segunda-feira, outubro 31, 2011

Em defesa do Darwinismo social.

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O “darwinismo social” foi inventado no Século XIX como termo pejorativo para o que hoje chamamos liberalismo clássico ou laissez-faire, especificamente aplicado a Herbert Spencer, pelos seus opositores. Em particular, o darwinismo social designava um sistema de “sobrevivência dos melhores” (survival of the fittest): um sistema premiasse a responsabilidade, o esforço, a criatividade, a excelência e o progresso moral – por outras palavras, que promovesse aqueles que, em liberdade, conseguissem o melhor para si e, nesse processo, contribuissem para melhorar a sua comunidade (e, em contrapartida, que desincentivasse o contrário). É precisamente isso que uma economia de mercado livre de intervenções promove: o serviço mais eficiente do próximo. Esta concepção do mundo que recompensa certas atitudes e sanciona outras, não podia (e continua a não poder) ser aceite pelo “espírito do tempo” moderno: o igualitarismo.

Como muitos outros termos, a acusação de darwinismo social servia, porém, mais como arma de arremesso do que como legítima forma de informação. Com a popularidade das teorias eugénicas de superioridade rácica, o termo darwinismo social passou a ser aplicado também, a meu ver erradamente, a estas fantasias homicidas e perdeu, definitivamente, o seu apelo como slogan para os defensores de uma ordem social fundada na propriedade privada, na responsabilidade pessoal e no progresso moral e material das sociedades humanas.

Duas notas muito prévias para evitar concepções erróneas e acusações falsas são expedientes: o escriba não se propõe a defender as teorias rácicas e eugénicas – que, tal como são entendidas, significam o extermínio de seres humanos considerados inferiores pelo processo político. E, também, é pouco relevante que o termo darwinismo social seja o produto mal intencionado de uma má concepção da teoria biológica da selecção natural – mesmo sendo uma comparação científicamente insuficiente, a analogia tem os seus méritos. Se a selecção natural significa a sobrevivência das formas de vida que se adaptam melhor a uma realidade biológica sempre em mudança, o darwinismo social tem de significar exactamente o mesmo no plano económico, social e político. E o sistema de preços formados no mercado livre, de investimento privado e de lucros e perdas, proporciona precisamente isso: um meio pelo qual os seres humanos podem adaptar-se às mudanças na realidade material do mundo. Mas, além disso, significa a conservação e o incentivo de atitudes e tradições que contribuam para o progresso material e moral (que, a meu ver, deve acompanhar o progresso material – caso contrário este não será sustentável a longo prazo), e assim que garantam a sobrevivência e perpetuação da espécie humana, e simultaneamente o seu melhoramento (moral e material).

A defesa do darwinismo social, entendido como o melhoramento da espécie através da “selecção natural” resultante das escolhas livres dos seres humanos inseridos numa sociedade, é importante porque a ideologia vigente é, precisamente, uma de anti-darwinismo social – ou seja, de promoção, não das virtudes, mas dos defeitos; de incentivo à degeneração, em vez do progresso moral. O fervor igualitário moderno não se limita a rejeitar uma forma de progresso moral em detrimento de outra. Na realidade está a rejeitar a ideia de progresso moral em si, como algo a que se deve aspirar.

Ao criticar a “selecção natural” do mercado, o que se reflecte na prática numa defesa das políticas do Estado Providência, o que se defende na realidade é a continuação das piores características dos seres humanos, precisamente aquelas que qualquer sociedade civilizada deve desencorajar.

O papel do secularismo neste processo de descivilização não deve ser menosprezado. Afinal, não exagero ao dizer que o objectivo principal de qualquer religião é o progresso moral dos seres humanos, sejam quais forem os meios adoptados por qualquer uma das religiões particulares. O mundo secular e igualitário em que vivemos, e a sua representação por excelência na promoção dos “direitos sociais”, fundamentalmente rejeita a necessidade progresso moral – e a permissividade total perante as mais variadas formas de vida “alternativas” atesta a veracidade do truísmo.

O anti-darwinismo social chegou a um ponto em que qualquer forma de degeneração é não só aceitável, desculpável e, se possível, a ser subsidiada – ou seja, encorajada: mas sobretudo a degeneração não é da responsabilidade do degenerado. Pelo contrário, o degenerado é a vítima de um sistema que não lhe forneceu oportunidades de não o ser, tornando a degeneração o seu destino natural. Precisamente o contrário é verdade: a degeneração (moral e física) visível nas sociedades modernas é o produto de demasiadas oportunidades oferecidas a custo zero e sem quaisquer contrapartidas; é o produto da vitimização dos criminosos (os “excluídos”) e da criminalização das vítimas (aqueles que, sendo honestos e trabalhadores – ou seja, estando inseridos produtivamente na sociedade - “excluem” os degenerados - na realidade, os que pagam a sua degeneração) .

