segunda-feira, maio 02, 2011

RE: distributivismo, capitalismo, etc. (II)


Sabemos que o desespero é grande quando vemos direitistas dos quatro costados citar Marx. Tudo, afinal, serve para criticar o “capitalismo selvagem”. Enfim.

Atentemos nesta frase: «Onde impera o personalismo católico queremos pessoas, não indivíduos.» Isto pode significar duas coisas: ou o Manuel está propositadamente a querer empatar a conversa, ou acredita que o meu argumento não poderia ser feito se, em vez de “indivíduo”, eu escrevesse “pessoa”. Ambas as hipóteses são absurdas. Mas como o Manuel é uma pessoa inteligente, posso apenas concluir que está elegantemente a empatar lançando apenas uma farpa. Passemos, então, à frente.


«A principal inovação do capitalismo foi inventar a guerra de classes. Isto começou obviamente devido à sua inerente fixação pelo lucro » Mais uma vez, fica-se sem saber o que se entende por capitalismo. O que eu entendo é: um sistema de propriedade privada, de divisão do trabalho e especialização em estado relativamente avançado. Ou seja, se existe “fixação” ela já estava presente para ter gerado o estado “avançado” onde antes era apenas atrasado, simplesmente agora, presumivelmente, é condenável porque um patrão manda em dez mil, em vez de dez, empregados. Mais uma vez: absurdo.

Mais: não existe qualquer fixação pelo lucro, apenas no sentido em que qualquer pessoa (reparem, pessoa) quer o melhor para si e para a sua família. Poupar, investir, empregar são acções geradas pela procura de lucro, não só monetário, como psicológico. E de novo, estas características estavam igualmente presentes no passado, apenas não havia ideias ou fórmulas para aplicar as poupanças da forma tão produtiva como posteriormente. Mas se o Manuel e companhia pretendem uma sociedade onde as pessoas (reparem, pessoas) não procuram o lucro monetário, mas apenas o bem do próximo, então de facto devem contentar-se em citar Marx e levantar o punho em protesto.

(um aparte: mesmo quando se pratica um acto altruísta, a razão para o fazer não é rejeitar o lucro pessoal em nome do bem estar alheio. Pelo contrário, o bem estar alheio constitui o lucro do altruísta, ou pelo menos constitui um lucro psicológico superior ao seu próprio lucro monetário. Além disso, num hipotético mundo onde não exista escolha entre servir-se a si mesmo ou ao próximo, a escolha moral deixa de ter qualquer significado ou valor.)

Voltando às classes. Depende do conceito de classe. Podemos falar de níveis de riqueza – e nesse sentido o capitalismo não criou as classes. Os monarcas, imperadores, etc. sempre foram de uma classe diferente da do resto da população (muito mais do que os capitalistas alguma vez foram ou serão). E o conflito de classes era perene, sendo que monarcas e imperadores, que o Manuel – pelo que sei – admira, dado que a riqueza dos monarcas e imperadores era confiscada aos não-monarcas. Logo, o capitalismo não criou a luta de classes.

Será, então, uma questão de castas? Não, porque os capitalistas não são uma posição de nascimento, são pelo contrário uma classe a que é possível aceder através de poupança, investimento e boa previsão do estado futuro da procura e oferta no mercado. Logo, o capitalismo, pelo contrário atenuou – em vez de criar ou intensificar – a luta de classes. Não só porque é possível a uma pessoa (reparem, pessoa) que nasça pobre tornar-se capitalista, mas porque ao actuar como capitalista, a pessoa (reparem, pessoa) levanta o nível de vida dos não-capitalistas, em vez de, como os monarcas que o Manuel admira, confiscar a riqueza alheia.

«Esta mediocridade de homem, este semi-letrado arrogante que não goza de 20% da liberdade do seu antepassado de há seiscentos anos atrás, tem a barriga cheia e as vacinas em dia. Que bom. Quando as tem

Manuel, o que precisa de entender é que é possível ser letrado, mais livre que há seiscentos anos atrás e ter a barriga cheia e as vacinas em dia. Sabe como? Através, adivinhe, do sistema capitalista. O Manuel vive na ilusão de que o sistema capitalista necessita do Estado para existir. E das duas uma: ou o Manuel define o capitalismo até ao ponto em que significa tudo aquilo de que não gosta do sociedade moderna (e aí convido-o a juntar-se ao BE) ou então aceita a definição de que o capitalismo é um sistema de propriedade privada (e da disposição livre da mesma) e logo está permanentemente e por definição em conflito com a própria ideia de Estado (monopolista territorial de lei e ordem, com o poder de expropriar a propriedade alheia).

Quanto ao suposto problema do “longo prazo” que os austríacos supostamente não tratam, aconselho-o a ler o Rothbard ou o Hoppe (ou até não-austríacos como David Friedman). E até existem dois exemplos, muito privados e medievais, de como o longo prazo é tido em conta (muito mais do que sob um Estado): a lei mercante e o sistema de lei competitivo da Islândia.

«Se a vontade é o elemento preponderante num contrato, e um homem pode contratualizar sobre o mesmo bem várias vezes na sua vida, quem nos diz qual das suas vontades deve ser atendida, senão a limitação do livre-arbítrio? » Ou o Manuel não entende o que é um contrato e os seus termos (coisa que eu não acredito), ou então está apenas a mandar o barro à parede a ver se pega. O exemplo do casamento, então, é particularmente ridículo – porque, naturalmente, dependendo do sistema legal a que a pessoa (reparem, pessoa) subscreve, da comunidade em que está inserido, etc., o resultado será muito diferente. No caso do Manuel, que provavelmente escolheria uma teocracia católica, evidentemente nem haveria segundo casamento. O Manuel devia pensar era nos não-católicos, que também têm o direito de viver e seguir as suas regras religiosas, ou mesmo não-religiosas (chocante, eu sei).

Existem juristas entre os austríacos. Mas isso nada tem a ver com nada. Resta-me concluir que o Manuel não compreende as implicações mais profundas do anarco-capitalismo, que em nada consistem em abolir uma decisão última em termos legais ou a autoridade em si (eu, e os anarquistas mais à direita, tendemos a acreditar que resultará num fortalecer da autoridade e da legalidade).

E já agora, acho que só os left-libertarians e os hayekianos é que acreditam numa natural coordenação das vontades. Precisamente por isso é que é necessário a definição e respeito pelas fronteiras da propriedade privada, não só porque é o que é justo, mas porque é o único sistema que evita conflitos interpessoais, precisamente pela natural propensão para o conflito de vontades. Ou seja, essa crítica não é dirigida a mim nem à minha vertente de anarquismo.

Um último ponto: o Manuel esquivou-se à pergunta fundamental. Que é a de como atingir o ideal distributivista. Eu digo que só pode ser conseguido com a expropriação sistemática da propriedade alheia e a imposição de poder (ou seja, a usurpação de autoridade).

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