domingo, fevereiro 03, 2013

Ponto da Situação.



Embora a indignação seja um sentimento legítimo e mais que justificado perante as medidas tomadas pelo presente governo, a sensação que fica da indignação dos “indignados” é que, sendo direccionada aos alvos certos, é-o pelas razões erradas. Isso intui-se pelas “soluções” que os “indignados” favorecem e pelo teor geral da sua indignação.

Em primeiro lugar é apenas natural que um governo PSD não consiga nem queira desmantelar a rede de interesses em que consiste o corporativismo nacional. Esses interesses vivem do e para o Estado, e são produto desse mesmo partido, se não exclusivamente pelo menos em grande medida. E não sendo eu um fã do sistema democrático, confesso que me causa alguma vergonha alheia ver os seus fãs reclamarem do resultado de uma eleição e pedirem a demissão do governo eleito pelo sistema que tanto apreciam. É como reclamar que entrem onze jogadores em campo, em vez de dez ou doze.

Em segundo lugar, podemos assumir que os indignados querem que se baixem os impostos, desregule a sociedade e se acabe com o corporativismo? Não podemos. Pelo menos não em absoluto. Se há coisa que sabemos de facto é que os indignados não são liberais, clássicos ou outros. Os cortes que querem ver feitos em certos impostos tenderão a ser acompanhados por aumentos de outros impostos, sobre outras pessoas (“os ricos”). E se por acaso não for assim, também não podemos assumir que os cortes na despesa tornados necessários pela quebra de receita sejam do agrado dos indignados. Pelo contrário. Onde se irá buscar o dinheiro para manter o Estado Social e o corporativismo (que, lembre-se, não toca só aos ricos e aos “grandes” e portanto não tem só neles os seus defensores) é, talvez, uma questão complexa demais para cabeças indignadas. 

Outro sinal da vacuidade da indignação é o constante piscar do olho ao 25 de Abril e a insinuação que se adivinha de que está na hora de repetir o feito – algo que seria preocupante se não fosse tão absurdo e risível. A lógica, dita ao som da “Grândola Vila Morena”, é a da necessidade de reconquistar o que, supostamente, se foi perdendo desde 74. O que se foi perdendo, porém, foi o absolutamente necessário para que a sociedade portuguesa se não assemelhasse à Mauritânia ou à Venezuela. E o que se manteve foi, precisamente, o corporativismo boçal para o qual a sociedade portuguesa sempre mostrou uma tendência e do qual nunca efectivamente saiu.

O 25 de Abril não mudou a estrutura da sociedade portuguesa, e isso os indignados têm dificuldade em perceber. Educação pública e obrigatória com programas definidos pelo Estado garantem o infeliz resultado de ensinar propaganda em vez da verdade, tal como garantiam no Estado Novo. Se por um lado podemos apreciar a ausência de uma polícia política, por outro podemos lamentar o facto da sociedade portuguesa, dos pequenos aos grandes passando pelos médios, continuar subjugada ao, e enamorada pelo, Estado. Tal como no Estado novo, note-se novamente. Por outras palavras, o corporativismo permanece. Os saneamentos e as nacionalizações serviram para mudar os nomes dos interessados, mantendo incólumes os interesses.

É, pois, duvidoso que uma repetição do 25 de Abril tivesse resultados diferentes, havendo hoje menos razões do que havia na época para o repetir – e não tendo o paradigma mental do povo mudado substancialmente. Não há polícia política, nem guerra colonial. O sistema político é o consenso nacional e, embora a pobreza generalizada e progressiva cause indignação, não a causa em suficiente quantidade para pôr em causa a democracia.

Para os poucos liberais, de resto, o presente governo e as suas políticas deviam servir de emenda e elucidá-los sobre a verdade inconveniente de que liberais no governo significa sobretudo o governo nos liberais. Tal como o PS colocou o socialismo real na proverbial gaveta, o PSD e o CDS trancaram o liberalismo no armário e deitaram a chave fora. Como não poderia, aliás, deixar de ser. Não se morde a mão que nos alimenta. E quem alimenta os partidos é, isso mesmo, o Estado. Ser liberal no governo é, pois, uma quimera.

Não havendo movimentos separatistas e sendo o povo sereno como de facto se verifica, o lento definhar é o único destino previsível e provável, até que uma mudança de paradigma ocorra nas cabeças da maioria. E essas costumam demorar.

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