Mas mais importante: esta não é uma visão minoritária, pelo contrário. Ela é o consenso democrático da maioria, mesmo entre os que pagam do seu bolso os “direitos sociais”. A grande maioria das pessoas é a favor das perversões do Estado Social e não se apercebe das suas implicações, quer práticas, quer teóricas. Toda a gente responsável e sensata é, apesar de tudo, a favor de uma restruturação ou reforma das “políticas sociais”, e considera que existe “um abuso” das mesmas. Não entende, porém, que esse abuso é o produto natural das próprias políticas e que a miséria moral que cresce a olhos vistos na sociedade é inevitável enquanto o sistema e a mentalidade que o suporta persistir.

A ideologia secular que produziu o Estado Social, produziu um sentimento hoje inamovível de direito nos beneficiários. Nomeadamente o direito a ser irresponsável sem sofrer as consequências dessa irresponsabilidade. Não admira, pois, que a delinquência, a toxicodependência, a criminalidade violenta, a irresponsabilidade, a corrupção, o desrespeito por qualquer forma de autoridade, o desemprego crónico e inúmeras outras formas de degeneração moral estejam há décadas a subir e, ultimamente, a chegar a níveis deveras preocupantes nas sociedades democráticas.

Finalmente, o anti-darwinismo é sobretudo explícito no facto de serem as pessoas honestas, responsáveis e trabalhadoras a financiar contra a sua vontade as extravagâncias dos irresponsáveis, funcionando como mais um incentivo perverso para que se juntem à classe das “vítimas”, ou seja, dos parasitas. Quantas pessoas que trabalhem e paguem do seu bolso casa, educação, saúde e impostos, não contemplam por vezes a situação de uns (reais ou hipotéticos) vizinhos, que não trabalhando e tendo tudo oferecido pelo Estado vivem definitivamente de forma mais desafogada e com menos preocupações?

E ao financiar-se a pobreza (porque é disso que se trata), incentiva-se a reprodução precisamente entre aqueles que não podem (e por isso não devem) ter filhos, na mesma medida em que desencoraja a natalidade nos casais que podem (e devem) ter filhos. Além disto, a mentalidade secular tentou (e continua a tentar ainda) desencorajar ou retardar também teoricamente os casais de cumprirem a benção de ter filhos. Em primeiro lugar ao banalizar a homossexualidade e os estilos de vida promiscuos e em segundo lugar elevando outros objectivos (a carreira, o prazer pessoal) acima de um absoluto bem e de uma absoluta necessidade para a perpetuação e evolução da espécie: que é a reprodução. O resultado é uma maior reprodução entre as classes mais baixas (com menos dinheiro, menos educação e piores atitudes morais), e uma menor reprodução entre as classes produtivas (com mais meios, mais educação e melhores atitudes morais).

De resto, mesmo entre a juventude das classes médias e altas vemos um nível de iliteracia, irresponsabilidade e desinteresse que assusta qualquer pessoa. Os incentivos a uma vida regrada e responsável foram completamente denegridos, em detrimento da “procura do prazer” e da “realização artística” - e outras formas torpes de hedonismo. Por outras palavras, o progresso moral tornou-se um objectivo ausente das cabeças de pais e filhos, professores e alunos, e por aí adiante. E neste capítulo, não podemos também desprezar o contributo do sistema educativo que, quer por meios públicos ou privados, é absolutamente centralizado e contribui, entre outras coisas, para deseducar as crianças e mantê-las durante vários anos fora do mercado de trabalho.

As consequências num futuro próximo deste anti-darwinismo social serão ainda mais desastrosas do que já são. Vivendo sob o governo da maioria, e sendo que a maioria, cada vez maior, é o produto deste sistema que promove a degeneração moral, teremos (como temos tido) governos cada vez mais populistas, que sobrecarregam cada vez mais os cidadãos produtivos e perpetuem o sistema e o processo de degeneração moral. As reformas e os paleativos com que os governos recentes tentam remediar a situação não farão mais do que enfurecer as “vítimas”, os “indignados”, que esperam sempre e ainda uma esmola. Só a mudança absoluta de sistema e dos incentivos que o acompanham pode efectuar alguma mudança para melhor.

Precisamos desesperadamente de darwinismo social. E só uma sociedade livre promove o progresso moral.

