sexta-feira, setembro 14, 2012

As boas notícias possíveis.

O governo vai prodigiosamente continuando o legado dos seus predecessores democráticos, asfixiando a economia para o benefício dos amigos e conhecidos? A populaça agita-se um tanto ou quanto desmioladamente (para variar)? A oposição grasna sem alternativas (ou com alternativas piores)? O tempo é de crise, senão de luto? 

Certo, certo. Mas nem tudo está perdido. Nestes tempos negros as boas notícias tendem a passar despercebidas. Não deixemos, pois, que passem.

Um estudo feito pela Faculdade de Economia do Porto, por exemplo, dá conta que a economia paralela no ano de 2011 passou dos 25%. Paremos um momento para pensar no que isto significa: um quinto da riqueza produzida no país em 2011 escapou, incólume, à voracidade estatal. A razão? Simples: com os aumentos verificados na carga fiscal o incentivo à fuga torna-se mais atraente. Mais: há boas razões para suspeitar que, caso não fossem feitas fora da lei, grande parte destas transacções não se teria dado em primeiro lugar. E não falo de bens ou serviços cuja venda e compra o Estado proíbe (maioritariamente, droga e prostituição). 

Falo de transacções de bens ou serviços que o Estado, permitindo, desencoraja com a sua desmedida gula pelo dinheiro alheio; transacções que não chegam a acontecer porque para trabalhar para os outros mais vale estar quieto. A fuga aos impostos permite, precisamente, que alguns portugueses não estejam tão quietos como a taxa de desemprego faria crer; permite acrescentar uns cobres no final do mês para que a miséria do costume não seja tão miserável como costuma ser.

E se em 2011 a economia paralela ultrapassou os 25% - com uma carga fiscal menor - o que esperar para este ano senão o aumento da fuga aos impostos?

Mais do que as manifestações populares sem qualquer fio idelógico condutor e sem alternativas dignas de nome, a fuga aos impostos constitui uma verdadeira forma de protesto e uma efectiva reinvindicação de direitos (o direito a manter o próprio dinheiro, em vez do direito ao dinheiro dos outros - motivação maioritária entre os manifestantes). E ao contrário das manifestações, que não diferem na prática de um festival de verão sem concertos, esta forma de protesto envolve um risco muito real e traz, naturalmente, um benefício muito directo e imediato.

Dada a situação precária do país, a ganância do governo e a estupidez dos deputados podemos esperar um aumento ainda maior da fuga aos impostos em 2012 e 2013. É certo que se trata de uma via impossível para muita gente. Mas com o tempo (e com a destruição promovida pelo país político), o país real vai-se libertando aos poucos das garras, e que remédio tem senão libertar-se. Há-de chegar a altura em que os benefícios de viver fora da lei, à revelia do Estado, serão maiores que os custos. E esse momento parece estar cada vez mais perto.

São as boas notícias possíveis.

1 comentário:

Eduardo F. disse...

Evidentemente. Mais um excelente post.