terça-feira, abril 24, 2012

Celebrar o quê?

O 25 de Abril é uma data complexa para a direita e mais ainda para a direita liberal. Uma data que assinala o fim de um regime tradicionalista, católico e colonial - isto é, de direita - e o início, para todos os efeitos, de um regime abertamente progressista, democrático e laico - isto é, de esquerda. Alguma confusão e algum exagero são, pois, praticamente impossíveis de evitar - como se pode comprovar por este texto do Ricardo Campelo de Magalhães

Começando pelo princípio, o mais importante é isto: o 25 de Abril não foi uma revolução. Foi um pronunciamento militar, com um objectivo simples e directo: terminar a guerra colonial. Pura e simplesmente, e como se tinha podido observar pelo curto periodo marcelista, o regime não estava disposto a existir sem as colónias e, portanto, acabar a guerra incluia também o fim do regime. No 25 de Abril os militares, e nem sequer todos os militares, impuseram-se ao poder e este, com uma única excepção espúria, não se mexeu no sentido de preservar a si mesmo. O povo veio para a rua quando era já seguro, as balas não utilizadas deram lugar aos cravos, e em vinte e quatro horas um regime com quase meio século havia capitulado sem um pio.

Também importante: Salazar, e menos ainda Marcelo, não eram fascistas, nem o regime fora alguma vez fascista – e muito menos totalitário. Mesmo no cume da popularidade de Mussolini, em que o regime ensaiou algumas características estéticas do fascismo italiano, a verdade é que este nunca existiu em Portugal - a não ser que se defina fascismo como uma forma geral de despotismo de direita. O que existia em Portugal era um regime clerical e levemente corporativista (mas apenas no sentido usado para designar uma parceria do Estado com certos grupos económicos, não no sentido fascista italiano – não ser pelas manobras estéticas acima mencionadas). À parte a pobreza abjecta em que o cidadão comum vivia e, finalmente, a estupidez da guerra colonial (para defender uma colonização largamente inexistente), o regime não era especialmente duro para com o cidadão apolítico, ou até com a oposição de direita (e ainda mais a partir de Marcelo). Fundamentalmente, o regime limitava-se a reprimir como podia os opositores políticos que não ameaçavam apenas o regime mas toda a ordem social: os comunistas e, depois, todos os extremismos de esquerda que o revivalismo marxista gerou e que, em Portugal, se manifestou sobretudo numa oposição à guerra colonial similar à oposição americana à guerra do Vietname.

De resto, uma vez derrubado o regime, não havia grandes planos sobre o que se devia seguir, sobretudo da parte de quem fizera o pronunciamento. O MFA tinha um plano tão vácuo como as cabeças que o tinham originado e, verdadeiramente, só o PC tinha um plano definido sobre o que desejava fazer e sobre que regime nos desejava impor. Esse plano incluía, de facto, estabelecer em Portugal uma ditadura de tipo soviético. O PCP, com a colaboração de algum povo, ocupou o Estado e os tentáculos, nacionalizou os “monopólios” e os “latifúndios” e intimidou, pela mão dos sindicatos, algumas empresas. Mas o comunismo nunca foi uma ameaça real: tirando as classes baixas de Lisboa, o sul do Tejo e o Alentejo, o resto do país era tão ou mais hostil ao PCP do que tinha sido ao Salazarismo. A efectiva instauração do comunismo teria dividido o país – algo que nem mesmo o PCP desejava – e incluía transformar o exército numa força de repressão dos portugueses, como tinha sido uma força de repressão em África, e atirar o país para uma guerra civil, algo que só Otelo e poucos outros sequer ponderavam fazer. Os ataques generalizados às sedes do PCP no Norte e as manifestações dos moderados contra a extrema-esquerda em Lisboa, mostravam o carácter surreal do plano do PCP e o seu inevitável falhanço.

Daí a dizer que, se tal tivesse por milagre sucedido, seria «tão tirânico como o antecessor» vai, porém, uma grande distância. A tirania, se assim podemos chamar ao tradicionalismo seminarista de Salazar, não teria comparação possível com um presuntivo comunismo, este sim totalitário.

Finalmente, haverá alguma razão para se comemorar o 25 de Novembro? Também não. Há, de resto, ainda menos para comemorar do que o 25 de Abril. O 25 de Abril pelo menos acabou com a guerra e, apesar de tudo, não é possível imputar-lhe grande responsabilidade na prepotência que se seguiu, a não ser que se acredite na fantasia que a esquerda prega da "festa de Abril". O 25 de Novembro foi a definitiva (e, repita-se, inevitável) derrota das ilusões do PCP, mas não desfez quase nada do que o PCP tinha feito no período infame do PREC. As nacionalizações foram transformadas em privatizações de novo, mas os “latifúndios” não foram divididos como deveriam ter sido pelos seus legítimos ocupantes; os “monopólios” industriais voltaram também a mãos privadas, excepto que se trataram de novas mãos (dos arrivistas do momento, que se apoderaram do que puderam) e continuaram inviáveis. De resto, apesar da supostamente triunfante vitória de Novembro, Portugal transitou para uma social-democracia completamente dominada pela esquerda e, mais tarde, por uma direita que não se distingue da esquerda a não ser na retórica. Em geral, o 25 de Abril e o 25 de Novembro não transformaram o país: o corporativismo tradicional do salazarismo foi substituído pelo corporativismo do PS e do PSD, vinte vezes mais entrincheirado do que o anterior.

No conjunto, não se recomenda. A esquerda transformou o 25 de Abril num mito, decididamente de mau gosto, sobretudo porque serve para comemorar o PREC. A direita criou para si esse outro mito, o do 25 de Novembro, que inaugurou o socialismo democrático e que era o inevitável – e o inevitável não é necessariamente digno de celebração, sobretudo quando foi o que foi e é o que se vê.

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