Adenda:

O leitor Luís F. Afonso deixou um comentário pertinente que vale a pena acrescentar:

«1. A essência de um certo "Social Darwinism" e a própria expressão em si atribuídas a um H. Spencer, representam, hoje, uma assunção sobremaneira contestada por historiadores do pensamento económico e político.
De facto, Spencer, enquanto membro proeminente do chamado "X Club", fundado por Thomas Huxley em 1864, terá partilhado e aguçado muitas das ideias saídas dessa extraordinária tertúlia vitoriana que além dos próprios Huxley e Spencer, chegou a contar com génios de um século como Thomas Archer Smith, John Lubbock, John Tyndall e o próprio Charles Darwin, de quem Huxley terá sido o mais aguerrido defensor na praça pública.


Porém, é a um homem não directamente ligado a este círculo de excelência, ainda que próximo do mesmo, que as origens de um certo ""Social Darwinism", essencialmente político/axiológico, devem ser traçadas, e esse homem é Sir Francis Galton, primo afastado de Darwin e académico de múltiplos talentos.
O equívoco da atribuição da sua essencialidade a Spencer, é hoje ponto assente que se deve a uma certa literatura política dominante nos E.U.A. ao longo da 1ª metade do Século XX, que de publicação em publicação lá foi firmando o mito na consciência comum de que Herbert Spencer era o "Pai do Social Darwianismo" ("S.D.").


2.Em qualquer recurso, a obra muitas vezes considerada como sendo o 'expoente máximo' do "S.D.", é, na verdade, um obscuro panfleto 'agitprop' surgido em Chicago por volta de 1890, simplesmente intitulado "Might Is Right" (um título deveras sugestivo...), e cuja identidade do respectivo autor (que assinava sob o pseudónimo de 'Ragnar Redbeard') ainda hoje é objecto de aceso debate entre académicos e curiosos destas coisas — acerca do mesmo já foram vertidas as mais rebuscadas teorias, identificando no misterioso 'R.R.' figuras tão diversas como um obscuro socialista Neo-Zelandês, Arthur Desmond de seu nome, o escritor Jack London, ou o próprio Presidente Norte-Americano Theodore Roosevelt.


Porém o que há a reter, antes de mais, desta estranha obra é o facto de a mesma, mais que nihilista ou amoralista, se revelar verdadeiramente 'anti-moral', e pesadamente racista, misogena, belicista, etc., algo que não deverá ser de estranhar considerando o contexto histórico e o lugar onde surgiu. Porém o livro em si, e com ele a expressão "Social Darwinism" é hoje apanágio de todo o tipo de tarados, entre neo-nazis e eco-terroristas, que de escuras vielas do oblívio comum saem de quando em vez para a luz do dia.


Naturalmente, ninguém de bom senso aqui toma a invocação de um certo "Social Darwinismo" por parte do RBR, como aludindo aos entendimentos retorcidos que essas outras pessoas alegadamente propagandeiam desta expressão e seu conteúdo.


Em todo caso, como dizia a famosa caixa de palitos "Cuidado com as imitações"

O "último cavaleiro do liberalismo" strikes again... kind of.

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À partida, este texto do Rui Albuquerque (a última das suas cruzadas contra o anarco-capitalismo) parece-me perfeitamente sensato. Simplesmente, ao mesmo tempo que procura exigir que os ancaps ofereçam uma defesa positiva da sua posição (em vez de apontarem as deficiências dos outros sistemas, sobretudo do liberalismo constitucional), limita-se a defender o seu sistema (liberalismo constitucionalista) apontando as deficiências dos sistemas anteriores (nomeadamente, a monarquia absoluta e o sistema feudal). Rothbard, por exemplo, concordaria com ele que o liberalismo constitucional constituiu um passo em frente no caminho para uma sociedade objectivamente mais livre; Hoppe, pelo contrário, discorda. 

Mas quer concordemos ou não (e o presente escriba, sendo um hoppeano, discorda), essa é uma discussão totalmente distinta da praticabilidade e desejabilidade de uma ordem de pura propriedade privada (como Hoppe lhe chama). E muito embora seja uma discussão interessante, a de saber se estamos politicamente mais ou menos livres hoje que, digamos, há trezentos anos atrás, ela não serve para aquilo que o Rui se decidiu a fazer, nem para provar que os ancaps não fazem aquilo que o Rui considera necessário fazer, e com razão. O que podemos retirar do texto do Rui não é uma crítica ao anarco-capitalismo, nem uma defesa positiva do liberalismo clássico, mas uma simples crítica aos sistemas pré-liberais. 

O Rui não provou, portanto, as três coisas que queria provar: que o anarco-capitalismo não é praticável, que o anarco-capitalismo não é desejável e que a ética e moral subjacentes ao liberalismo clássico, se levadas à sua consequência lógica, não podem justificar um monopolista jurídico com o direito de cobrar impostos.

Resta dizer que se o Rui quiser uma exposição positiva das virtudes do anarco-capitalismo, basta ler os trabalhos seminais de Rothbard e Hoppe, em especial e respectivamente, The Ethics of Liberty e The Economics and Ethics of Private Property.

