quarta-feira, março 27, 2013

Momento musical

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Swans - You Fucking People Make me Sick  (My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky, 2010, Young God)

quinta-feira, março 21, 2013

A Escola Austríaca e a Ciência

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Na verdade, não deveria estar a escrever este texto: é estar a pôr a carroça à frente dos bois. O que tenho tentado fazer nestes últimos 2 meses aqui pelo Ordem Natural é uma introdução a alguns problemas e conceitos interessantes da parte da epistemologia para conseguir depois, com uma toolbox mais completa, explicar porque é que a economia neoclássica é uma treta e porque é que a Escola Austríaca, podendo até ter problemas, é uma abordagem mais sã e correcta ao problema que a Economia se propõe a (ajudar a) resolver. Sim, eu tinha um plano (tão socialista da minha parte), e ainda não consegui reunir as condições para conseguir explicar de forma consistente aquilo que queria. Mas apareceu este post n'O Insurgente e não consigo resistir a responder.

O primeiro problema com a narrativa exposta no post é o facto de o critério de demarcação defendido pelo autor ser o do bom velho Popper — o falsificasionismo. Mas não deixa de ter piada que se fossemos a aplicar esse mesmo critério à teoria neoclássica, ela falharia redondamente. Aliás, as primeiras pessoas a fugir com a cara "aos tapas da falseabilidade" serão mesmo os neoclássicos: estudos empíricos comprovam que as assumpções estão erradas (adoro poder usar esta frase). Por exemplo, basta irmos ler Tversky (1969), May (1954), McCrimmon e Larson (1979), Slovic e Lichtenstein (1983), Fishburn (1984), e Steedman e Krause (1986), etc, e perceber que só a ideia da transitividade e a impossibilidade da reversão de preferências é algo que está completamente falsificado; e, no entanto, continua a fazer parte do core da economia neoclássica.

E pode-se dizer que o autor não estava a fazer uma apologia da economia neoclássica, algo que é possível. No entanto, o que o autor não percebe é que não é o critério da falsificabilidade que nos diz o que é ou não ciência. Não é esse o critério que os cientistas utilizam — pelo contrário, as observações que falsificam uma teoria são, normalmente, "resolvidas" com novas assumpções adhoc que permitam que aquela teoria continue a ser utilizada.  O "método científico", contrariamente ao que se faz querer parecer, não é o falsificacionismo (em versão naive  ou mais sofisticada); para perceber porquê, este post pode ser um bom começo. Mas basta olhar para aquilo que a Economia é: mesmo imitando de modo mais ou menos consistente o "método científico" (hipótese, teste, falsificação, etc), não é uma ciência — as falsificações acumulam-se há 40 anos, e ainda está tudo no mesmo "paradigma".

Convém ainda reproduzir um ponto especialmente importante, que revela muita da ignorância e impossibilidade epistemológica de existir uma Economia a imitar as ciências naturais:

«Predizer é orientar para onde se espera que o mundo caminhe *dado o que* sabemos hoje e levando em consideração tanto riscos (estimáveis) quanto incertezas (a respeito das quais quase nada podemos dizer). Se as previsões são utilizadas para fazer policy, o problema não é com as previsões: é com os policymakers e, o que é ainda mais grave, com os que elegem esses policymakers para seus cargos.»

Isto é muito bonito. Mas parte de um pressuposto muito interessante: a regularidade da realidade. E, mais ainda: que existe uma distribuição de probabilidades que pode explicar a realidade; e que essa distribuição seja, por norma, a distribuição normal. E, aqui sim, o problema está nas previsões.  

