terça-feira, maio 03, 2011

A teoria ouroboros e as perguntas sinceras.

(uma espécie de resposta a estas perguntas)

É difícil responder porque faz perguntas que não fazem sentido na framework do anarco-capitalismo, ou pelo menos do anarco-capitalismo que eu exponho. As perguntas não são, por isso, justamente direccionadas a Rothbard e a Hoppe porque utilizam termos e premissas que os austro-anarquistas não aceitam (como teóricos económicos e como teóricos éticos-políticos). Mas se não é possível respondê-las a partir do anarco-capitalismo, é pelo menos possível comentá-las.

Primeiro, os discípulos de Mises que são anarquistas (Rothbard e Hoppe, maioritariamene), são-no em conflito com a visão política do mesmo Mises. São apenas discípulos no que toca à teoria económica e praxeológica – que incorporam na sua outra filosofia política anarquista, oposta à perspectiva “liberal clássica” de Mises.

Depois o Nuno escreve «Liberdade, pois, quanto a quê ou a quem? Dirão, se estou certo, que falamos da liberdade quanto ao Estado ou a qualquer outro organismo de regulamentação da economia.» Está, infelizmente, errado.

De forma nenhuma as preocupações de Rothbard ou Hoppe como anarquistas, se limitam à interferência em assuntos económicos. São teorias de ética-política, não de cataláctica. mas como a praxeologia, origem da cataláctica, oferece também insights fundamentais para qualquer teoria política que são igualmene importantes para a cataláctica - além de que a grande maioria de ancaps são economistas ou têm um entendimento de economia acima da média - existe essa tendência desinformada ou maldosa, conforme os casos, de descartar os ancaps acusando-os de materialismo explícito ou implícito (que além de não ser verdade, é de alguma forma difícil de acreditar dada a existência de inúmeros ancaps religiosos - e logo filosoficamente não-materialistas). Mas, como lhe digo, a teoria praxeológica é, em certo sentido, a exacta refutação do materialismo. Podemos, claro, conversar sobre isto.

Quanto à “defesa nacional”. Hoppe tem vários ensaios sobre o assunto (que expandem e clarificam, além de sistematizarem, as propostas originais de Rothbard quanto à natureza da produção de segurança e a forma como, também na produção desse bem, a propriedade privada, a competição e a divisão do trabalho, são os objectivamente melhores meios para satisfazer a necessidade de “defesa nacional”.

Já lhe aconselhei leituras. Volto a aconselhá-las, porque o último parágrafo denota que, embora aconselhado, o Nuno resolveu não aceitar o conselho.

E não, o austro-libertarianismo não é um ouroboros.

10 comentários:

Anónimo disse...

Uma questão interessante é a da electricidade, que até ver é um entrave a um projecto verdadeiramente liberal (nomeadamente a rede de transporte, que é um monopólio natural). Não sei se há um ponto de vista libertário dessa questão e se o RBR conseguir partilhar alguma informação nesse sentido teria muito gosto. A noção que tenho é que nos meios académicos se reconhece que, dadas as estranhas propriedades da electricidadade (não dá para seguir os electrões e perceber de onde vem a electricidade que consumimos a um dado instante) as soluções adoptadas são sempre no sentido da economia neo-clássica (implicando regulação, portanto).

Rui Botelho Rodrigues disse...

não percebo o porquê da "rede de transporte" ser um monopólio natural. num mercado livre existiria não só liberdade para entrar nesse sector, como noutras formas de produção e distribuição de energia. o único requisito é a privatização total de solos e recursos naturais, (que hoje não existe).

Anónimo disse...

é uma boa questão. o monopólio é natural apenas no transporte, parcial na distribuição e pode vir a ser inexistente na produção.

inexistente na produção porque eu posso ter a minha central eléctrica a vender em mercado livre. em relação à distribuição eu posso ter um fornecedor que não a edp (embora todos tenham de usar a infra-estrutura pública da rede de distribuição, pagando um aluguer para o efeito). portanto, aqui chegamos à conclusão que mesmo a rede de distribuição não existe verdadeiramente em mercado livre - já que a electricidade da edp e a de outras empresas circula numa infraestrutura comum. a não ser que ache que faz sentido existirem várias redes de distribuição (absurdo) pertencendo aos diferentes competidores neste segmento. não faz por isso sentido existir mais do que uma empresa a construir a rede de distribuição. o mesmo se passa com a rede de transmissão: que sentido faria existirem auto-estradas de energia construídas em paralelo, mas sendo de empresas diferentes?

será por acaso que nem nos locais em que se tentou levar mais avante a liberalização do sector eléctrico se pode encontrar um exemplo de sucesso? ou é um caso mesmo muito particular?