Fico portanto à espero do texto de quarta-feira para o definitivo knock-out.

domingo, outubro 30, 2011

Primeira Conferência Portuguesa do Liberalismo Clássico

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Num país que não produziu qualquer partido liberal (no sentido clássico) durante a monarquia constitucional ou a primeira república, num país que sofreu uma ditadura clerical sem produzir qualquer oposição liberal, num país com dois partidos nominalmente comunistas com representação no parlamento, uma conferência destas é um marco histórico.

2011, de resto, foi um ano de ouro para o liberalismo clássico em Portugal: além desta prometedora conferência, a filial portuguesa do Mises Institute foi criada. Resta dizer que uma conferência deste género pode fazer mais pela realização de uma sociedade livre do que cem eleições de liberais para o parlamento ou para o governo.

Dia 26, se puderem, marquem presença, até porque é uma pechincha.

Que seja a primeira de muitas.

terça-feira, outubro 25, 2011

Por trás de cada Guevara, há uma criança e um democrata.

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No meu post anterior mencionei um truísmo sobre o qual ainda não tinha reflectido devidamente: o de que os “indignados”, e junto a eles a grande maioria da juventude do Avante e das manifestações – ou seja, o futuro da extrema-esquerda – não é ideologicamente motivada ou fundamentada.

À superfície esta proposição não é verdadeira: se analisarmos a indumentária e os heróis dos jovens, por exemplo, que andam pelas universidades e manifestações observamos concerteza centenas de símbolos comunistas, os rostos de Marx, Engels, Guevara e Lenine – e com menos frequência, também Estaline ou Mao. Mas é absurdo exagerar a significância destes símbolos e rostos. A grande maioria, arrisco, não leu Marx, Engels ou Lenine; desconhece certamente os detalhes da admnistração soviética ou as minúcias do processo de sedimentação do regime cubano. E se questionados directamente sobre as mais diversas questões, sabemos que não estão minimamente interessados na colectivização dos meios de produção, na inevitabilidade histórica do socialismo (entendido como Marx o entendia), no comunismo internacional de Lenine ou no comunismo restrito a um país apenas de Estaline.

Muito sucintamente, o que pretendem não é muito removido do programa do PSD ou do CDS, tirando alguns pontos que, por teimosia ou tradicionalismo blasé e da moda, aquilo que em Portugal e nos outros sítios representa a diferença entre direita e esquerda: o aborto, as drogas, a prostituição - ou seja, questões fundamentalmente de conduta pessoal (excepto, com algumas qualificações, o aborto). Mas no essencial, os “indignados” pertencem ao grande grupo da social-democracia e não se distinguem pela originalidade.

O poder democrático deve, portanto, servir – como servia os “socialistas moderados” daquilo que podemos chamar a “era ideológica” - para a redistribuição da riqueza – dos patrões para os empregados, bem entendido. A filosofia subjacente é uma de igualitarismo pré-marxista, no sentido em que a igualdade de redimentos, e não a organização produtiva da sociedade, é o principal problema em mente. Na medida em que, para que haja redistribuição dos patrões para os empregados é necessário que exista essa distinção, então a sociedade que os indignados procuram é uma em que a distinção permaneça, com suavizações, regulações e protecções politicamente forçadas, mas ainda assim, uma sociedade em que pelo menos parte da propriedade produtiva deve permanecer em mãos privadas. Na verdade, pelas exigências ouvidas entre os indignados e pela observação possível da sua conduta e estilo de vida, podemos auferir que, embora no sítio onde vivem pretendam um Estado Social com uma monstruosa envergadura, um mundo capitalista tem, essencialmente, de existir noutro lugar, de preferência longe da vista e por consequência do coração solidário destas pessoas, de forma a que certos avanços tecnológicos possam ser importados para o “paraíso social-democrata” onde pretendem viver. Pois quando pedem educação e saúde gratuíta, ou pelo menos altamente subsídiada pelo Estado, sabemos com certeza que não pretendem abdicar de tecnologia, medicamentos e outras amenidades que o modo de produção capitalista, mesmo com todos os entraves presentes no mundo moderno, conseguiu produzir e produz ainda em abundância. Não podemos presumir que os indignados compreendam este paradoxo, podemos aliás presumir o contrário – que não compreendem que certos bens não são passíveis de serem produzidos num lugar onde o Estado Social redistribui sistematicamente – mas a realidade não deixa de ser esta.