Vamos voltar ao básico da estatística: para poder utilizar ferramentas de indução estatística que nos permitem (não) rejeitar uma qualquer hipótese (testes de t, F, chi quadrado, etcetcetc), damos como adquiridos alguns pontos: random sampling, sample variation, etc. Mas há uma em especial, que é o facto de as variáveis terem que ser i.i.d.. Curiosamente, é sempre um ponto que é dado como adquirido mas nunca consegue bem ser provado — e, quando é feito, é sempre com assumpções adhoc. A questão aqui é muito simples: a realidade, aquilo que o autor tanto quer descrever, não se descreve com uma distribuição normal. Talvez se consiga descrever as alturas da população (e, mesmo isso, esbarra com o facto de não se poder ter uma altura negativa nem tampouco haver pessoas com menos de 40cm, por hipótese), ou outra coisa qualquer menos interessante. Mas tente-se lá fazer modelização para descrever o comportamento do mercado de trabalho com recurso a uma distribuição normal; ou, mais engraçado ainda: tente-se prever os mercados financeiros com recurso a intrincadas equações que têm no seu âmago a distribuição normal (hint, hint). Se calhar, a melhor recomendação que posso fazer é ler os escritos de uma senhora chamada Deirdre McCloskey, em especial o seu  Standard Error of Regressions.

E, após perceber o início do porquê desta ideia do empirismo e do facto histórico não servir para  muito na Economia, é ainda mais interessante perceber o porquê da abordagem austríaca ser consideravelmente melhor do que a abordagem "científica".

Uma das críticas que está patente no post original é o facto de, devido ao seu método não-empírico, a Escola Austríaca não conseguir dizer nada de muito interessante sobre a realidade: se ninguém disputa a consistência lógica, disputa-se a utilidade. Mas aqui é interessante perceber ao certo o que é que Mises conseguiu ir buscar e melhorar a Kant. E muito do que vai ser aqui dito já foi explicado por Hoppe no seu Economic Science and the Austrian Method, mas vou tentar parafrasear para não obrigar a leitura completa (no entanto, tal descrição está sujeita a erros; aconselha-se a leitura completa do ensaio para perceber exactamente o que está aqui [d]escrito).

Kant diz-nos que existem 4 "categorias" que podem classificar as proposições: a priori e a posteriori, bem como sintéticas e analíticas. As proposições que a EA faz são proposições sintéticas a priori: proposições cuja veracidade pode ser aferida antes da experiência (a priori) e cujas leis da lógica proposicional não são suficientes para aferir a sua veracidade (sintéticas). A parte engraçada é que Kant diz que estas afirmações existem, pois são derivadas de axiomas auto-evidentes, axiomas cuja veracidade não pode ser negada sem incorrer em auto-contradição. Mas o problema aqui sempre foi um suposto idealismo nesta teoria: como é que se explica que estas categorias da mente possam encaixar na realidade? E é aqui que Mises entra: é a acção que faz a ligação entre a mente e a realidade; as categorias da mente são, em última instância, categorias da acção; e a causalidade também o é: agir é precisamente influenciar algo num dado ponto do tempo para produzir um resultado posterior — se a causalidade não existisse, não existiria acção. O axioma que procuramos é o axioma da acção. Daqui se conclui que todas as conclusões da EA, assumindo a sua consistência lógica interna, são não só válidas como dizem algo sobre a realidade. E isto é extremamente útil.

Poderia escrever ainda sobre mais umas coisas com as quais discordo do autor (a questão do método científico, se o propósito da ciência deve ou não ser "produzir previsões", se ser ciência interessa ou não para alguma coisa, etc). Mas estes 3 pontos (demarcação, distribuições de probabilidade, e axioma da acção) parecem-me ser os mais importantes para perceber o que se passa de errado naquele texto. Num futuro não muito longínquo, voltarei à carga para explicar com mais pormenores coisas que me parecem importantes sobre este mesmo tema.

quarta-feira, março 20, 2013

Nassim Nicholas Taleb no Reddit

1 comentário:
Já agora, permitam-me variar um pouco e chamar a atenção ao IAmA que o Taleb, um dos meus autores favoritos, fez no Reddit. Se não sabem o que é o Reddit ou um IAmA, tudo bem; se não sabem quem é o Taleb, vão ler o Black Swan e o Antifragile.

Adenda: por lembrança de um comentador, o Fooled by Randomness também se recomenda vivamente, claro. Obrigado ao dito comentador.

