domingo, setembro 16, 2012

Manifs, alternativas, ponto da situação, etc.

Descobri tarde o slogan da Manif deste Sábado, e devo dizer que excede a estupidez habitual. "Que se lixe a Troika, Queremos as nossas Vidas" não é apenas vácuo e absurdo, é toda uma nova forma de não dizer nada e uma muito estranha forma de não utilizar os profissionais de marketing que por certo são simpatizantes do Bloco de Esquerda e estão dispostos a trabalhar dia e noite para inventar vacuidades do género, que não dizendo muito mais, poderiam soar melhor. Mas adiante.

Qual o propósito da manifestação? À partida, e dada a táctica referida de «tomar as ruas e as praças das cidades», seria uma versão civil de um pronunciamento militar - com o mesmo objectivo: fazer cair o governo do dia. O propósito não é expresso abertamente, claro. Mas se há um, é este - e há que apreciar a boa intenção. 

O problema da manifestação é que esse não é o seu único propósito. Os manifestantes não querem apenas fazer cair o governo. Querem substituí-lo por outro. Aí reside toda a sua tragédia. Passos Coelho não é um Sith Lord, nem Vitor Gaspar (apesar da sua voz monocórdica) é o Darth Vader. Eles não nos querem mal, e querem apenas ligeiramente melhorar as suas próprias vidas e dos amigos à custa de quem trabalha. Realmente preocupante é serem executantes "responsáveis" e "moderados" da vil arte de governar. É serem produtos dos partidos e das universidades. E acharem que é possível encontrar um equilíbrio duradouro no saque contínuo de quem produz alguma coisa e na distribuição da pilhagem por quem não produz coisa alguma. Não se trata só de ajudar os amigos e viver à conta dos outros. Eles, infelizmente, não são apenas vigaristas. Acreditam mesmo no sistema, no roubo como forma de vida, na redistribuição como justiça. É a filosofia da distribuição do mal pelas aldeias. E o principal problema é que o povo acredita exactamente no mesmo. Daí decorre que qualquer governo eleito que venha substituir o presente, não fará (como nenhum nunca fez) nada de diferente.
 
Partindo do princípio dúbio de que existe algures em Portugal pessoas que, simultaneamente, queiram pastorear a carneirada pátria, conheçam a raíz dos problemas nacionais e estejam dispostos fazer (ou mais precisamente, a desfazer) o necessário para os resolver, quem votaria nelas? Que triste alma se prestaria a dizer a verdade à populaça? E quem, da populaça, se prestaria a votar numa criatura assim? E se por um acaso feliz e improvável as tais pessoas estivessem em posição de desmantelar o monstro estatal, quanto tempo durariam até que novas manifestações estivessem na rua com novos slogans risíveis?

A tragédia portuguesa (ou mais precisamente, a tragédia democrática) reside na impossibilidade de eleger alguém que diga a verdade sobre o país. Que repudie a dívida e baixe os impostos, mas simultaneamente despeça milhares de funcionários públicos, acabe com benefícios sociais, parcerias público-privadas, fundações, empresas públicas, etc. Seria assassinado no segundo dia de mandato.

É o chamado pau de dois bicos ou a pescadinha de rabo na boca. A populaça quer um Estado paternal. Tal Estado só é possível recorrendo à dívida externa (porque um tal Estado não permite que o país produza o necessário para satisfazer as aspirações materiais do povo). A dívida, para poder ser continuada (como tem de ser num tal cenário), lá vai tendo de ser paga. E para ser paga é necessário mais impostos, sobre mais coisas e mais gente.

Sucede, pois, que a situação é insolúvel. Outro governo não fará certamente nada de aberrantemente diferente, simplesmente porque não pode. Pode fazê-lo sem ser tão asquerosamente pedante como Passos Coelho, o que talvez cause menos hostilidade e lhe dê mais algum tempo. Mas não será uma solução. Não será sequer um paliativo. Será, exactamente, nada. 

O povo quer o que quer. E o que o povo quer é irrealizável. O que virá a seguir não será bonito. Será inevitável.

1 comentário:

Eduardo F. disse...

Será o Great Default de que Gary North vem falando.