terça-feira, setembro 18, 2012

Uma análise custo-benefício das análises custo-benefício das tropelias de um governo que não é, nem nunca foi, liberal.

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Desde que este governo tomou posse  algo de sinistro se apoderou dos liberais e tudo passou, de repente, a uma análise custo-benefício dos nadas que o governo tem encenado. Nestas tísicas e cínicas contas há algo que convida a mais do mesmo, em vez de apontar para uma solução duradoura que só pode ser encontrada numa mudança de paradigma.

As criaturas que se têm ocupado a discutir percentagens perderam o fio à meada. Para rejeitar os clamores de "justiça social" da rua dominada por sentimentos de esquerda, esquecem-se que é mesmo disso que se trata: de justiça. E que nenhuma pode ser encontrada nesta dança de pontos percentuais.

Além de descartarem o potencial incendiário dos sentimentos de injustiça - que presentemente são todos aproveitados pelos vendedores de banha da cobra socialista, com efeitos devastadores, como se pode ver; perdem também de vista o objectivo central de libertar a sociedade civil do monstro estatal.

As discussões sobre os efeitos destes arranjos cosméticos são um exercício fútil e revelam uma certa amoralidade que mortifica quem pela primeira vez tem contacto com o ponto de vista liberal.

domingo, setembro 16, 2012

Manifs, alternativas, ponto da situação, etc.

1 comentário:
Descobri tarde o slogan da Manif deste Sábado, e devo dizer que excede a estupidez habitual. "Que se lixe a Troika, Queremos as nossas Vidas" não é apenas vácuo e absurdo, é toda uma nova forma de não dizer nada e uma muito estranha forma de não utilizar os profissionais de marketing que por certo são simpatizantes do Bloco de Esquerda e estão dispostos a trabalhar dia e noite para inventar vacuidades do género, que não dizendo muito mais, poderiam soar melhor. Mas adiante.

Qual o propósito da manifestação? À partida, e dada a táctica referida de «tomar as ruas e as praças das cidades», seria uma versão civil de um pronunciamento militar - com o mesmo objectivo: fazer cair o governo do dia. O propósito não é expresso abertamente, claro. Mas se há um, é este - e há que apreciar a boa intenção. 

O problema da manifestação é que esse não é o seu único propósito. Os manifestantes não querem apenas fazer cair o governo. Querem substituí-lo por outro. Aí reside toda a sua tragédia. Passos Coelho não é um Sith Lord, nem Vitor Gaspar (apesar da sua voz monocórdica) é o Darth Vader. Eles não nos querem mal, e querem apenas ligeiramente melhorar as suas próprias vidas e dos amigos à custa de quem trabalha. Realmente preocupante é serem executantes "responsáveis" e "moderados" da vil arte de governar. É serem produtos dos partidos e das universidades. E acharem que é possível encontrar um equilíbrio duradouro no saque contínuo de quem produz alguma coisa e na distribuição da pilhagem por quem não produz coisa alguma. Não se trata só de ajudar os amigos e viver à conta dos outros. Eles, infelizmente, não são apenas vigaristas. Acreditam mesmo no sistema, no roubo como forma de vida, na redistribuição como justiça. É a filosofia da distribuição do mal pelas aldeias. E o principal problema é que o povo acredita exactamente no mesmo. Daí decorre que qualquer governo eleito que venha substituir o presente, não fará (como nenhum nunca fez) nada de diferente.
 
Partindo do princípio dúbio de que existe algures em Portugal pessoas que, simultaneamente, queiram pastorear a carneirada pátria, conheçam a raíz dos problemas nacionais e estejam dispostos fazer (ou mais precisamente, a desfazer) o necessário para os resolver, quem votaria nelas? Que triste alma se prestaria a dizer a verdade à populaça? E quem, da populaça, se prestaria a votar numa criatura assim? E se por um acaso feliz e improvável as tais pessoas estivessem em posição de desmantelar o monstro estatal, quanto tempo durariam até que novas manifestações estivessem na rua com novos slogans risíveis?