Kýpros

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Parece que o plano de bailout do Chipre que incluía a tão famosa taxa sobre os depósitos foi recusada pelo parlamento cipriota (cf. Reuters e Guardian). Sinto que existem algumas coisas que me parecem importante esclarecer:

  • A taxa sobre os depósitos é uma ideia terrível. Não só por ser um imposto (o que já era mau por si só), mas é um novo imposto: não obstante todos os impostos já existentes (consumo, rendimento, mais valias, etc), cria-se um imposto que não permite que as pessoas ajustem o seu comportamento em função da nova medida — afinal de contas, o congelamento das contas serviu para isso mesmo. É todo um novo nível de intrujice e saque.
  • Mas não deixa de ser engraçado, no meio disto tudo, ver acontecer o seguinte (e o Carlos Novais apontou para esse aspecto algures, já não me lembro bem onde, mas fica o crédito): as mesmas pessoas que aqui há uns meses clamavam por uma intervenção musculada do BCE junto dos países em aflição para aliviar o serviço da dívida são as mesmas pessoas que agora reclamam e estrebucham contra esta medida. Não deixa de ser engraçado. Afinal de contas, aquelas pessoas menos favorecidas, que normalmente se tenta proteger, seriam bem mais prejudicadas por uma onda de inflação do que por este tipo de imposto — vide efeito de Cantillon. É mais uma daquelas fantásticas idiotices dos comentadores da praça. O pior é que as restantes pessoas vão atrás.
  • Há, contudo, uma pequena luz ao fundo do túnel: começa-se a perceber que a UE está disposta a muita coisa para salvar o Euro. E isto é positivo porque, quanto mais se forçar a continuação da moeda única, mais depressa ela vai cair. São estes sinais de desespero que vão levar ao fim da moeda única, mais do que outra coisa. E isto vai permitir uma de duas coisas: ou o fim da União ou a criação de algo bastante maior ("fuga para a frente") que aquilo que a UE é ao nível da soberania.
  • O parlamento cipriota ter recusado as medidas também acaba por ser um bom sinal. E as consequências que se vão fazer sentir vão ser também muito interessantes de seguir. A análise do "What Now?" que está na notícia do Guardian que citei acima está interessante, apesar de incompleta: se o Chipre de facto sai do Euro, e essa opção torna-se tão mais plausível quanto mais rigoroso for o acordo, abre um precedente tremendo. Poderão não ser os ratos de laboratório na questão do imposto, mas acabarão por sê-lo naquilo que acontece depois. E, mesmo que os russos se metam ao barulho e salvem o Chipre, nada disso é o garante de que tudo fique na mesma, bem pelo contrário.
All in all, não vai ser bonito. Boa sorte.

quarta-feira, março 06, 2013

Fascismozinho de trazer por casa

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A UE não nos pára de surpreender. Agora querem banir a pornografia em todos os media (e isso inclui a Internet), tudo com o motivo bastante nobre de "eliminar os estereótipos de género". Vai ser uma luta interessante: burocratas de Bruxelas contra todos os adole onanistas desta Europa.  A proposta pode ser vista aqui.

domingo, março 03, 2013

O conhecimento tem problemas (IV): o método e a demarcação

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A questão do método é importante: num mundo onde a "Ciência" atinge uma dimensão muito próxima ao "culto da carga", onde a maior parte das pessoas não percebe muito bem o que se está a passar mas que acreditam em (quase) tudo o que vem com a etiqueta de "científico", convém garantir que quem trata da "carga" o faça de uma maneira não só íntegra mas que também seja consistente dentro da disciplina a tratar — i.e., se dentro de um determinado campo temos pessoas a tratar o mesmo assunto de maneiras diametralmente opostas, ainda estamos a falar de ciência?

O primeiro problema que se oferece é que um método, por si só, não é um critério de demarcação. A maneira de "validar" (aqui as aspas não são em vão) conhecimento terá que ser, simultaneamente, interna e externa: i.e., ao nível interno, é um bom indicador de validade do conhecimento se houver consistência no método com a restante investigação feita; mas, por si só, não chega. Ao nível externo terá que existir um outro critério que permita separar o que é ciência do que não é, devido à insuficiência do "critério interno".

