domingo, outubro 21, 2012

A mentalidade anti-capitalista portuguesa: um exemplo.

Há muitos anos que moro ao pé da primeira das pastelarias Aquarius que abriu no país. Conheço, por isso, o patrão desde os tempos em que estava ele atrás do balcão a servir os clientes. Hoje, o senhor (com uma idade claramente avançada) já não serve os clientes atrás do balcão. No entanto, é sempre o primeiro a chegar e procede, depois da sua visita inicial ao estabelecimento-mãe, para uma visita pelos outros situados em Lisboa. Pelo que me contou uma vez um empregado (também ele já veterano, de vida e de emprego na pastelaria), o patrão faz a ronda mais do que uma vez por dia, para se assegurar de que todas as lojas estão a funcionar como devem. 

Este zelo, que é visto como um excesso, é prontamente criticado ou incompreendido por várias pessoas - elas mesmas clientes do estabelecimento. Junte-se isto ao facto de andar com o mesmo carro há vários anos (um bom carro, mas um carro velho), de não se lhe conhecerem grandes ou longos férias, e a personagem é vilificada e/ou ridicularizada como uma personagem cartoonesca. Já ouvi de tudo: que "é agarrado ao dinheiro", que "não deixa os empregados em paz", "que não aproveita o sucesso que tem" e todas as variações possíveis desta canção popular. 

Isto vem a que propósito? Vem a propósito da mentalidade portuguesa em relação ao empreendedorismo e aos patrões. É um exemplo sintomático de como os portugueses não entendem e, por isso, desdenham e demonizam a função do patrão e do empreendedor. Não lhes ocorre pensar que é precisamente pelo zelo constante, e pela preferência por não esbanjar o dinheiro num carro novo todos os anos, que o homem mantém e expande a sua empresa, providenciando um óptimo serviço. Não entendem que o sucesso que ele, alegadamente, não aproveita, é o resultado do seu trabalho, do seu empenho e da sua moderação. 

Se não fossem homens destes, o país estaria bem pior do que está. Infelizmente tudo o que todos os governos fizeram e fazem é antagonizar estas pessoas e forçá-las a ser empreendedoras noutro sítio; ou a fechar o negócio, juntar o dinheiro e ir gastá-lo em bens de consumo. Isto, com o consentimento e o aplauso do cidadão comum, que claramente vive num mundo complexo demais para a sua cabeça simplória.

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