A tragédia portuguesa (ou mais precisamente, a tragédia democrática) reside na impossibilidade de eleger alguém que diga a verdade sobre o país. Que repudie a dívida e baixe os impostos, mas simultaneamente despeça milhares de funcionários públicos, acabe com benefícios sociais, parcerias público-privadas, fundações, empresas públicas, etc. Seria assassinado no segundo dia de mandato.

É o chamado pau de dois bicos ou a pescadinha de rabo na boca. A populaça quer um Estado paternal. Tal Estado só é possível recorrendo à dívida externa (porque um tal Estado não permite que o país produza o necessário para satisfazer as aspirações materiais do povo). A dívida, para poder ser continuada (como tem de ser num tal cenário), lá vai tendo de ser paga. E para ser paga é necessário mais impostos, sobre mais coisas e mais gente.

Sucede, pois, que a situação é insolúvel. Outro governo não fará certamente nada de aberrantemente diferente, simplesmente porque não pode. Pode fazê-lo sem ser tão asquerosamente pedante como Passos Coelho, o que talvez cause menos hostilidade e lhe dê mais algum tempo. Mas não será uma solução. Não será sequer um paliativo. Será, exactamente, nada. 

O povo quer o que quer. E o que o povo quer é irrealizável. O que virá a seguir não será bonito. Será inevitável.

sexta-feira, setembro 14, 2012

As boas notícias possíveis.

1 comentário:
O governo vai prodigiosamente continuando o legado dos seus predecessores democráticos, asfixiando a economia para o benefício dos amigos e conhecidos? A populaça agita-se um tanto ou quanto desmioladamente (para variar)? A oposição grasna sem alternativas (ou com alternativas piores)? O tempo é de crise, senão de luto? 

Certo, certo. Mas nem tudo está perdido. Nestes tempos negros as boas notícias tendem a passar despercebidas. Não deixemos, pois, que passem.

Um estudo feito pela Faculdade de Economia do Porto, por exemplo, dá conta que a economia paralela no ano de 2011 passou dos 25%. Paremos um momento para pensar no que isto significa: um quinto da riqueza produzida no país em 2011 escapou, incólume, à voracidade estatal. A razão? Simples: com os aumentos verificados na carga fiscal o incentivo à fuga torna-se mais atraente. Mais: há boas razões para suspeitar que, caso não fossem feitas fora da lei, grande parte destas transacções não se teria dado em primeiro lugar. E não falo de bens ou serviços cuja venda e compra o Estado proíbe (maioritariamente, droga e prostituição). 

Falo de transacções de bens ou serviços que o Estado, permitindo, desencoraja com a sua desmedida gula pelo dinheiro alheio; transacções que não chegam a acontecer porque para trabalhar para os outros mais vale estar quieto. A fuga aos impostos permite, precisamente, que alguns portugueses não estejam tão quietos como a taxa de desemprego faria crer; permite acrescentar uns cobres no final do mês para que a miséria do costume não seja tão miserável como costuma ser.

E se em 2011 a economia paralela ultrapassou os 25% - com uma carga fiscal menor - o que esperar para este ano senão o aumento da fuga aos impostos?

Mais do que as manifestações populares sem qualquer fio idelógico condutor e sem alternativas dignas de nome, a fuga aos impostos constitui uma verdadeira forma de protesto e uma efectiva reinvindicação de direitos (o direito a manter o próprio dinheiro, em vez do direito ao dinheiro dos outros - motivação maioritária entre os manifestantes). E ao contrário das manifestações, que não diferem na prática de um festival de verão sem concertos, esta forma de protesto envolve um risco muito real e traz, naturalmente, um benefício muito directo e imediato.

Dada a situação precária do país, a ganância do governo e a estupidez dos deputados podemos esperar um aumento ainda maior da fuga aos impostos em 2012 e 2013. É certo que se trata de uma via impossível para muita gente. Mas com o tempo (e com a destruição promovida pelo país político), o país real vai-se libertando aos poucos das garras, e que remédio tem senão libertar-se. Há-de chegar a altura em que os benefícios de viver fora da lei, à revelia do Estado, serão maiores que os custos. E esse momento parece estar cada vez mais perto.

São as boas notícias possíveis.