Esta geração, que certamente terá muitos problemas em adaptar-se a um modo de vida distinto, é em suma o produto do Estado Social e da democracia por excelência: uma massa infantilizada e profundamente ignorante. A sua doutrina não é marxista, maoísta, nem nada tão estruturado ou intelectual: é simplesmente uma rejeição da realidade. Não devemos pois exagerar a importância dos símbolos e da retórica de extrema-esquerda, já que não é desse vírus que a populaça sofre. O problema está precisamente em que os indignados partilham a mesma visão de todos os parlamentares, da mais ínfima direita à mais infame esquerda, excepto que não por motivos intelectuais: todos acreditam profundamente na política como omnipotência – ou seja, como capaz de vergar as leis da natureza, sobretudo as leis praxeológicas ou económicas. E todos se acreditam com direito a participar no milagre da multiplicação, isto é, acreditam na superstição democrática (indissociável do Estado Social). O egoismo e a devassa da nossa era é um produto, não do avanço tecnológico (como alguns cafres conservadores irracionalmente acreditam), mas de um avanço tecnológico cujos custos não são individualizados, mas redistribuídos – socializados, se quiserem.

Mas enquanto as elites sofrerem do mesmo estigma democrático, mesmo que por razões teóricas, a populaça não abandonará o estigma democrático pelas suas razões práticas. É tão simples como isso. Marx, Lenine ou Guevara são apenas símbolos. Símbolos da ignorância de quem os usa, não por aderirem a eles, mas precisamente porque envergando-os, os rejeitam no fundamental. Não que a aderência ao marxismo-leninismo seja benéfica, mas a luta intelectual contra este espectro que já não assombra ninguém, ao procurar um alvo que já não existe, deixa o verdadeiro alvo à solta, sem resposta, a causar inúmeros estragos.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Estado Social e proteccionismo.

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Começar por dizer que a breve revisão histórica feita pelo Bernardo me parece correcta. No entanto, surgem alguns problemas com a revisão que se segue sobre o mundo moderno e as condições necessárias ao Estado Social.

Como se define a "relevância" de "tarifas aduaneiras" é uma questão difícil. E, claramente, o proteccionismo de hoje não é o mesmo de 1840. Mas existem no presente contexto várias formas de proteccionismo, ou seja, entraves à livre circulação de bens e capitais que visam precisamente manter o status quo do Estado Social. Os milhares de páginas dos inúmeros "free trade agreements" falam por si mesmos: afinal, para declarar que existe liberdade de comércio entre um Estado e outro Estado uma frase apenas basta, nomeadamente uma que declare que nenhuma lei deve limitar a circulação de bens e capitais. Estes acordos, pelo contrário, não pretendem essa abordagem, e visam sobretudo harmonizar as estruturas tributárias e benefícios “sociais” dos vários países de forma a que os países com tendências mais socializantes não sofram as consequências das suas políticas de forma tão dura ou tão imediata, sobretudo no que ao comércio internacional diz respeito.

Para não falar nas inúmeras regulações impostas sobre os produtores para que os seus produtos possam ser vendidos dentro de determinadas fronteiras. Quer sejamos contra ou a favor das determinadas regulações e controlos de qualidade, etc, não podemos negar que se tratam de condições especiais à entrada de bens e capitais, e logo, de entraves ao comércio.

Outro exemplo é tocado ao de leve pelo Bernardo: o das drogas – e igualmente, outros bens cuja compra e venda estão severamente restringidas ou mesmo proibidas, como as armas. Se não houvesse esse entrave – ou seja, esse proteccionismo – não seria necessário ir à Holanda para fazer reuniões do Bloco de Esquerda.

E ainda: em 1840 a reserva monetária mundial era o ouro, e todas as moedas nacionais podiam ser imediatamente redimidas em ouro, além de que a circulação e uso diário de moedas de ouro e prata era corrente em todo o mundo. Hoje, a reserva mundial é o dólar, que não pode ser redimido por coisa nenhuma a não ser mais pedaços de papel, pedaços que podem ser reproduzidos quase a custo zero pela Reserva Federal Americana. Por sobre as reservas de dólares, outros bancos centrais produzem outros pedaços de papel com outros nomes, com os mesmos custos de produção. É escusado dizer que o poder do banco central – uma agência estatal – para inflacionar a moeda constitui uma arma de proteccionismo da parte do Estado que inflaciona.

Outro problema com a teoria do Bernardo é que, alegadamente, o Estado Social é sustentável com proteccionismo old school. Ora, isso implica que, 1) o Estado Social não tem problemas de sustentabilidade em si mesmo, com ou sem proteccionismo e 2) que o proteccionismo que permite a sustentabilidade do Estado Social não tem problemas de sustentabilidade em si mesmo. Nenhuma das proposições é verdadeira, porém.

Mais: o que quer dizer com a “economia moderna” ser “baseada em bens intangíveis”? Que bens intangíveis estamos a falar? Nenhuma economia funciona apenas com serviços, e logo essa frase, ou precisa de uma revisão e de muitas qualificações adicionais, ou não faz qualquer sentido. Nenhuma economia, moderna ou atrasada, se baseia em bens intangíveis. Além disso, todos os itens que nomeou como bens a serem abdicados em nome do Estado Social são tangíveis e físicos, logo, o raciocínio é um non sequitur.