Rui Botelho Rodrigues disse...

a única forma de saber se faz sentido ou é absurdo é privatizando. se for lucrativo (ou seja, procurado pelos consumidores) haverá vários distribuidores ou formas de distribuição. se não, haverá apenas um para cada tipo de energia. mas isto é impossível de saber fora do mercado, dada a impossibilidade de cálculo económico. a decisão de só ter uma é, pois, totalmente arbitrária.

um último ponto sobre os sítios onde se tentou liberalizar. em nenhum desses sítios se privatizou as ruas e o subsolo onde passam os canais de distribuição. logo, mais uma vez, é impossível atestar a eficiência ou ineficiência.

Anónimo disse...

Uma rede (de transporte ou de distribuição, e respectivas subestações e postos de transformação) são investimentos de uma ordem de grandeza enorme, mas vamos assumir que temos várias empresas com capital suficiente interessadas em entrar em concorrência. Vamos assumir que existe concorrência na produção, na distribuição e no transporte, e vamos partir do princípio que uma empresa actua apenas num dos três ramos (para não haver oligopólios).

1: todas as A centrais térmicas, B parques eólicos, C barragens têm de estar ligadas a uma subestação para elevar a tensão, para transportar com menos perdas. Para N empresas a actuar no transporte, existem N subestações por central.

2: em vez de existir um posto de transformação em cada bairro (para baixar a tensão) devem existir M para as M empresas de distribuição. Vamos assumir que Portugal tem 10000 postos de transformação.

Vamos assumir A=10, B=30, C=10. Para cada A, B ou C, N=5, M=10.

onde antes teríamos A+B+C=50 subestações teremos agora (A+B+C)*5=250

e onde teríamos dez mil postos de transformação teremos cem mil.

Neste caso acabámos de construir um mercado perfeito gastando 5 vezes mais de transformadores do que são precisos em subestações (caríssimos), 10 vezes mais postos de transformação em bairros do que seriam precisos. Parece-me um investimento gigantesco para que o preço de mercado reflicta o preço de produção: afinal de contas serão os utilizadores a pagar o investimento. E se tivermos menos empresas do que eu disse facilmente se cria um oligopólio. E que tal um pouco de bom senso, realismo e welfare economics como acontece na realidade? Mas bom, se encontrar algum economista libertarian que tenha abordado a questão, poste por aí! cumps

Rui Botelho Rodrigues disse...

ok, então peguemos noutro investimento de enorme grandeza, por exemplo, linhas ferroviárias. se pensarmos que, no tempo em que a maioria delas era privada, ou seja: XIX-início do séc. XX a grandeza é, proporcionalmente, maior que hoje. o que ilustra a possibilidade de haver grandes investimentos sem entraves ou ajudas do Estado.

ora, a única forma de saber se são necessárias dez, cem ou mil linhas ferroviárias é se elas forem privadas. só sendo privadas é que os donos ou gerentes podem determinar se os custos foram maiores ou menores que os lucros - e logo se os recursos foram eficiente ou ineficientemente utilizados.

a premissa aplica-se a todos os investimentos e a todos os sectores, incluindo o da energia. além disso, ninguém diz que o número de centrais ou distribuidoras ou subestaçõesde iria aumentar, diminuir ou manter-se o mesmo num mercado livre. é simplesmente impossível de saber sem o processo do mercado se utilizamos recursos a mais ou a menos, de melhor ou pior forma, e por aí adiante.

mais, não é preciso assumir que existem várias empresas ou que não existe integração vertical ou horizontal. se não houver entraves legais à entrada de empresas num particular sector, não é possível haver monopólio.

Anónimo disse...

De acordo, os caminhos-de-ferro foram uma revolução que aconteceu à margem do Estado. Deixe-me perguntar-lhe uma coisa muito simples: existiam linhas de empresas diferentes em paralelo (assumamos mesma partida e mesma chegada). Isto é, no caso de eu ter uma empresa de transporte ferroviário, posso optar entre realizar o meu serviço em dois ou mais trajectos alternativos, ou estou sujeito a pagar o serviço a uma empresa monopolista (com tudo o que isso acarreta) detentora da infraestrutura?

(Neste caso, o RBR pode dizer que se não apareceram mais empresas a competir naquele troço é porque não seria rentável, logo os recursos terão sido eficientemente alocados. Mas se não existir mercado num dado troço, de que me serve dizer que os recursos foram bem alocados? nestas condições qual é a diferença, na óptica do consumidor, entre haver uma empresa monopolista pública e outra privada?)

