sábado, dezembro 29, 2012

O conhecimento tem problemas (II): Duhem e Quine

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Uma das relações mais faladas dentro da Economia é a relação de causalidade: um aumento da massa monetária causa um aumento do nível de preços, um aumento de impostos causa o abrandamento da actividade económica, uma diminuição da actividade económica causa perdas de bem-estar, etc. 

O modus operandi metodológico da economia neoclássica para chegar a estas conclusões é relativamente simples, e não sendo o propósito deste post discorrer sobre as vicissitudes da tal metodologia, convém notar o seguinte: o resultado permite-nos atribuir, com um dado grau de confiança, uma dada percentagem da variação de uma "causa" num "efeito" — i.e., que por cada euro que se aumenta em investimento público, temos X euros de aumento no PIB.

Este isolar da relação de causalidade é um dos pontos mais importantes dentro de toda a framework neoclássica. Afinal, se não é possível estabelecer estas relações simples, estamos perante um esvaziar de propósito: se não se consegue dizer que "para baixar a inflação tem que se aumentar as taxas de juro", se se deixam de poder fazer as "recomendações de política", muito bom economista deste mundo deixa de ter razão de existir.

Chegou então a altura de olhar para aqueles dois senhores que refiro no título: Pierre Duhem e Willard V. O. Quine. Apesar de nunca terem trabalhado juntos — quando Duhem morre, Quine era ainda um jovem de 8 anos —, é-lhes atribuída conjuntamente o desenvolvimento de uma certa tese dentro da Filosofia da Ciência. A página que provavelmente melhor explica a dada tese é a da Stanford Encyclopedia of Philosophy. Long story short: é impossível testar, isoladamente, uma dada hipótese científica — sendo, contudo, possível testar um sistema (enquanto conjunto de hipóteses). Quine refere-se a este reducionismo como um dos "dois dogmas do empirismo": uma dada frase, um postulado empírico, por si só, não pode ser confirmado ou refutado, visto tal implicar assumir a validade das assumpções que estão por detrás do dado postulado.

Isto pode parecer um ponto algo estranho. Mas, deixem-me tentar pôr isto assim: (quase) todos os testes econométricos são parvos. Afinal de contas, não podemos testar se a hipótese X é ou não rejeitada. Só podemos testar se o sistema é ou não rejeitado. E isto são coisas bem diferentes, com implicações bastante profundas.

Visto de um ponto de vista mais prático: não podemos assumir apenas que por cada euro que se aumenta em investimento público, temos X euros de aumento no PIB. Convém também assumir como verdade tudo o que está para trás. E o que está por detrás? Bem, todas as outras variáveis consideradas ao mesmo tempo, e todas as outras variáveis "esquecidas" pelo modelo; e que o comportamento das variáveis é i.i.d.; e que o problema da indução não existe. E por aí além.

Mas voltaremos a isto noutra data.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

Privatização da ANA

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Arquivar a notícia em #monopóliosprivados. Convém também ler, no Ordem Natural: Há privatizar e privatizar:

Da mesma forma, privatizar as empresas do Estado é óptimo, mas não chega. Mais importante é abrir, sem restrições nenhumas, a competição nos sectores que hoje são monopolizados por empresas públicas. Um monopólio com capital privado não deixa de ser de alguma forma estatal. E em geral, é pior. 

O conhecimento tem problemas

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De há uns tempos para cá, conforme vou tendo tempo livre, tenho andado a pensar sobre os problemas do conhecimento, especialmente no tocante à Economia. E uma das coisas que mais  confusão me faz é a mistura que há entre a questão da origem do conhecimento e o modo como o conhecimento é justificado.

O primeiro problema é um problema quase de "genealogia". Imaginemos: se o J. F. Nash teve a ideia do equilíbrio de Nash enquanto olhava para uns pombos (acho que no filme era assim, já não sei, mas a ideia passa), isso quer dizer que o equilíbrio de Nash tem uma base empírica? I.e., será que o conhecimento que Nash criou teve origem na observação dos ditos pombos, ou de outra coisa? Ou a origem não é a observação? Será um produto apenas da sua mente?

O segundo problema é ligeiramente diferente: admitamos, arguendo, que o Nash de facto teve a ideia a olhar para uma série de pombos, que os pombos o inspiraram a explicar que, através da eliminação iterada de estratégias estritamente dominantes, o resultado do "jogo" é um equilíbrio de Nash. No entanto, isso não quer dizer que isso seja verdade. Qual é a justificação para isto acontecer assim? E será que a justificação aqui é empírica?

Este problema, esta confusão aqui simplificada em termos crus e fazendo uso da base da teoria dos jogos, pode parecer simples, assim exposto. Pode até não representar muito. Mas, atente-se: quando um economista pega numa base de dados qualquer, faz um modelo de regressão, estima uns estimadores, ajusta as variáveis, controla para homocedasticidade, vieses, etc, e chega a um dado resultado, diz-nos que coisa assim assim acontece porque assado assado. Ok, certo: o "conhecimento" que saiu dali teve origem empírica; observaram tantos e tantos preços, sabem qual é a elasticidade. Mas como é que sabemos que aquilo que ali está é verdade? Como é que sabemos que o que ali está não passa de um exercício intelectual? Como é que justificamos, por exemplo, que aquele conhecimento é válido?

Isto é precisamente aquilo que me tem andando a chatear nos últimos tempos. Quando chegar a alguma resposta, ponho por aqui. Por agora, ficam as perguntas.


Tu ne cede malis sed contra audentior ito

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Parece que agora também paro por aqui. Não obstante escrever para o Instituto Ludwig von Mises Portugal e para o Movimento Libertário — algo que não vai deixar de acontecer, note-se —, mas sinto igualmente necessidade de fazer outro tipo de participações, sobre outros assuntos. Nem só de liberalismo vivo eu.

Obviamente, quero agradecer o convite do Rui; escrever no Ordem Natural é de facto uma espécie de honra. Foi por aqui que fiquei a conhecer muitos e bons argumentos para a posição anarco-capitalista. Salvo erro, até foi aqui que tive o meu primeiro contacto com o Hoppe, veja-se lá.

Convém também explicar: não sou anarquista; mas também já não sou um minarquista. O Rothbard tentou o termo "nonarchist", antes de ter usado/cunhado o "anarco-capitalista"; curiosamente, deve ser  das poucas vezes que ele preferiu a posição "middle of the road", como ele próprio a caracteriza.

Por cá, hei de escrever sobre o que me vier à cabeça. Isso provavelmente significa que vão apanhar com as misturas das duas áreas que me andam a interessar: Economia e Epistemologia. Eventualmente, hão de apanhar com passagens de texto dos interessantíssimos livros que leio. Eventualmente, links de boas músicas — eu, melómano, me assumo. O que aparecer, portanto.

A gente vê-mo-nos.

Publicidade Institucional.

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A partir de hoje o Ordem Natural passa a contar com a colaboração do Lourenço Vales.

Podem encontrá-lo também aqui e aqui.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Para que servem os liberais?

2 comentários:
«devem ser utilizados recursos públicos para monitorizar os blogs? Não quero ainda dar uma resposta definitiva, e não sei se estarei sequer, mesmo no fim desta série, em condições de a dar.»


Próximo episódio: devem ser utilizados recursos públicos para perseguir e torturar cidadãos quando apetecer?

Não quero ainda dar uma resposta definitiva e não sei se estarei sequer em condições de a dar.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Bater no ceguinho (parte II: a cassete)

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A única "cassete" mais repetida que a do PCP é a dos que gozam com a mesma. E que gozo que dá ridicularizar um partido que mantém o seu discurso de ano para ano, de década para década, de eleição para eleição.

Esta história da cassete sempre me causou alguma confusão. Até finalmente perceber o porquê da famosa cassete comunista causar tanta gargalhada entre os moderados. É tão simples como isto: de tanta subserviência a um status quo partidário que muda de discurso como quem muda de roupa interior, com a flexibilidade própria de um acrobata ou de uma prostituta, os críticos da cassete são, na verdade, críticos de algo muito mais fundamental e importante: princípios. 