E ainda, não creio que a crítica da sustentabilidade seja importante para os "manifestantes". Eles não se comovem com a insustentabilidade, nem se preocupam com a sustentabilidade. Eles querem simultaneamente ipads e educação grátis, drogas e hospitais grátis para os desintoxicar, uma coisa sem a outra, de resto, não seria tolerável. O que eles querem, no fundo, não é o Estado Social que os partidos social-democratas do século XIX queriam por motivos ideológicos: eles querem um mundo onde os bens não são escassos e tudo está ao alcance do poder político.

domingo, outubro 16, 2011

Os outros noves de Cain

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Porque será que se vêem tantos liberais em Portugal a aplaudir Herman Cain, que apareceu ontem e ameaça desaparecer amanhã, em vez de uma personagem como Ron Paul, que há mais anos do que eu tenho de vida anda a votar contra medidas liberticidas e a defender o liberalismo sem compromissos? Será apenas porque para Ron Paul a intervenção do Estado não passa a ser benéfica e brilhante quando é feita para além das fronteiras?  Pode a questão da guerra votar Ron Paul ao desprezo dos liberais portugueses?

sábado, outubro 15, 2011

Notas sobre medidas de austeridade, a dívida e o PCP

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Em primeiro lugar, todos os cortes no rendimento dos parasitas que dão pelo nome, nestes tempos de eufemismo grotesco, de "funcionários públicos" são bem vindos. Há, porém, um problema com as medidas particulares apresentadas pela máfia, perdão, pelo governo: é que cortar nos salários e pensões da função pública não é o caminho, a menos que seja um corte de 100%. Estes são empregos que não deviam existir, salários que não deveriam ser pagos. Cortar o subsídio de Natal e de Férias é completamente irrelevante para o problema principal, que é a existência de funcionários públicos em primeiro lugar. Dado que seria impossível acabar com todos de uma vez, poder-se-ia começar por despedir uns quantos. E depois muitos. Mas este é o liberalismo possível para um candidato de um partido social-democrata eleito por sufrágio universal. Esperar algo mais, ou algo melhor, era pura inocência ou parvoíce. Mas a sabujice da direita reaparece assim que o PSD ganha eleições e forma governo de coligação com o CDS, seja qual for o boneco que faz os discursos e os idiotas que os idealizaram - possivelmente porque muitos deles estão entre os ideólogos, e foram, claro, pagos por isso. Sacrifícios, sim; mas ninguém escreve estas baboseiras de borla, isso não. 

Em conclusão, na redução da despesa, o messias liberal é uma fraude. Vai conseguir irritar muita gente, sem conseguir resolver coisa alguma. E, um pouco mais deprimente, nem sequer ensaia alguma desregulação essencial para que a economia arranque minimamente, deixando a paralisia e os entraves todos à criação de riqueza (e possivelmente acrescentando alguns com retórica "liberal") - o que revela, a par com o seu aberrante corporativismo, uma ignorância e estupidez gritantes. Afinal, quem é que quer ser timoneiro de um barco afundado? Aparentemente, Passos Coelho.

Do lado do aumento da receita, a coisa não melhora. Sobretudo pelo facto chocante de que se pretende aumentar a receita. É, digamos, uma receita para a desgraça. Se já não se criam empresas ou contratam trabalhadores, então a coisa vai piorar na exacta medida dos aumentos de impostos – a inércia caquética da nossa economia vai tornar-se um coma prolongado. Mais uma vez, a brilhante (no sentido de se ver no escuro) ignorância daqueles que nos pastoreiam se revela aos nossos olhos incrédulos. Em nome da “responsabilidade fiscal” e do “equilíbrio orçamental” aproveita-se e rouba-se mais um bocadinho. Mas para quê?

A única resposta possível é que sirva para pagar a nossa enorme dívida. Aqui reside o problema maior: o facto de se achar que a dívida pública deve ser paga. Não deve. E por tantas razões: em primeiro lugar, ela não deveria ter sido contraída. Esse mal, porém, já está feito. O que não é justo ou útil, é roubar os portugueses para pagar a coisa. Os portugueses não contrairam essa dívida, o Estado sim. Mas como o Estado só tem dinheiro roubado aos portugueses, então deduz-se que os credores do Estado esperavam lucrar com o roubo futuro dos portugueses. Não é um pensamento bonito. Porque não deixá-los a arder no fogo da sua ganância usurpadora?

