma ajuda externa a custo zero que permita perpetuar a brilhante fantasia social-democrata. Mas para isso é preciso chegar ao natal – o que não é possível prometer em si sem uma dose de fé ou de narcóticos.

Daí decorre que o problema é insolúvel em democracia. O problema maior reside no facto de que, além de mentir e insistir na mentira, o regime democrático acabou com a independência de quem poderia fazer alguma coisa e convenceu essa gente também das propriedades mágicas do Estado. A sociedade portuguesa está de mão estendida, e não existe já punho fechado que bata com força na mesa e imponha o fim do socialismo democrático.

E se a solução não está em Portugal, onde está? No FMI, na UE? Também eles têm feudos pessoais para proteger e um modelo igualmente insustentável. E é impensável que venham fazer alguma coisa além de perpetuar a iniquidade e a mentira com paliativos.

Chegou a hora de aceitar o que sempre foi inevitável: a falência democrática, o caos social e a miséria abjecta. E, conscientemente, pensar em emigrar.