quinta-feira, dezembro 27, 2012

O conhecimento tem problemas

De há uns tempos para cá, conforme vou tendo tempo livre, tenho andado a pensar sobre os problemas do conhecimento, especialmente no tocante à Economia. E uma das coisas que mais  confusão me faz é a mistura que há entre a questão da origem do conhecimento e o modo como o conhecimento é justificado.

O primeiro problema é um problema quase de "genealogia". Imaginemos: se o J. F. Nash teve a ideia do equilíbrio de Nash enquanto olhava para uns pombos (acho que no filme era assim, já não sei, mas a ideia passa), isso quer dizer que o equilíbrio de Nash tem uma base empírica? I.e., será que o conhecimento que Nash criou teve origem na observação dos ditos pombos, ou de outra coisa? Ou a origem não é a observação? Será um produto apenas da sua mente?

O segundo problema é ligeiramente diferente: admitamos, arguendo, que o Nash de facto teve a ideia a olhar para uma série de pombos, que os pombos o inspiraram a explicar que, através da eliminação iterada de estratégias estritamente dominantes, o resultado do "jogo" é um equilíbrio de Nash. No entanto, isso não quer dizer que isso seja verdade. Qual é a justificação para isto acontecer assim? E será que a justificação aqui é empírica?

Este problema, esta confusão aqui simplificada em termos crus e fazendo uso da base da teoria dos jogos, pode parecer simples, assim exposto. Pode até não representar muito. Mas, atente-se: quando um economista pega numa base de dados qualquer, faz um modelo de regressão, estima uns estimadores, ajusta as variáveis, controla para homocedasticidade, vieses, etc, e chega a um dado resultado, diz-nos que coisa assim assim acontece porque assado assado. Ok, certo: o "conhecimento" que saiu dali teve origem empírica; observaram tantos e tantos preços, sabem qual é a elasticidade. Mas como é que sabemos que aquilo que ali está é verdade? Como é que sabemos que o que ali está não passa de um exercício intelectual? Como é que justificamos, por exemplo, que aquele conhecimento é válido?

Isto é precisamente aquilo que me tem andando a chatear nos últimos tempos. Quando chegar a alguma resposta, ponho por aqui. Por agora, ficam as perguntas.


3 comentários:

Telmo disse...

Cuidado com o que andas a pensar nos teus tempos livres.

Ouve uns tipos (Russel, Godel, etc) que se puseram a pensar nessas cenas da genealogia do conhecimento: de que para haver verdadeiro conhecimento, teria de haver algo externo aos humanos que o pudesse validar e vê no que deu?

Hoje em dia toda a gente está no facebook!

Miguel Madeira disse...

Isso parece-me, basicamente, a velha questão racionalismo vs. empirismo.

L. Vales disse...

A questão do racionalismo vs. empirismo só vem depois. O conhecimento pode ter "origem" empírica e justificação racionalista - ou vice versa.

Um exemplo: o físico/matemático LeVerrier descobre, através de derivação matemática, que há um planeta "escondido" depois de Úrano. Obviamente, a confirmação só existiu quando observaram realmente que Neptuno estava lá. Sim, no problema da justificação, há a tal velha questão. Mas muitas vezes confunde-se na discussão que o conhecimento "surge" de uma maneira e pode ser "justificado" de outra.