segunda-feira, dezembro 03, 2012

Bater no ceguinho

Dia sim dia não observamos na blogosfera de direita a curiosa actividade de bater no ceguinho. O ceguinho, neste caso, é o PCP e os comunistas em geral. Podemos questionar-nos sobre as intenções sub-reptícias desta actividade, não porque elas tenham alguma importância, mas porque têm imensa piada. À partida, a intenção que mais sentido faz para mim é, no fundo, assobiar para o lado. Isto é, apontando o dedo à presa fácil do PCP a direita portuguesa (liberais e não liberais) escusam-se o transtorno de lidar com a desgraça que é a direita partidária portuguesa, sobretudo quando esta forma governo. É, na essência, um exercício patético, mas uma patetice compreensível.

Mas convém entender sobretudo o porquê do PCP ser um "ceguinho" em que a direita blogosférica zurze tão cobardamente. 

O PCP é um partido sem futuro há pelo menos vinte anos. Apesar dos seus símbolos manterem uma aura atractiva para o jovem descerebrado (redundância, redundância), a sua ideologia está, para todos os efeitos, morta para sempre. Pouca ou nenhuma responsabilidade, de resto, lhe pode ser imputada pelos protestos cada vez mais descontrolados que se têm vindo a observar. Os protestos não são o produto de agitação da extrema-esquerda; são o produto de impostos monstruosos, regulações censórias e nepotismos vários a que o Estado - governado quase ininterruptamente por maiorias absolutas de PS/PSD/CDS-PP - submeteu e submete a população; são o produto da miséria e da desordem gerada por um Estado que tudo quer consumir e controlar. E esse Estado não é, em quase nada, responsabilidade do PCP. 

Poderíamos porém pensar que o programa do PCP, apesar de inofensivo na prática, fosse tão chocantemente agressivo e destrutivo se posto em prática que merecesse uma especial atenção. Mas nem sequer é o caso. É certo que podemos criticar o PCP por propor impostos altos sobre os ricos, regulações ridículas sobre tudo o que mexe e não mexe, proteccionismos vários, favoritismos lorpas, etc. Mas importa sublinhar que essas propostas não diferem em nada das práticas do PSD, do PS e do CDS. Nós temos impostos altos sobre os ricos; temos regulações ridículas sobre tudo o que mexe e não mexe, temos proteccionismos vários e favoritismos lorpas. Temos isso tudo e muito mais. E não é ao Partido Comunista que devemos agradecer o comunismo do Estado português.

Atacar o PCP, no entanto, é um exercício seguro. Não se arrisca nada em bater no ceguinho comunista. Lembrar as monstruosidades do comunismo global cai sempre bem e arrecada frequentemente aplausos, por mais remota que seja possibilidade dessas monstruosidades se materializarem aqui e por mais irrelevante que seja mencioná-las uma vez mais. 

Entretanto, sob um parcial silêncio comprometido, a social-democracia, a idolatria pan-europeia, o estado social "responsável" do mainstream vai empurrando milhares (milhões?) para a miséria ou para o estrangeiro, destruindo o que resta da nossa capacidade produtiva e do nosso capital, de forma a alimentar os inúmeros parasitismos inamovíveis que existem na nossa sociedade desde o 25 de Abril.

É, como se costuma dizer, uma questão de critério. Ou da sua ausência.

1 comentário:

murphy V. disse...

Em parte concordo com o seu post. Mas quando o pcp faz as críticas que faz e, ao mesmo tempo, não se demarca do que acontece na coreia do norte, em cuba ou celebra personalidades como estaline...

http://jornalismoassim.blogspot.pt/2012/12/filhos-e-enteados-da-comunicacao-social.html