terça-feira, outubro 04, 2011

Duzentos anos depois...

Inicia-se, no intervalo do cigarro, uma conversa casual com uma jovem, por qualquer razão. Os sinais exteriores não são de todo alarmantes, e não me refiro a atributos físicos, que esses existem aos montes, e aos pares. 

Razoavelmente inteligente e aculturada, tendo lido livros e visto filmes, conhecendo pelo menos uma língua além da sua, o espécime está bem acima da média. Aparentemente, nenhum dos sintomas do politicamente correcto a aflige, nem sequer nutre especial afeição por discotecas, hip hop, Manoel de Oliveira ou pelo bairro alto. A criatura exprime-se de forma clara, elaborada e sem erros - chegando mesmo a pronunciar "Winona Ryder" sem parecer sofrer de alguma doença genética incurável.

Não existe, porém, bela sem senão. Bastou enveredar pelo tema da crise, da política e da economia, para que o verdadeiro flagelo da geração se mostrasse em pleno: mesmo não gostando do bairro alto, falando correctamente e tendo lido livros e visto filmes, a rapariga consegue em cerca de cinco minutos recitar todos os lugares-comuns do pensamento social-democrata. Do salário mínimo à educação gratuita, dos impostos sobre os ricos às "multinacionais maléficas", a rapariga parecia transformar-se aos poucos numa criatura desprovida de razão e de decência, meio estudante universitário, meio parlamentar. Chegou mesmo a criticar o "liberalismo de Passos Coelho", depois de culpar o sistema capitalista desregulado (coisa que, dadas as circunstâncias, não se sabe muito bem o que seja) por todos os males que afligem, afligiram ou venham a afligir o mundo e a espécie humana.

Duzentos anos depois de Adam Smith, as proposições mais básicas da ciência económica não entram na cabeça de jovens semi-alfabetizados, aparentemente sãos, que trabalham e pagam impostos. Como explicar o fenómeno?

4 comentários:

Eduardo F. disse...

Pelo que vejo nos compêndios dos meus filhos, continua-se a ensinar na universidade a mesma lengalenga keynesiana e neoclássica com que o pai foi mimoseado. E hoje há uma agravante face ao passado: também se "ensina" economia a uma larga franja de estudantes do secundário.

RBR disse...

eu lembro-me de ter economia na escola e pensar que era uma espécie de feitiçaria moderna, tipo druídas na floresta. além de dar um sono dos diabos e de ter sido a minha única negativa de sempre.

até encontrar os austríacos, continuei a pensar o mesmo - e continuo em relação à maioria dos economistas.

de resto, a mudança a meu ver não vem nem pode vir das escolas ou faculdades, já que são controladas pelo Estado e organizadas para o ensino de ideias que ajudem a perpetuar a sua intromissão na vida das pessoas.

Miguel Madeira disse...

A respeito do ensino de economia:

- na universidade aprendi economia keynesiana e neoclássica

- no secundário aprendi economia marxista (pelo menos o livro era marxista, embora o professor não o fosse)

A respeito da conversa:

- pela descrição, dá-me a ideia que muitas dos assuntos abordados têm tão ou mais a ver com juízos de valor do que com juízos de facto, pelo ser inteligente, instruído, semi-alfabetizado, etc. não é garantia que se tenha a opinião "certa" (pondo a coisa de outra maneira - alguém até pode conhecer toda as teorias económicas liberais, do Adam Smith e do Hayek até ao Rothbard ou ao Block, mas se não concordar com a visão liberal do que é o "direito natural", provavelmente nunca será a ser um liberal puro)

RBR disse...

No meu caso o livro de economia era quase todo baseado no Samuelson, tipo "samuelson for dummies" ou "a anita vai ao paul samuelson", salvo seja. isto nas partes mais conceptuais e doutrinárias (tipo o papel do banco central e etc), na maioria era contabilidade, porém. até comecei há um ano e tal a escrever um texto que já ia grande a criticar página por página o livro mas entretanto apercebi-me da irrelevância da coisa (ou aliás, de ambas as coisas - o livro e o meu texto).

pelo que consegui perceber da rapariga - porque já falei mais do que uma vez com ela - era uma questão de, em primeiro lugar, ignorância económica pura e, em segundo, preconceito contra o capitalismo e a economia de mercado, do género "nem sequer quer estudar economia burguesa" - e acho que esta combinação é a mais comum, entre os jovens pelo menos.