Não pagar a dívida, de resto, tem uma vantagem utilitária importantíssima, que é a de assegurar que ninguém emprestaria dinheiro ao Estado português nos próximos anos (tempo que deve chegar para pôr as coisas em ordem e os trastes na cadeia). Ou seja: não haveria Estado Social, jobs for the boys, a palhaçada social-democrata dos últimos 37 anos. A verdadeira dimensão do país, a necessidade de investimento privado e de liberalização económica, o imperativo da não-intervenção do Estado tornar-se-ia claro como a água perante a pobreza generalizada. E depois seria reconstruir.

Infelizmente, não pagar a dívida e declarar bancarrota parece ser uma opção que nenhum dos partidos está disposto a ponderar. O PCP, pelo menos, é contra o aumento dos impostos. Claro que, quando um partido comunista é o mais liberal no parlamento, a coisa está pela hora da morte. Parece que a hora é mesmo essa, de resto.

terça-feira, outubro 11, 2011

Vencer, vencer, vencer.

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Pode até ser. Mas de que adianta vencer Obama se é para mais do mesmo? Para homem de plástico prefiro o da esquerda, pelo menos deixa os Republicanos mais alerta e não usa retórica pró-capitalista para destruir a pouca liberdade que ainda existe no mercado.

Comentário

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A isto e isto.

Um ponto importante sobre a possibilidade de criticar da mesma forma os liberais-libertários por utilizarem serviços do Estado (beneficiarem directamente dele é uma outra questão, a meu ver com uma resposta diferente). 

Ao contrário dos produtos das empresas em questão (ipads, iphones, etc.), os contribuintes pagam quer queiram quer não pelos "produtos do Estado", daí que usufruir deles é, ou pode concebivelmente ser, uma medida defensiva. 

Se um sujeito acredita que é injusto que os ipads sejam feitos por crianças em fábricas, ou que o sistema de "wage-slavery" deve ser subvertido ou outra tontice do género, têm a possibilidade de não contribuir para a perpetuação da coisa ao não comprar o produto. Se um contribuinte acredita ser injusto que lhe retirem parte do rendimento para subsidiar hospitais pode apenas resignar-se, pois a parte do rendimento vai ser-lhe retirada de qualquer das formas, e se quiser recuperar algum do dinheiro mesmo que sob outra forma, poderá frequentar hospitais subsidiados.

Por isso, acho que a crítica moral dos liberais-libertários é incorrecta; e a crítica semelhante dos protestantes anti-capitalistas é válida. Porque, repare-se, não estamos a falar de bens necessários à sobrevivência ou à vivência acima da miséria, são artigos de luxo com tecnologia de ponta - produzidos num sistema que consideram iníquo e com a exploração de gente pela qual eles se dizem solidários e cuja "opressão" pretendem cessar. É, se quisermos ser honestos, uma hipocrisia pura e simples.

terça-feira, outubro 04, 2011

Duzentos anos depois...

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Inicia-se, no intervalo do cigarro, uma conversa casual com uma jovem, por qualquer razão. Os sinais exteriores não são de todo alarmantes, e não me refiro a atributos físicos, que esses existem aos montes, e aos pares. 

Razoavelmente inteligente e aculturada, tendo lido livros e visto filmes, conhecendo pelo menos uma língua além da sua, o espécime está bem acima da média. Aparentemente, nenhum dos sintomas do politicamente correcto a aflige, nem sequer nutre especial afeição por discotecas, hip hop, Manoel de Oliveira ou pelo bairro alto. A criatura exprime-se de forma clara, elaborada e sem erros - chegando mesmo a pronunciar "Winona Ryder" sem parecer sofrer de alguma doença genética incurável.

Não existe, porém, bela sem senão. Bastou enveredar pelo tema da crise, da política e da economia, para que o verdadeiro flagelo da geração se mostrasse em pleno: mesmo não gostando do bairro alto, falando correctamente e tendo lido livros e visto filmes, a rapariga consegue em cerca de cinco minutos recitar todos os lugares-comuns do pensamento social-democrata. Do salário mínimo à educação gratuita, dos impostos sobre os ricos às "multinacionais maléficas", a rapariga parecia transformar-se aos poucos numa criatura desprovida de razão e de decência, meio estudante universitário, meio parlamentar. Chegou mesmo a criticar o "liberalismo de Passos Coelho", depois de culpar o sistema capitalista desregulado (coisa que, dadas as circunstâncias, não se sabe muito bem o que seja) por todos os males que afligem, afligiram ou venham a afligir o mundo e a espécie humana.

