terça-feira, outubro 25, 2011

Por trás de cada Guevara, há uma criança e um democrata.

No meu post anterior mencionei um truísmo sobre o qual ainda não tinha reflectido devidamente: o de que os “indignados”, e junto a eles a grande maioria da juventude do Avante e das manifestações – ou seja, o futuro da extrema-esquerda – não é ideologicamente motivada ou fundamentada.

À superfície esta proposição não é verdadeira: se analisarmos a indumentária e os heróis dos jovens, por exemplo, que andam pelas universidades e manifestações observamos concerteza centenas de símbolos comunistas, os rostos de Marx, Engels, Guevara e Lenine – e com menos frequência, também Estaline ou Mao. Mas é absurdo exagerar a significância destes símbolos e rostos. A grande maioria, arrisco, não leu Marx, Engels ou Lenine; desconhece certamente os detalhes da admnistração soviética ou as minúcias do processo de sedimentação do regime cubano. E se questionados directamente sobre as mais diversas questões, sabemos que não estão minimamente interessados na colectivização dos meios de produção, na inevitabilidade histórica do socialismo (entendido como Marx o entendia), no comunismo internacional de Lenine ou no comunismo restrito a um país apenas de Estaline.

Muito sucintamente, o que pretendem não é muito removido do programa do PSD ou do CDS, tirando alguns pontos que, por teimosia ou tradicionalismo blasé e da moda, aquilo que em Portugal e nos outros sítios representa a diferença entre direita e esquerda: o aborto, as drogas, a prostituição - ou seja, questões fundamentalmente de conduta pessoal (excepto, com algumas qualificações, o aborto). Mas no essencial, os “indignados” pertencem ao grande grupo da social-democracia e não se distinguem pela originalidade.

O poder democrático deve, portanto, servir – como servia os “socialistas moderados” daquilo que podemos chamar a “era ideológica” - para a redistribuição da riqueza – dos patrões para os empregados, bem entendido. A filosofia subjacente é uma de igualitarismo pré-marxista, no sentido em que a igualdade de redimentos, e não a organização produtiva da sociedade, é o principal problema em mente. Na medida em que, para que haja redistribuição dos patrões para os empregados é necessário que exista essa distinção, então a sociedade que os indignados procuram é uma em que a distinção permaneça, com suavizações, regulações e protecções politicamente forçadas, mas ainda assim, uma sociedade em que pelo menos parte da propriedade produtiva deve permanecer em mãos privadas. Na verdade, pelas exigências ouvidas entre os indignados e pela observação possível da sua conduta e estilo de vida, podemos auferir que, embora no sítio onde vivem pretendam um Estado Social com uma monstruosa envergadura, um mundo capitalista tem, essencialmente, de existir noutro lugar, de preferência longe da vista e por consequência do coração solidário destas pessoas, de forma a que certos avanços tecnológicos possam ser importados para o “paraíso social-democrata” onde pretendem viver. Pois quando pedem educação e saúde gratuíta, ou pelo menos altamente subsídiada pelo Estado, sabemos com certeza que não pretendem abdicar de tecnologia, medicamentos e outras amenidades que o modo de produção capitalista, mesmo com todos os entraves presentes no mundo moderno, conseguiu produzir e produz ainda em abundância. Não podemos presumir que os indignados compreendam este paradoxo, podemos aliás presumir o contrário – que não compreendem que certos bens não são passíveis de serem produzidos num lugar onde o Estado Social redistribui sistematicamente – mas a realidade não deixa de ser esta.

Esta geração, que certamente terá muitos problemas em adaptar-se a um modo de vida distinto, é em suma o produto do Estado Social e da democracia por excelência: uma massa infantilizada e profundamente ignorante. A sua doutrina não é marxista, maoísta, nem nada tão estruturado ou intelectual: é simplesmente uma rejeição da realidade. Não devemos pois exagerar a importância dos símbolos e da retórica de extrema-esquerda, já que não é desse vírus que a populaça sofre. O problema está precisamente em que os indignados partilham a mesma visão de todos os parlamentares, da mais ínfima direita à mais infame esquerda, excepto que não por motivos intelectuais: todos acreditam profundamente na política como omnipotência – ou seja, como capaz de vergar as leis da natureza, sobretudo as leis praxeológicas ou económicas. E todos se acreditam com direito a participar no milagre da multiplicação, isto é, acreditam na superstição democrática (indissociável do Estado Social). O egoismo e a devassa da nossa era é um produto, não do avanço tecnológico (como alguns cafres conservadores irracionalmente acreditam), mas de um avanço tecnológico cujos custos não são individualizados, mas redistribuídos – socializados, se quiserem.

Mas enquanto as elites sofrerem do mesmo estigma democrático, mesmo que por razões teóricas, a populaça não abandonará o estigma democrático pelas suas razões práticas. É tão simples como isso. Marx, Lenine ou Guevara são apenas símbolos. Símbolos da ignorância de quem os usa, não por aderirem a eles, mas precisamente porque envergando-os, os rejeitam no fundamental. Não que a aderência ao marxismo-leninismo seja benéfica, mas a luta intelectual contra este espectro que já não assombra ninguém, ao procurar um alvo que já não existe, deixa o verdadeiro alvo à solta, sem resposta, a causar inúmeros estragos.

2 comentários:

Raphael Auto disse...

Texto muito bom. Representa com acuidade a realidade atual (chega a ser impressionante), destaco esse ponto:

"podemos auferir que, embora no sítio onde vivem pretendam um Estado Social com uma monstruosa envergadura, um mundo capitalista tem, essencialmente, de existir noutro lugar, de preferência longe da vista e por consequência do coração solidário destas pessoas, de forma a que certos avanços tecnológicos possam ser importados para o “paraíso social-democrata” onde pretendem viver"

Parabéns.

RBR disse...

obrigado, Raphael.