terça-feira, janeiro 22, 2013

o «liberalismo» de rui a.

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É bastante mais interessante ver posts n'O Insurgente que procuram provocar a discórdia entre as hostes liberais do que os já muito habituais (e cansativos) jabs partidários ao PS/PCP/BE. O rui a. é provavelmente dos autores que mais tenta provocar destas discussões. Hoje, tem um post intitulado "o «liberalismo» radical e revolucionário de hans-hermann hoppe". De há uns tempos para cá, o rui a. tem feito por fazer valer a sua tese que o anarco-capitalismo não pode ser considerado liberalismo — tal seria uma contradição em termos, visto autores como Rothbard, Hoppe, Huerta de Soto, etc, fazerem uma crítica ao constitucionalismo liberal oitocentista e o que daí originou. Parece-me ser essa a tese esposada neste post, bem como no "a «ética» de rothbard", "deitar fora a criança com a água do banho" e "sem tirar nem pôr". Mas, para este efeito, o post sobre Hoppe — provavelmente, o melhor da série — será suficiente para tentar expor aquilo que considero estar mal nas ideias de rui a..

A primeira coisa que gostaria de destacar como errada no post sobre Hoppe apresenta-se logo no primeiro parágrafo: "Esta doutrina ["o dito «liberalismo» anarco-capitalista"] tem dois pressupostos essenciais: a recusa do mundo moderno e um ódio vesgo ao liberalismo clássico, que ambos consideram responsável por esse mundo degenerado em que vivemos." Ora, se é inegável que pensadores anarco-capitalistas fizeram uma crítica ao liberalismo clássico (aconselho a leitura do artigo de Huerta de Soto "Liberalismo Clássico versus Anarco-Capitalismo", no Mises Portugal, para perceber melhor que tipo de crítica é essa), falar de um "ódio vesgo" por parte dos Ancaps será um exagero; não duvido que rui a. tenha lido muitas das principais obras fundadoras do ancapismo, mas fico sob a impressão de que há um ligeiro distorcer daquilo que acontece na crítica libertária ao liberalismo de oitocentos. Do mesmo modo como Menger rompeu com os economistas clássicos (que acreditavam na teoria do valor-trabalho, sendo que Menger fundou a Escola Austríaca nos princípios do marginalismo e subjectivismo), o que é feito na crítica é algo em tudo semelhante: "encontramos coisas com as quais não concordamos e que parecem internamente incoerente; daí, propomos pegar na parte 'boa' da teoria e actualizá-la à luz dos desenvolvimentos actuais do conhecimento". Porque, afinal, não se pode afirmar de boa consciência que o ancapismo não bebe directamente do liberalismo clássico, e aproveita muitos dos seus ensinamentos. 

Contudo, e numa discussão mais "ao lado", a caracterização que rui a. faz do pensamento "liberal" ancap também me parece errada. Querer caracterizar o anarco-capitalismo (seja ele ou não liberal), e não falar no princípio de não-agressão, na assumpção weberiana do Estado enquanto monopolista do poder coercivo da força num dado território, na ética da argumentação desenvolvida por Habermas, Apel e Hoppe, na Escola Austríaca, todos eles princípios/axiomas/pressupostos/etc mais importantes e óbvios do que os referidos no post original, mostra a tentativa de rui a. construir um boneco de palha. É lamentável que assim seja, até porque o "liberalismo" (seja ele na vertente rui-a.-iana ou na vertente anarquista) teria muito a ganhar caso acontecesse.

Saindo um pouco do primeiro parágrafo, ao longo do texto é notória a tentativa do rui a. de descredibilizar o posicionamento de Hoppe enquanto liberal. A parte importante não é que Hoppe esteja certo ou errado nos pressupostos do seu pensamento, no seu método, nas suas conclusões ou recomendações; importante é que tenhamos cuidado e não misturar o liberalismo com anarquismo. O importante é que a revolução americana não foi uma "revolução a sério" (não foi radical, mas sim conservadora) porque tentou restaurar os princípios da Magna Carta — e aqui, mais uma mostra de má fé: o que se lê nas entrelinhas do texto de rui a. é que Hoppe dá o exemplo da revolução americana como uma "revolução a sério" (não conservadora) porque houve uma guerra e quebra com os valores "antigos", quando Hoppe diz claramente que a revolução americana foi o reafirmar de um velho princípio liberal: '"E, na Declaração de Independência, Jefferson afirmou que "sempre que qualquer forma de governo se torna destrutiva para a vida, para a liberdade e para a busca da felicidade, as pessoas têm o direito de alterá-lo ou aboli-lo".  Os anarquistas defensores da propriedade privada estariam apenas reafirmando o direito liberal-clássico de "livrar-se de tal governo e providenciar novos defensores para sua segurança futura."'

