sábado, outubro 15, 2011

Notas sobre medidas de austeridade, a dívida e o PCP

Em primeiro lugar, todos os cortes no rendimento dos parasitas que dão pelo nome, nestes tempos de eufemismo grotesco, de "funcionários públicos" são bem vindos. Há, porém, um problema com as medidas particulares apresentadas pela máfia, perdão, pelo governo: é que cortar nos salários e pensões da função pública não é o caminho, a menos que seja um corte de 100%. Estes são empregos que não deviam existir, salários que não deveriam ser pagos. Cortar o subsídio de Natal e de Férias é completamente irrelevante para o problema principal, que é a existência de funcionários públicos em primeiro lugar. Dado que seria impossível acabar com todos de uma vez, poder-se-ia começar por despedir uns quantos. E depois muitos. Mas este é o liberalismo possível para um candidato de um partido social-democrata eleito por sufrágio universal. Esperar algo mais, ou algo melhor, era pura inocência ou parvoíce. Mas a sabujice da direita reaparece assim que o PSD ganha eleições e forma governo de coligação com o CDS, seja qual for o boneco que faz os discursos e os idiotas que os idealizaram - possivelmente porque muitos deles estão entre os ideólogos, e foram, claro, pagos por isso. Sacrifícios, sim; mas ninguém escreve estas baboseiras de borla, isso não. 

Em conclusão, na redução da despesa, o messias liberal é uma fraude. Vai conseguir irritar muita gente, sem conseguir resolver coisa alguma. E, um pouco mais deprimente, nem sequer ensaia alguma desregulação essencial para que a economia arranque minimamente, deixando a paralisia e os entraves todos à criação de riqueza (e possivelmente acrescentando alguns com retórica "liberal") - o que revela, a par com o seu aberrante corporativismo, uma ignorância e estupidez gritantes. Afinal, quem é que quer ser timoneiro de um barco afundado? Aparentemente, Passos Coelho.

Do lado do aumento da receita, a coisa não melhora. Sobretudo pelo facto chocante de que se pretende aumentar a receita. É, digamos, uma receita para a desgraça. Se já não se criam empresas ou contratam trabalhadores, então a coisa vai piorar na exacta medida dos aumentos de impostos – a inércia caquética da nossa economia vai tornar-se um coma prolongado. Mais uma vez, a brilhante (no sentido de se ver no escuro) ignorância daqueles que nos pastoreiam se revela aos nossos olhos incrédulos. Em nome da “responsabilidade fiscal” e do “equilíbrio orçamental” aproveita-se e rouba-se mais um bocadinho. Mas para quê?

A única resposta possível é que sirva para pagar a nossa enorme dívida. Aqui reside o problema maior: o facto de se achar que a dívida pública deve ser paga. Não deve. E por tantas razões: em primeiro lugar, ela não deveria ter sido contraída. Esse mal, porém, já está feito. O que não é justo ou útil, é roubar os portugueses para pagar a coisa. Os portugueses não contrairam essa dívida, o Estado sim. Mas como o Estado só tem dinheiro roubado aos portugueses, então deduz-se que os credores do Estado esperavam lucrar com o roubo futuro dos portugueses. Não é um pensamento bonito. Porque não deixá-los a arder no fogo da sua ganância usurpadora?

Não pagar a dívida, de resto, tem uma vantagem utilitária importantíssima, que é a de assegurar que ninguém emprestaria dinheiro ao Estado português nos próximos anos (tempo que deve chegar para pôr as coisas em ordem e os trastes na cadeia). Ou seja: não haveria Estado Social, jobs for the boys, a palhaçada social-democrata dos últimos 37 anos. A verdadeira dimensão do país, a necessidade de investimento privado e de liberalização económica, o imperativo da não-intervenção do Estado tornar-se-ia claro como a água perante a pobreza generalizada. E depois seria reconstruir.

Infelizmente, não pagar a dívida e declarar bancarrota parece ser uma opção que nenhum dos partidos está disposto a ponderar. O PCP, pelo menos, é contra o aumento dos impostos. Claro que, quando um partido comunista é o mais liberal no parlamento, a coisa está pela hora da morte. Parece que a hora é mesmo essa, de resto.

Sem comentários: