segunda-feira, outubro 31, 2011

Em defesa do Darwinismo social.

O “darwinismo social” foi inventado no Século XIX como termo pejorativo para o que hoje chamamos liberalismo clássico ou laissez-faire, especificamente aplicado a Herbert Spencer, pelos seus opositores. Em particular, o darwinismo social designava um sistema de “sobrevivência dos melhores” (survival of the fittest): um sistema premiasse a responsabilidade, o esforço, a criatividade, a excelência e o progresso moral – por outras palavras, que promovesse aqueles que, em liberdade, conseguissem o melhor para si e, nesse processo, contribuissem para melhorar a sua comunidade (e, em contrapartida, que desincentivasse o contrário). É precisamente isso que uma economia de mercado livre de intervenções promove: o serviço mais eficiente do próximo. Esta concepção do mundo que recompensa certas atitudes e sanciona outras, não podia (e continua a não poder) ser aceite pelo “espírito do tempo” moderno: o igualitarismo.

Como muitos outros termos, a acusação de darwinismo social servia, porém, mais como arma de arremesso do que como legítima forma de informação. Com a popularidade das teorias eugénicas de superioridade rácica, o termo darwinismo social passou a ser aplicado também, a meu ver erradamente, a estas fantasias homicidas e perdeu, definitivamente, o seu apelo como slogan para os defensores de uma ordem social fundada na propriedade privada, na responsabilidade pessoal e no progresso moral e material das sociedades humanas.

Duas notas muito prévias para evitar concepções erróneas e acusações falsas são expedientes: o escriba não se propõe a defender as teorias rácicas e eugénicas – que, tal como são entendidas, significam o extermínio de seres humanos considerados inferiores pelo processo político. E, também, é pouco relevante que o termo darwinismo social seja o produto mal intencionado de uma má concepção da teoria biológica da selecção natural – mesmo sendo uma comparação científicamente insuficiente, a analogia tem os seus méritos. Se a selecção natural significa a sobrevivência das formas de vida que se adaptam melhor a uma realidade biológica sempre em mudança, o darwinismo social tem de significar exactamente o mesmo no plano económico, social e político. E o sistema de preços formados no mercado livre, de investimento privado e de lucros e perdas, proporciona precisamente isso: um meio pelo qual os seres humanos podem adaptar-se às mudanças na realidade material do mundo. Mas, além disso, significa a conservação e o incentivo de atitudes e tradições que contribuam para o progresso material e moral (que, a meu ver, deve acompanhar o progresso material – caso contrário este não será sustentável a longo prazo), e assim que garantam a sobrevivência e perpetuação da espécie humana, e simultaneamente o seu melhoramento (moral e material).

A defesa do darwinismo social, entendido como o melhoramento da espécie através da “selecção natural” resultante das escolhas livres dos seres humanos inseridos numa sociedade, é importante porque a ideologia vigente é, precisamente, uma de anti-darwinismo social – ou seja, de promoção, não das virtudes, mas dos defeitos; de incentivo à degeneração, em vez do progresso moral. O fervor igualitário moderno não se limita a rejeitar uma forma de progresso moral em detrimento de outra. Na realidade está a rejeitar a ideia de progresso moral em si, como algo a que se deve aspirar.

Ao criticar a “selecção natural” do mercado, o que se reflecte na prática numa defesa das políticas do Estado Providência, o que se defende na realidade é a continuação das piores características dos seres humanos, precisamente aquelas que qualquer sociedade civilizada deve desencorajar.

O papel do secularismo neste processo de descivilização não deve ser menosprezado. Afinal, não exagero ao dizer que o objectivo principal de qualquer religião é o progresso moral dos seres humanos, sejam quais forem os meios adoptados por qualquer uma das religiões particulares. O mundo secular e igualitário em que vivemos, e a sua representação por excelência na promoção dos “direitos sociais”, fundamentalmente rejeita a necessidade progresso moral – e a permissividade total perante as mais variadas formas de vida “alternativas” atesta a veracidade do truísmo.

O anti-darwinismo social chegou a um ponto em que qualquer forma de degeneração é não só aceitável, desculpável e, se possível, a ser subsidiada – ou seja, encorajada: mas sobretudo a degeneração não é da responsabilidade do degenerado. Pelo contrário, o degenerado é a vítima de um sistema que não lhe forneceu oportunidades de não o ser, tornando a degeneração o seu destino natural. Precisamente o contrário é verdade: a degeneração (moral e física) visível nas sociedades modernas é o produto de demasiadas oportunidades oferecidas a custo zero e sem quaisquer contrapartidas; é o produto da vitimização dos criminosos (os “excluídos”) e da criminalização das vítimas (aqueles que, sendo honestos e trabalhadores – ou seja, estando inseridos produtivamente na sociedade - “excluem” os degenerados - na realidade, os que pagam a sua degeneração) .

Mas mais importante: esta não é uma visão minoritária, pelo contrário. Ela é o consenso democrático da maioria, mesmo entre os que pagam do seu bolso os “direitos sociais”. A grande maioria das pessoas é a favor das perversões do Estado Social e não se apercebe das suas implicações, quer práticas, quer teóricas. Toda a gente responsável e sensata é, apesar de tudo, a favor de uma restruturação ou reforma das “políticas sociais”, e considera que existe “um abuso” das mesmas. Não entende, porém, que esse abuso é o produto natural das próprias políticas e que a miséria moral que cresce a olhos vistos na sociedade é inevitável enquanto o sistema e a mentalidade que o suporta persistir.

A ideologia secular que produziu o Estado Social, produziu um sentimento hoje inamovível de direito nos beneficiários. Nomeadamente o direito a ser irresponsável sem sofrer as consequências dessa irresponsabilidade. Não admira, pois, que a delinquência, a toxicodependência, a criminalidade violenta, a irresponsabilidade, a corrupção, o desrespeito por qualquer forma de autoridade, o desemprego crónico e inúmeras outras formas de degeneração moral estejam há décadas a subir e, ultimamente, a chegar a níveis deveras preocupantes nas sociedades democráticas.

Finalmente, o anti-darwinismo é sobretudo explícito no facto de serem as pessoas honestas, responsáveis e trabalhadoras a financiar contra a sua vontade as extravagâncias dos irresponsáveis, funcionando como mais um incentivo perverso para que se juntem à classe das “vítimas”, ou seja, dos parasitas. Quantas pessoas que trabalhem e paguem do seu bolso casa, educação, saúde e impostos, não contemplam por vezes a situação de uns (reais ou hipotéticos) vizinhos, que não trabalhando e tendo tudo oferecido pelo Estado vivem definitivamente de forma mais desafogada e com menos preocupações?

E ao financiar-se a pobreza (porque é disso que se trata), incentiva-se a reprodução precisamente entre aqueles que não podem (e por isso não devem) ter filhos, na mesma medida em que desencoraja a natalidade nos casais que podem (e devem) ter filhos. Além disto, a mentalidade secular tentou (e continua a tentar ainda) desencorajar ou retardar também teoricamente os casais de cumprirem a benção de ter filhos. Em primeiro lugar ao banalizar a homossexualidade e os estilos de vida promiscuos e em segundo lugar elevando outros objectivos (a carreira, o prazer pessoal) acima de um absoluto bem e de uma absoluta necessidade para a perpetuação e evolução da espécie: que é a reprodução. O resultado é uma maior reprodução entre as classes mais baixas (com menos dinheiro, menos educação e piores atitudes morais), e uma menor reprodução entre as classes produtivas (com mais meios, mais educação e melhores atitudes morais).

De resto, mesmo entre a juventude das classes médias e altas vemos um nível de iliteracia, irresponsabilidade e desinteresse que assusta qualquer pessoa. Os incentivos a uma vida regrada e responsável foram completamente denegridos, em detrimento da “procura do prazer” e da “realização artística” - e outras formas torpes de hedonismo. Por outras palavras, o progresso moral tornou-se um objectivo ausente das cabeças de pais e filhos, professores e alunos, e por aí adiante. E neste capítulo, não podemos também desprezar o contributo do sistema educativo que, quer por meios públicos ou privados, é absolutamente centralizado e contribui, entre outras coisas, para deseducar as crianças e mantê-las durante vários anos fora do mercado de trabalho.