E, como Hoppe foi agora classificado como um perigoso radical e revolucionário, já se pode dizer coisas como esta: "Dito de uma forma mais solene, as rupturas «revolucionárias» são adversárias das instituições e das comunidades socialmente consolidadas pelo tempo e pela história, sendo que, a este respeito, não seria desinteressante que Hoppe fizesse um exercício para tentar perceber por que razão as pessoas vivem como vivem e não como ele gostaria que elas vivessem." Que óbvia contradição que rui a. conseguiu descortinar no pensamento Hoppeano: a mesma pessoa que não quer viver sob o jugo estatista, com os seus ímpetos revolucionários, fará por impor a sua vontade nos restantes. A ser verdade, esta contradição será destrutiva e torna todo o pensamento ancap digno do estatuto intelectual de uma teoria como a frenologia. Mas, na verdade, é relativamente óbvio que Hoppe não pretende fazer com que as outras pessoas vivam de determinada maneira; Hoppe apenas rejeita que as outras pessoas possam ditar como o próprio Hoppe terá de viver. No fundo, aquilo que Mises diz: "No people and no part of a people shall be held against its will in a political association that it does not want." (Nation, State, and Economy), o que é, basicamente, secessão ao nível individual, estado voluntário, anarquia, o que lhe quiserem chamar.

De qualquer modo, o ponto importante e central parece ser mesmo que rui a. parece querer apenas reafirmar que o anarco-capitalismo não é liberalismo. Se assim for, é-me um pouco indiferente. Mas gostaria apenas que isto fosse feito de modo intelectualmente honesto. Não tenho nada a ganhar ou perder com a inclusão do ancapismo na "família" liberal; nem sequer sou anarco-capitalista. Mas acho que rui a. já mostrou que é capaz de fazer melhor; e deve fazer melhor.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

O conhecimento tem problemas (III): Less is more

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"The less-is-more idea in decision making can be traced to Spyros Makridakis, Robyn Dawes, Dan Goldstein, and Gerd Gierenzer, who have all found in various contexts that simpler methods for forecasting and inference can work much, much better than complicated ones. Their simple rules of thumb are not perfect, but are designed to not be perfect; adopting some intellectual humility and abandoning the aim at sophistication can yield powerful effects. The pair of Goldstein and Gigerenzer coined the notion of "fast and frugal" heuristics that make good decisions despite limited time, knowledge, and computing power"
Antifragile: Things That Gain from Disorder, Nassim Nicholas Taleb
Enquanto lia o novo livro do N.N.Taleb, esta passagem soou-me bem e parece-me tocar num ponto que me parece importante numa discussão sobre a Economia e sobre qual deve ser o papel da modelização (enquanto construção de modelos descritivos/prescritivos da realidade) na "ciência" económica.  Apesar de o autor não parecer muito interessado em perceber porque é que modelos (os tais "methods") mais simples geram melhores resultados que os modelos mais complicados, acho que há uma maneira de explicar porque é que isto acontece. 

Permitam-me avançar desde já com a resposta: modelos simples serão "melhores" que modelos complicados na medida em que fazem menos assumpções que entram em confronto directo com a realidade. A consideração de "melhor"/"pior" terá que ver com o poder de ajudar correctamente o processo de tomada de decisão.

