quarta-feira, maio 02, 2012

O segundo post sobre o Pingo Doce.

É absolutamente fantástica, no sentido de ser irreal, a forma como a esquerda olha para o "caso Pingo Doce". Uma coisa é certa: o epíteto de esquerda caviar nunca fez tanto sentido.

A título de exemplo, o quanto a esquerda caviar se importa com as pessoas mais pobres (que constituiram a maioria dos que acorreram aos supermercados Pingo Doce para aproveitar a promoção), pode ser visto na forma como o Sérgio, com a educação própria da tradição intelectual em que se insere, os descreve: «a horda de zombies consumistas», que «não chegarão a perceber que parte daquilo que compraram não era absolutamente necessário e por isso viverão felizes na ignorância dos estúpidos

Esta certeza sobre o que é absolutamente necessário aos outros (outros esses que, não sabendo, vivem na "ignorância dos estúpidos") é, de resto, aquilo que define a esquerda em geral, e esta estirpe mimada e arrogante em particular. Mas é triste confirmar a sua cegueira quando ela se traduz tão visivelmente na total ausência de compaixão e decência pelo próximo. No fervor ideológico esquecem-se do fundamental: que não é o desinteresse das massas pelo Dia do Trabalhador, nem são as intenções potencialmente maléficas da empresa, nem o relativo caos que a situação proporcionou. O fundamental é que uns bons milhares de pessoas terão um mês ligeiramente melhor e mais desafogado num ano extremamente difícil.

Nestes momentos percebe-se que é irrelevante dar lições de economia a pessoas assim, porque o que lhes falta é muito mais significativo e não é susceptível de ser aprendido.

PS: De notar também é a ululante imbecilidade dos bovinos que nos pastoreiam, nomeadamente a da ministra Assunção Cristas, sempre na crista da onda estatista, que agora tem «planos para evitar promoções inesperadas». Aqui vemos como a direita se junta à esquerda no desprezo pelos mais pobres.

4 comentários:

Miguel Madeira disse...

O último link é mesmo aquele?

Rui Botelho Rodrigues disse...

não, não é. é este:

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=2452309


obrigado por chamar a atenção. vai já ser rectificado o erro.

Sérgio Lavos disse...

Vá lá Rui, esse discurso miserabilista sobre quem fez compras no Pingo Doce fica bem à esquerda, não a ti. Além disso, conviria que acertasses no que eu digo e no que eu sou:

- Essa da esquerda caviar é uma expressão batida que fica mal num estilista que se preze. E é mentira, no meu caso, qualquer que seja a definição de "esquerda caviar".

- As generalizações sobre o que é a esquerda, neste caso, são completamente abusivas - a minha opinião foi praticamente única no quadrante político em que me incluo. O pior ataque veio precisamente da esquerda, se quiseres saber.

- Total de ausência de compaixão e decência pelo próximo? Não brinques comigo. Se tivesses lido como deve ser o meu post, percebias que a poupança de 50% dificilmente trará um mês melhor à maioria das pessoas. Porque provavelmente grande parte dos produtos adquiridos irão passar rapidamente de prazo; porque houve muita gente endividada que ainda se endividou mais para encher a despensa de coisas, necessárias ou não; porque quem é realmente pobre nem 100 euros tem para gastar no Pingo Doce, mesmo sendo dia 1. Compaixão e decência pelo próximo? Não brinques, é o Alexandre Soares dos Santos que tem? O Vítor Gaspar? O Passos Coelho?

- E gosto que aches que me falta alguma coisa. Quase que fico comovido.

E diga-se que tudo o que eu afirmo aqui e no post vem de experiência próxima. Eu conheço pessoas que aproveitaram a campanha, pessoas que trabalham no PD e tiveram um dos piores dias da sua vida, e sem bem o que é viver com os trocos contados. A campanha do PD, tal como foi feita, foi uma mesquinha provocação política (e quero lá saber se estragou o 1.º de Maio, já trabalhei muitos anos nesta data e por isso não acho que ela deva ser sagrada) e teve como resultado uma triste demonstração de desespero consumista por parte das pessoas que lá acorreram. Mas como eu escrevo, talvez um dia os zombies se revoltem, e aí o Soares dos Santos é capaz de não gostar muito da brincadeira.