Num mundo cada vez mais cínico, em que o discurso político se encontra despido de qualquer ideia basilar ou valor moral, é natural que um partido que se recusa a alterar os seus princípios conforme a maré eleitoral exige se preste ao ridículo.

Por mim, ficava satisfeito se começassem a acusar os liberais de terem uma cassete. Era um óptimo sinal de que aderiam a princípios e que não os abandonavam à primeira oportunidade. A realidade, porém, é diferente.

O problema da cassete comunista não é ser cassete: é ser comunista. É de resto o mesmíssmo problema do discurso (e da prática) dos outros partidos, que apesar das manobras acrobáticas, não são menos comunistas que o PCP. São só mais arrivistas.

Bater no ceguinho

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Dia sim dia não observamos na blogosfera de direita a curiosa actividade de bater no ceguinho. O ceguinho, neste caso, é o PCP e os comunistas em geral. Podemos questionar-nos sobre as intenções sub-reptícias desta actividade, não porque elas tenham alguma importância, mas porque têm imensa piada. À partida, a intenção que mais sentido faz para mim é, no fundo, assobiar para o lado. Isto é, apontando o dedo à presa fácil do PCP a direita portuguesa (liberais e não liberais) escusam-se o transtorno de lidar com a desgraça que é a direita partidária portuguesa, sobretudo quando esta forma governo. É, na essência, um exercício patético, mas uma patetice compreensível.

Mas convém entender sobretudo o porquê do PCP ser um "ceguinho" em que a direita blogosférica zurze tão cobardamente. 

O PCP é um partido sem futuro há pelo menos vinte anos. Apesar dos seus símbolos manterem uma aura atractiva para o jovem descerebrado (redundância, redundância), a sua ideologia está, para todos os efeitos, morta para sempre. Pouca ou nenhuma responsabilidade, de resto, lhe pode ser imputada pelos protestos cada vez mais descontrolados que se têm vindo a observar. Os protestos não são o produto de agitação da extrema-esquerda; são o produto de impostos monstruosos, regulações censórias e nepotismos vários a que o Estado - governado quase ininterruptamente por maiorias absolutas de PS/PSD/CDS-PP - submeteu e submete a população; são o produto da miséria e da desordem gerada por um Estado que tudo quer consumir e controlar. E esse Estado não é, em quase nada, responsabilidade do PCP. 

Poderíamos porém pensar que o programa do PCP, apesar de inofensivo na prática, fosse tão chocantemente agressivo e destrutivo se posto em prática que merecesse uma especial atenção. Mas nem sequer é o caso. É certo que podemos criticar o PCP por propor impostos altos sobre os ricos, regulações ridículas sobre tudo o que mexe e não mexe, proteccionismos vários, favoritismos lorpas, etc. Mas importa sublinhar que essas propostas não diferem em nada das práticas do PSD, do PS e do CDS. Nós temos impostos altos sobre os ricos; temos regulações ridículas sobre tudo o que mexe e não mexe, temos proteccionismos vários e favoritismos lorpas. Temos isso tudo e muito mais. E não é ao Partido Comunista que devemos agradecer o comunismo do Estado português.

Atacar o PCP, no entanto, é um exercício seguro. Não se arrisca nada em bater no ceguinho comunista. Lembrar as monstruosidades do comunismo global cai sempre bem e arrecada frequentemente aplausos, por mais remota que seja possibilidade dessas monstruosidades se materializarem aqui e por mais irrelevante que seja mencioná-las uma vez mais. 

Entretanto, sob um parcial silêncio comprometido, a social-democracia, a idolatria pan-europeia, o estado social "responsável" do mainstream vai empurrando milhares (milhões?) para a miséria ou para o estrangeiro, destruindo o que resta da nossa capacidade produtiva e do nosso capital, de forma a alimentar os inúmeros parasitismos inamovíveis que existem na nossa sociedade desde o 25 de Abril.

É, como se costuma dizer, uma questão de critério. Ou da sua ausência.