Duzentos anos depois de Adam Smith, as proposições mais básicas da ciência económica não entram na cabeça de jovens semi-alfabetizados, aparentemente sãos, que trabalham e pagam impostos. Como explicar o fenómeno?

sábado, outubro 01, 2011

Rui A. - o último cavaleiro do liberalismo

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Circunstâncias pessoais não me permitiram voltar ao assunto mais cedo, mas ainda sobre este post: o Rui A. queixa-se que o Mises PT tem como objectivo «promover a divulgação e o ensino da Escola Austríaca na tradição de Ludwig von Mises» e depois se põe com anarcocapitalismos de mau gosto de quem foge de Mises como o vampiro foge a cruz.

Gostava de lhe perguntar (sabendo que ele não me vai responder) porque não se queixa ele do mesmo sobre o Mises Institute original e tenta da mesma forma demover os leitores nacionais da leitura desse site - que só alguém muito distraído ainda não reparou que está "infestado" de anarquistas rothbardianos?

E já agora, outra dúvida que me assaltou, porque não me menciona pelo nome, já que sou o autor do texto que originou a fúria? Será que ainda está chateado comigo por uma troca de piropos que sucedeu há um ano e em que a discórdia, diga-se, nem era directamente com ele, mas com um seu colega de blog - blog que entretanto abandonou?

O Rui A. é, de facto, muito engraçado: continua a debitar excertos sem qualquer comentário para provar que Ludwig von Mises e os anarco-capitalístas nada têm em comum - sem que, no entanto, responda à minha resposta (resposta essa em que incluí também um excerto que, além de provar que também consigo fazer citações, demonstra exactamente o contrário do que o Rui A. diz sobre Mises e a sua relação com o Liberalismo Clássico - que o Rui A. queria que lhe demonstrassem «que, nesta matéria, ele [Mises] se tenha afastado dos liberais clássicos». Claro que ele nunca a aceitará, mas não há problema: ele pode ficar com o liberalismo clássico e trazê-lo na lapela para as ocasiões. Mas daqui a pouco, com tantas citações, parecemos beatos a ver que parte da escritura é mais sagrada ou comunas para quem só a sua versão é a verdadeira forma de comunismo.

Outra coisa: num comentário o Rui A. escreve que «o estado parece ser uma inevitabilidade, o que, de resto, se não passarmos ao largo da História, se torna uma evidência». Acho sempre piada a esta menção da História e do estudo da mesma (de que o Rui A. é o mais pungente representante na blogosfera portuguesa, bem como do tema "a pureza do liberalismo clássico") como se a ocorrência ou não ocorrência histórica só por si pudesse estabelecer alguma verdade política ou económica. Não pode. Há duzentos anos assistiu-se ao desmentir da "evidência" e "inevitabilidade" da escravatura - que, olhando só para a História, teria de existir sempre. Mas dado que já foi há duzentos anos, e faz parte da História, este facto do fim da escravatura (que quebrou uma tendência até lá permanente) torna a quebra de tendências e tradições "permanentes" também uma verdade histórica? Se sim, então também se aplica ao Estado. Se não, então não se aplica a nada. Ou, a melhor hipótese, aplica-se apenas àquilo que o Rui A. achar necessário para pintar as ideias anarco-capitalistas como engenharias sociais perversas. Eu aposto nesta última.

Mas avançando, se o Estado sempre existiu (e, isso de alguma forma mística assegura que sempre existirá), então o Rui A. considera que 1) não podendo fazer nada quanto a isso temos de viver com o bicho e tentar fazer o melhor dele (liberalismo clássico utilitário), ou 2) o facto de sempre ter existido  torna-o o bom e desejável (que é uma espécie de parvoice oakeshottiana)? É que conforme lhe dá jeito para atacar o anarco-capitalismo, o Rui A. às vezes defende o Estado por uma questão de princípio inabalável e contrato social, outras de utilitarismo e de "perspectiva histórica" (é a chamada "fuga para trás"). Pessoalmente acho que é o que servir melhor o propósito de reduzir os ancaps aos "hippies de direita" (como dizia a Ayn Rand), mas isso deve ser má vontade da minha mente anarquista perigosíssima.

Difícil mesmo é discutir ideias com pessoas como o Rui A. que, por um lado, escreve um post para dizer mal do Mises PT e denunciar a forma como o site não segue a tradição liberal (quando devia ter dito mal só de mim ou só do meu texto) e depois se queixa que são os ancaps que criam cisões e estão obcecados com a pureza ideológica. Numa palavra: ridículo. Em duas: masturbação mental.

PS: o Rui A. queria, já agora, «que os «miseanos» não estivessem permanentemente a pôr em causa os liberais clássicos, como [se] Mises não o tivesse sido». Nisso já não o posso ajudar, pois hei-de continuar a pôr em causao liberalismo e Mises naquilo em que estava errado ou incompleto. Na medida em que Mises foi um liberal clássico típico, é necessário acrescentar, rever e corrigir (coisa que Rothbard ou Hoppe já fizeram). Como diz o Rod Long "Mises wasn't really a misesian".