As consequências num futuro próximo deste anti-darwinismo social serão ainda mais desastrosas do que já são. Vivendo sob o governo da maioria, e sendo que a maioria, cada vez maior, é o produto deste sistema que promove a degeneração moral, teremos (como temos tido) governos cada vez mais populistas, que sobrecarregam cada vez mais os cidadãos produtivos e perpetuem o sistema e o processo de degeneração moral. As reformas e os paleativos com que os governos recentes tentam remediar a situação não farão mais do que enfurecer as “vítimas”, os “indignados”, que esperam sempre e ainda uma esmola. Só a mudança absoluta de sistema e dos incentivos que o acompanham pode efectuar alguma mudança para melhor.

Precisamos desesperadamente de darwinismo social. E só uma sociedade livre promove o progresso moral.

Adenda:

O leitor Luís F. Afonso deixou um comentário pertinente que vale a pena acrescentar:

«1. A essência de um certo "Social Darwinism" e a própria expressão em si atribuídas a um H. Spencer, representam, hoje, uma assunção sobremaneira contestada por historiadores do pensamento económico e político.
De facto, Spencer, enquanto membro proeminente do chamado "X Club", fundado por Thomas Huxley em 1864, terá partilhado e aguçado muitas das ideias saídas dessa extraordinária tertúlia vitoriana que além dos próprios Huxley e Spencer, chegou a contar com génios de um século como Thomas Archer Smith, John Lubbock, John Tyndall e o próprio Charles Darwin, de quem Huxley terá sido o mais aguerrido defensor na praça pública.


Porém, é a um homem não directamente ligado a este círculo de excelência, ainda que próximo do mesmo, que as origens de um certo ""Social Darwinism", essencialmente político/axiológico, devem ser traçadas, e esse homem é Sir Francis Galton, primo afastado de Darwin e académico de múltiplos talentos.
O equívoco da atribuição da sua essencialidade a Spencer, é hoje ponto assente que se deve a uma certa literatura política dominante nos E.U.A. ao longo da 1ª metade do Século XX, que de publicação em publicação lá foi firmando o mito na consciência comum de que Herbert Spencer era o "Pai do Social Darwianismo" ("S.D.").


2.Em qualquer recurso, a obra muitas vezes considerada como sendo o 'expoente máximo' do "S.D.", é, na verdade, um obscuro panfleto 'agitprop' surgido em Chicago por volta de 1890, simplesmente intitulado "Might Is Right" (um título deveras sugestivo...), e cuja identidade do respectivo autor (que assinava sob o pseudónimo de 'Ragnar Redbeard') ainda hoje é objecto de aceso debate entre académicos e curiosos destas coisas — acerca do mesmo já foram vertidas as mais rebuscadas teorias, identificando no misterioso 'R.R.' figuras tão diversas como um obscuro socialista Neo-Zelandês, Arthur Desmond de seu nome, o escritor Jack London, ou o próprio Presidente Norte-Americano Theodore Roosevelt.


Porém o que há a reter, antes de mais, desta estranha obra é o facto de a mesma, mais que nihilista ou amoralista, se revelar verdadeiramente 'anti-moral', e pesadamente racista, misogena, belicista, etc., algo que não deverá ser de estranhar considerando o contexto histórico e o lugar onde surgiu. Porém o livro em si, e com ele a expressão "Social Darwinism" é hoje apanágio de todo o tipo de tarados, entre neo-nazis e eco-terroristas, que de escuras vielas do oblívio comum saem de quando em vez para a luz do dia.


Naturalmente, ninguém de bom senso aqui toma a invocação de um certo "Social Darwinismo" por parte do RBR, como aludindo aos entendimentos retorcidos que essas outras pessoas alegadamente propagandeiam desta expressão e seu conteúdo.


Em todo caso, como dizia a famosa caixa de palitos "Cuidado com as imitações"

4 comentários:

NanBanJin disse...

Caro Rui B. Rodrigues:

Interessantíssimo artigo, como aliás vem sendo apanágio deste espaço.

A precisar, ainda assim, de um ou dois reparos, se me permite:
1. A essência de um certo "Social Darwinism" e a própria expressão em si atribuídas a um H. Spencer, representam, hoje, uma assunção sobremaneira contestada por historiadores do pensamento económico e político.
De facto, Spencer, enquanto membro proeminente do chamado "X Club", fundado por Thomas Huxley em 1864, terá partilhado e aguçado muitas das ideias saídas dessa extraordinária tertúlia vitoriana que além dos próprios Huxley e Spencer, chegou a contar com génios de um século como Thomas Archer Smith, John Lubbock, John Tyndall e o próprio Charles Darwin, de quem Huxley terá sido o mais aguerrido defensor na praça pública.