Agora, interessa perceber porque é que isto acontece. A resposta mais completa já foi dada pelo Roderick T. Long aqui, mas permitam-me: tudo isto se resume à questão da idealização e abstracção. Os modelos neoclássicos (enquanto produto do paradigma neoclássico) fazem assumpções que vão claramente contra a realidade; e note-se que isto não é um bug, é uma feature:
«Truly important and significant hypotheses will be found to have “assumptions” that are wildly inaccurate descriptive representations of reality, and, in general, the more significant the theory, the more unrealistic the assumptions.»
The Methodology of Positive Economics, Milton Friedman 
Esta é uma postura que, à primeira vista, pode parecer correcta. A "realidade", como um todo, é demasiado complexa para ser descrita por um modelo; daí que a abstracção seja uma ferramenta necessária para conseguir chegar a algum lado. E as assumpções, mesmo que entrem em confronto com a realidade, ajudam-nos a chegar lá. Até podemos não conseguir fazer uma descrição perfeita da realidade, mas ao menos temos alguma coisa. Pelo menos, é este o rationale que guia muito (ou todo) do pensamento económico mainstream. No entanto, há aqui um enorme problema. A abstracção da realidade, sendo necessária, não implica que as assumpções sejam erróneas. Implicará, apenas, que algumas características não estejam especificadas, estejam omissas.

No fundo, os modelos podem estar incompletos sem que estejam errados. Um modelo que diga "o capital é usado no processo produtivo" será um modelo que de pouco servirá, estará incompleto e tudo mais; mas não está errado. Mas um modelo que diga "o capital que é usado no processo produtivo é homogéneo" será um modelo que até poderá produzir bastante mais conclusões, e facilitar a modelização matemática; mas está errado. E, estando errado, vai introduzir em todo o restante modelo erros. E, como os erros têm a particularidade nada prática (mas extremamente interessante) de não serem lineares, quanto mais erros tiver um modelo, menor será a capacidade do modelo de acertar com a realidade — contrariamente àquilo que nos querem levar a acreditar, estes erros não se anulam.

Podemos então perceber que modelos mais simples, só pelo facto de introduzirem menos assumpções irreais (ou não as introduzirem de todo), serão logo capazes de estar em concordância, de modo mais consistente, com a realidade. Daí que a conclusão a que o N.N.Taleb chega naquele excerto seja, ao que parece, verdadeira. E até tem uma explicação por detrás, que até serve para explicar porque é que a teoria neoclássica não é lá grande espada nesta coisa de ser "ciência".



segunda-feira, janeiro 07, 2013

Now and then.

Sem comentários:
Now: 
«Sem direito à propriedade, nenhum outro direito existe.» (Janeiro, 2013)

Then:

«Há qualquer coisa de estranho numa ética que se baseia exclusivamente na propriedade de si próprio.» (Agosto, 2010)

«O conceito de "self-ownership" não se enquadra no direito natural porque não obriga cada indivíduo a contribuir para o Bem Comum.» (Agosto, 2010)

«Seremos donos de nós próprios (self-ownership)? Rothbard afirma que sim, eu afirmo que não.» (Agosto, 2010)

***

Gosto muito de ver as pessoas repensarem as suas posições (sobretudo em assuntos tão importantes). E posso, finalmente, sentir que a enorme discussão que tive com o Joaquim serviu para alguma coisa.

Não posso no entanto dizer que concorde com a elaboração randiana da ideia a que o Joaquim adere (baseada na ideia de esforço e produção - algo que convida, naturalmente, a críticas como a da Zazie na caixa de comentários).

Talvez daqui a dois anos. Mais vale tarde que nunca.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Bater no ceguinho (III)

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Há uma coisa que me confunde muito. Depois deste artigo de opinião do Henrique Raposo, alguma direita liberal apressou-se a lançar foguetes e a apontar as inconsistências do PCP (p.e., aqui e aqui, n'O Insurgente). Não deixa de ser curioso que mais depressa atacam o PCP do que se desmarcam da política do actual governo PSD/CDS. Do ponto de vista estratégico, é estranho: atacar quem está na lama, e escapar-se a apontar as falhas mais do que óbvias de quem está no poder. Até faz parecer que a direita liberal, por omissão, até gosta do governo. Mas se calhar sou eu que percebo pouco da poda. Ou tenho princípios. Não sei bem, já.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Assim se vê

1 comentário:
É um pouco sintomático que o "caso" Artur Baptista da Silva tenha tido, de modo geral, mais cobertura na imprensa e na blogosfera do que: 1) a privatização da ANA; 2) a injecção de capital no Banif; 3) Cavaco a promulgar o OE. Prioridades.

Ah, e bom 2013.