quinta-feira, maio 17, 2012

A Telenovela do Cinema Português.

O João Pereira Coutinho é um moderado com sentido de humor e cinismo qb - o que para a sociedade respeitosa e hipócrita em que vivemos o torna um perigoso polémico. Como escreveu umas banalidades sobre a indigência dos cineastas portugueses, e nem sequer umas banalidades especialmente provocatórias, caiu-lhe a Esquerda em cima, com o dedo em riste e a perene acusação de crime de neoliberalismo.

O João Pereira Coutinho não falou, porém, na idiotia e falta de vergonha dos cinéfilos blasé que por muito que escondam as suas "boas intenções" culturais sabem que estão a exigir dinheiro roubado aos contribuintes para ver filmes que mais ninguém quer ver - se quisessem, não era preciso roubá-los. Também não falou na, conhecida mas pouco explorada, obsessão da Esquerda com tudo o que passa por "cultura", que se observa em primeiro lugar sobre o cinema e que é resumida numa frase de Woody Allen «if a guy comes out onstage at Carnegie Hall and throws up, you can always find some people who will call it art.».

É aliás, inútil, tentar chamá-los à razão e falar-lhes no mundo real (mesmo da forma simplificada como o JPC tentou fazer): estamos na presença de artistas que não podem ter preocupações mundanas como financiamento e rentabilidade. Eles não são deste mundo; existem num lugar à parte, algures no Bairro Alto ou no Chapitô, onde se respira e se discute a Arte (com A grande) e onde - em nome da Arte - se congeminam petições (a que chamam ultimatos - e não se sabe o que farão, ou deixarão de fazer, se não lhes fizerem as vontades) que lhes permitam viver neste limbo artístico. Nisto, parecem verdadeiras personagens de uma telenovela (formato que detestam, porque agrada ao povinho e, como tal, dá dinheiro): unidimensionais e repetitivos. E eminentemente ridículos.

Só um cineasta português (naturalmente, de esquerda) poderia sequer conceber uma frase - e patrocinar uma mundividência - como esta: «é precisamente o oposto da caridade aquilo que se pretende: um país onde exista o sentido de dever, por parte do Estado, de estabelecer condições para que os seus artistas criem em Liberdade.» Esta redefinição de liberdade criativa (na verdade, uma declaração de dependência absoluta) por parte dos artistas do cinema é a confirmação do que o JPC escreveu.

Seja como for, ter um mentecapto como o João Salaviza a criticá-lo num site do Bloco de Esquerda só pode ser um bom sinal para o João Pereira Coutinho.

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