P.S.:Já trocámos algumas vezes ideias com proveito, e por isso respondo a este post, com pena que o tenhas escrito, pelo respeito que tinha pelo que escreves, mesmo que nunca (ou quase nunca) concordando.

Rui Botelho Rodrigues disse...

Caro Sérgio,

miserabilista ou não, foi o pensamento (e assumo, sentimento - acho que foi dos meus textos mais sentimentais e femininos) que me assaltou ao lê-lo: ou seja, a ausência de compaixão e compreensão por pessoas que, se tivessem alternativa, não iam certamente passar o feríado para um Pingo Doce apinhado.

pessoas de esquerda que têm esta atitude, e ao contrário do que diz, as dos outros não me parecem diferentes em quase nada, a não ser na retórica (a sua, pelo menos, foi honesta), merecem bem o nome caviar. um professor da minha namorada, por exemplo, combina a sua condição de militante do bloco de esquerda com o título de conde (e amenidades associadas, claro).

a generalização parece-me totalmente acertada. afinal, se respeitassem as decisões dos outros sobre o que é melhor para eles, não clamavam por um sistema de controlo governamental, e sim por um em que as pessoas tenham liberdade para, de facto, escolher.

sobre o eventual ganho ou perda dos consumidores: "provavelmente" isto "provavelmente" aquilo. a verdade é que lá foram, de livre vontade. mas lá está, devem as pessoas ser livres de escolher ir onde querem ir e comprar onde querem comprar? o Sérgio acha que não, eu acho que sim. o facto de lá terem ido de livre vontade, demonstra que, do seu ponto de vista, acharam que iam beneficiar. Mais do que isso não é possível dizer cientificamente. mas, lá está, talvez vivam na ignorância dos estúpidos. se isto não é arrogância, não sei o que será.

não sei se sabe mas eu sou anarquista, como tal o Vitor e o Pedro não me merecem mais respeito que uma formiga (menos, bem menos, na verdade). o Soares dos Santos merece-me o respeito que qualquer pessoa não envolvida directamente com o Estado merece. não acho, porém, que tenha feito a promoção pela generosidade do seu coração: acho que a fez com um ganho em mente. seja qual for, acho bem e louvo. não fez nada de mal (de ilegal, talvez, mas só porque há leis que não deveriam existir).

cada vez acho mais que, para ser de esquerda (e de direita, ou pelo menos dos partidos de direita), falta qualquer coisa: ou conhecimento ou, lá está, decência e humildade. possívelmente todas juntas, também. se é capaz de ficar comovido, talvez ainda se possa salvar.

quanto à experiência próxima: conheço também todos os casos, e ficaram todos satisfeitos. é o mal de avaliar as coisas assim.

quanto à provocação política, se foi, acho bem. já está na hora de desafiar o mito de que os sindicatos contribuiram alguma coisa para a melhoria das condições dos trabalhadores.

quanto ao "triste demonstração de desespero consumista", eu chamo a isso querer ter um mês mais desafogado. mas enfim.

quanto à eventual revolta, revolta-me o estômago esses desejos de caos, destruição, pilhagem e "luta de classes". não sou partidário da violência, venha ela de onde venha, nem acho que possa vir da violência qualquer bem ao mundo. claramente, não sou de esquerda (nem de direita, diga-se).

Sérgio, não me dê tangas. Podia ter respeito por mim(abstracto, porque também não me conhece), pela pessoa real que escreve as coisas; discordando, e sobretudo, discordando tão estruturalmente do que eu escrevo, não poderia ter respeito pelos textos, ou pelas ideias. o mesmo se aplica de mim para si e para o que escreve.

(mais sobre estes e outros temas relacionados num futuro post)