Porque é que é importante a existência dessa consistência metodológica interna? Foi, no fundo, essa a pergunta que ficou em aberto no primeiro parágrafo. A resposta parece-me que é dada pela teoria sobre a história/evolução da Ciência que Thomas Kuhn avança: o processo científico normal é dado pela observância dos princípios basilares de uma dada área, e com essa framework tenta-se fazer um processo de "acumulação de verdades". Os cientistas, por norma, não estão constantemente a tentar revolucionar o seu campo, estando mais virados para a resolução de problemas (Kuhn chama-lhes "puzzle-solving") do que outra coisa. Só quando a acumulação de anomalias (i.e., diferenças entre os resultados teóricos e a realidade) se torna insustentável — o que não é um conceito fixo — é que os cientistas tentarão sair do seu paradigma. Mas é precisamente por causa deste conservadorismo, da existência de um método consistente, que a ciência é tão útil para resolver problemas.

O segundo ponto, o do critério externo, é um dos pontos de contenção mais fortes dentro da filosofia da ciência. Afinal de contas, como sabemos que estamos perante conhecimento que é válido? Já vimos que não é suficiente que exista um "método científico". A resposta standard é ao falsificacionamismo, onde o ponto importante é a falsiabilidade, a característica de algo que é passível de ser falsificável; portanto, para uma teoria ser considerada conhecimento científico terá de 1) ser passível de ser falsificável e 2) ainda não ter sido falsificada. Este critério de demarcação foi defendido por Popper a partir da década de 30. No entanto, esta visão entra em conflito com o ponto exposto atrás; Popper acaba por ver a ciência como algo em constante revolução, onde as teorias são postas de parte à primeira contradição (falsificação), ignorando duas situações distintas: primeiro, que a maior parte dos cientistas apenas muda de paradigma de modo relutante, ignorando ou tentando justificar as primeiras anomalias que surgem dentro desse mesmo paradigma (assim nos diz Kuhn); por outro lado, Alan Sokal diz-nos que os cientistas escolhem as teorias na medida em que lhes são útil e a realidade as confirma (e Popper sempre foi muito crítico da ideia de ter um critério de "confirmação").

Imre Lakatos tenta suprir a aparente contradição (que para Lakatos é apenas desconexão) entre os argumentos de Popper e Kuhn fazendo a diferenciação entre as teorias que fazem parte do "núcleo duro" e as hipóteses auxiliares que tentarão limar esse núcleo de eventuais contradições. Segundo Lakatos, o facto de a natureza falsificar uma teoria não quer dizer que a teoria esteja errada, poderá apenas querer dizer que faz parte de um conjunto de teorias que é inconsistente (nas palavras do próprio: «It is not that we propose a theory and Nature may shout NO; rather, we propose a maze of theories, and nature may shout INCONSISTENT»). (cf. este post do ON) Mas então que método é que Lakatos propõe? A substituição das hipóteses auxiliares de acordo o critério de falsificação através da investigação empírica, tentando com isso proteger o núcleo; e quando o poder explicativo das teorias aumenta, então o progresso acontecesse; se, contudo, se acrescentar hipóteses ad-hoc apenas tentar salvar a teoria, nada feito. Isto, não sendo um método per se — afinal de contas, nada nos é dito quando e em que circunstâncias exactas se deve abandonar o núcleo duro — mas não deixa de ser um método para progredir no conhecimento.

Finalmente, há uma última perspectiva que é interessante abordar. Paul Feyerabend avança a ideia de que não há qualquer regra metodológica que oriente aquilo a que se chama "ciência"; no fundo, a ciência não tem nenhum método universal e pensar que sim é na verdade prejudicial para o seu desenvolvimento. Daí que Feyerabend seja adepto de um anarquismo epistemológico ou, citando, «anything goes». O propósito de mostrar que não existem estas regras metodológicas universais prende-se com a ideia de que é impossível encontrar um critério de demarcação que seja igualmente universal. No fundo, não é exequível separar "ciência" de "pseudociência".

O que é que se tira do meio disto tudo? Bem, isso fica para um próximo post.