Rui Botelho Rodrigues disse...

num mercado livre puro - em que tudo é ou privado ou ainda sem dono e onde não existe propriedade pública ou governamental - o facto de haver apenas uma linha rodoviária num determinado percurso não constitui um monopólio. se essa única empresa tentar aproveitar-se desse facto e cobrar taxas muito altas, os lucros da linha rodoviária nesse percurso vão subir e logo atrair outros capitalistas para investir noutro percurso paralelo (e/ou os consumidores encontrarão formas mais rentáveis de viajar - carro, autocarro, etc.), baixando o preço de forma a obter mais clientes que a concorrência e obrigando assim o prévio "monopolista" a baixá-los também.

quanto ao monopolista público ou privado - do ponto de vista económico é praticamente indiferente ser uma coisa ou outra (excepto que talvez enquanto público seja ainda mais ineficiente). mas é preciso ter cuidado com o que se entende por isso. um monopolista, público ou privado, só pode adquirir essa posição obtendo protecção ou subsídios do Estado - exemplo mais ou menos privado, EDP; exemplo público, CP.

como disse, o facto de haver apenas uma linha ou uma empresa não torna a empresa monopolista em si. enquanto houver entrada livre no sector, qualquer abuso de poder da parte da empresa única cria logo vários incentivos para criar mais oferta ou para os consumidores utilizarem processos alternativos para o mesmo fim.

Anónimo disse...

Concordo com tudo o que escreveu, o que me traz de volta ao primeiro ponto: um investimento massivo poderá transformar-se em cinco ou seis investimentos massivos, o que de um ponto de vista da sociedade em geral requererá mais trabalho (extracção de matéria prima, mão-de-obra, etc.) do que a situação ideal para a esquerda libertária: consumidores e produtores unidos não para optimizar o mercado, mas para satisfazer as suas necessidades.

Deixo-lhe apenas mais uma nota que me parece importante: acho que o caso dos transportes é o típico em que a solução eficiente - óptima - do mercado é muitas vezes irracional. Toda a gente em Portugal tem um carro, ao passo que se vivêssemos numa sociedade de consumidores e produtores associados ou mesmo num estado com planificação centralizada teríamos provavelmente transportes públicos decentes e universais a um preço muito mais baixo.

Rui Botelho Rodrigues disse...

mas se concorda comigo, então não pode dizer o que diz a seguir: que invariavelmente num mercado livre, por haver concorrência livre, haverá vários (mais do que os necessários) investimentos de grande escala.

primeiro porque, como disse, é impossível saber o que satisfaz os consumidores fora do processo do mercado e sem o mecanismo de preferência demonstrada. ou seja, não existe uma quantidade "necessária" de qualquer bem a não ser a que os consumidores subjectivamente avaliam gastando o seu dinheiro nelas.

segundo porque, se vários investimentos de grande escala na mesma indústria forem sustentáveis (ou seja, gerarem lucro) é porque os consumidores demonstraram a sua preferência por eles, e logo os recursos utilizados não são desperdiçados, mas antes servem para satisfazer os desejos mais urgentes dos consumidores (caso contrário, não dariam lucro e os recursos seriam utilizados noutros investimentos mais lucrativos).

por fim, também me parece que não seriam necessárias vinte linhas ferroviárias paralelas ou duzentas centrais eléctricas em Portugal. por isso mesmo, num mercado livre provavelmente não haveriam tantas. mas é mesmo impossível de dizer com certeza, porque tudo depende de como as pessoas gastam o seu dinheiro em liberdade.

agora quanto à segunda parte, dos transportes. mais uma vez, trata-se de ser impossível de dizer o que é mais eficiente sem a preferência demonstrada. em planeamento central talvez houvesse mais transportes públicos, mas se isso não fosse desejado pelas pessoas não era realmente servi-las mas obrigá-las a viajar de uma forma que não é a que pretendem. e quanto ao preço mais baixo e à melhor qualidade, é simplesmente impossível. um monopólio, pela sua própria natureza, tende sempre a piorar a qualidade e a aumentar os preços - porque não tem concorrência. agora, é possível que o preço fosse pago, não pelos utilizadores, mas por não-utilizadores. mas isso não torna mais barato em absoluto, torna mais barato para algumas pessoas enquanto torna mais caro para outras. mas, como disse, além de não ser justo, não é minimamente eficiente.