Porém, é a um homem não directamente ligado a este círculo de excelência, ainda que próximo do mesmo, que as origens de um certo ""Social Darwinism", essencialmente político/axiológico, devem ser traçadas, e esse homem é Sir Francis Galton, primo afastado de Darwin e académico de múltiplos talentos.
O equívoco da atribuição da sua essencialidade a Spencer, é hoje ponto assente que se deve a uma certa literatura política dominante nos E.U.A. ao longo da 1ª metade do Século XX, que de publicação em publicação lá foi firmando o mito na consciência comum de que Herbert Spencer era o "Pai do Social Darwianismo" ("S.D.").

2.Em qualquer recurso, a obra muitas vezes considerada como sendo o 'expoente máximo' do "S.D.", é, na verdade, um obscuro panfleto 'agitprop' surgido em Chicago por volta de 1890, simplesmente intitulado "Might Is Right" (um título deveras sugestivo...), e cuja identidade do respectivo autor (que assinava sob o pseudónimo de 'Ragnar Redbeard') ainda hoje é objecto de aceso debate entre académicos e curiosos destas coisas — acerca do mesmo já foram vertidas as mais rebuscadas teorias, identificando no misterioso 'R.R.' figuras tão diversas como um obscuro socialista Neo-Zelandês, Arthur Desmond de seu nome, o escritor Jack London, ou o próprio Presidente Norte-Americano Theodore Roosevelt.

Porém o que há a reter, antes de mais, desta estranha obra é o facto de a mesma, mais que nihilista ou amoralista, se revelar verdadeiramente 'anti-moral', e pesadamente racista, misogena, belicista, etc., algo que não deverá ser de estranhar considerando o contexto histórico e o lugar onde surgiu. Porém o livro em si, e com ele a expressão "Social Darwinism" é hoje apanágio de todo o tipo de tarados, entre neo-nazis e eco-terroristas, que de escuras vielas do oblívio comum saem de quando em vez para a luz do dia.

Naturalmente, ninguém de bom senso aqui toma a invocação de um certo "Social Darwinismo" por parte do RBR, como aludindo aos entendimentos retorcidos que essas outras pessoas alegadamente propagandeiam desta expressão e seu conteúdo.

Em todo caso, como dizia a famosa caixa de palitos "Cuidado com as imitações".

Calorosos cumprimentos de longe,

Luís F. Afonso, a acompanha-lo desde o Japão.

Rui Botelho Rodrigues disse...

Caro Luís,

obrigado pelos elogios e pela informação. sempre pensei que o darwinismo social tivesse sido atribuído primeiro ao "survival of the fittest" do Spencer e que o conceito tinha sido original (na medida, duvidosa, em que é possível atribuir originalidade absoluta nestas coisas).

espero que o meu texto não tenha dado a impressão de que defendo essa segunda vaga de darwinismo social racista e amoral - que abomino.

De qualquer das formas, vou acrescentar uma adenda com parte do seu comentário.

um abraço,

RBR.

NanBanJin disse...

Tranquilo Rui, não ficaram quaisquer equívocos no ar ou no ecrã, e estamos de acordo em tudo. ☺

E é sempre um imenso prazer aqui passar, ler, partilhar e aprender. Excelente blogue.

Grande Abraço de Longe,

LFA, Fukuoka, Japão

Carlos disse...

O problema desta ideologia é que na prática, o darwinismo social e seu aparentado, o liberalismo ditam a lei do mais forte e não do mais ético. E a própria história nos demonstra que esperar que não haja ganância, desonestidade e injustiça em quaisquer sistema é utopia. Não vejo este como pior do que as utopias socialistas, mas qualquer sistema sem mecanismos de controle e correção das injustiças que fatalmente ocorrerão é perigoso e benefecia poucos em detrimento de muitos. Colocar (na prática e não no discurso) que um faxineiro, pedreiro e o "chão de fábrica" é inapto e por isso merece viver sem direito a saúde, educação e outros direitos básicos é muito mesquinho, insustentável e daninho para todos a longo prazo.