segunda-feira, junho 17, 2013

Com uma "direita" assim, quem é que precisa da "esquerda"?

Às vezes as pessoas aborrecem-se comigo por eu me recusar a alinhar com etiquetas políticas: recuso-me a dizer que sou de direita, apesar de nitidamente não ser de esquerda; não digo que sou anarquista, mesmo tendo um saudável (e gigante) preconceito contra o Estado; e, graças à proliferação de alguma "direita 'liberal'", cada vez menos ouso dizer que sou liberal. Não que os princípios deixem de lá estar, mas é que me aborrece sinceramente a identificação com algumas pessoas — é muito mais saudável diz que não sou socialista. No fundo, acho que acabo por seguir uma via negativa no que toca a estes assuntos: é muito melhor dizer o que é que eu não sou do que aquilo que sou.

Mas esta minha relutância tem razões de ser. Às vezes esqueço-me dessas razões, e volto aos velhos hábitos de bradar aos sete ventos que sou liberal, e quando me acusam de ser de direita eu esqueço-me de negar; mas o universo é perverso e volta a lembrar-me que o acaso não existe — e que não é por acaso que acho que deva negar essa associação à direita. O acontecimento mais recente é mesmo o último post da Ana Rodrigues Bidarra no Estado Sentido. Não que o post per se seja lamentável: pelo contrário, parece-me relativamente bem estruturado e bem escrito. Mas parece-me um excelente exemplo porque é que o liberalismo deve ao máximo evitar as confusões com a direita. Permitam-me então apresentar alguns pontos que exemplificam a minha relutância:

1. A direita a favor do status quo

A certo ponto do post, encontramos a seguinte passagem: «Quanto ao Estado, entendo-o indispensável para a continuação das sociedades como as conhecemos e para a necessária manutenção do status quo.» Apesar de não ser explícito o que é a autora entende por status quo, parece-me difícil encontrar algo nele que valha a pena manter. Serão os altos níveis de taxação? Será um contingente militar completamente desvirtuado das necessidades do país? Serão as leis laborais? As restrições à competição, que são especialmente prementes em sectores nevrálgicos  da Economia? A captura de órgãos do Estado? A mentalidade rentista? Os subsídios que destroem agricultura, indústria e comercio? O domínio estatal na Educação, Saúde, Justiça, etc? O completo desprezo pelo esforço e mérito? A perseguição implícita ao sucesso? 

E julgo que a Ana Rodrigues Bidarra concordará, pelo menos em alguns pontos, que as coisas não estão bem. Mas o ponto é que o status quo, "the present state of affairs", é, mais coisa menos coisa, o que eu descrevi.  Que o Estado deva ou não existir é uma discussão extremamente interessante e que eu gosto muito de ter. Mas, por favor: se se faz mesmo questão que um Estado exista, então que ele seja usado não para manter o que existe só pela razão de que é o que existe (uma espécie de conservadorismo bacoco, o "conservadorismozinho") mas sim para tentar corrigir o que está mal. E sim, isto é uma conclusão fantástica (e óbvia), mas às vezes tenho a impressão que as pessoas se esquecem.

2. O pessimismo antropológico e o argumento ao realismo

A Ana Rodrigues Bidarra é uma Hobbesiana, pessimista relativamente à natureza do Homem, e acha que «há que partir de uma base elementar de observação e ser-se realista.» Este é provavelmente o meu argumento preferido de alguma direita (mas não é exclusivo dela, atenção), e que parece-me que pode ser estruturado genericamente da seguinte maneira: fazendo-se uso de cherry picking e definições dúbias (por falta de definição concreta), chega-se a uma conclusão definida a priori; e faz-se uma protecção contra eventuais contra-observações dizendo que convém "ser-se realista" (estando subentendido que conclusões que contradigam o postulado inicial sejam irrealistas, o que é um dos piores insultos que se pode fazer a um argumento). 

Permitam-me não ser científico ou filosófico e apontar algo que me foi relembrado por um amigo. Fazendo uso da sabedoria popular, sabemos que «a ocasião faz o ladrão». O que eu quero dizer com isto é que me faz tanta confusão a noção do Homem como lobo do Homem como a do bondoso selvagem que é corrompido pela sociedade (ou socialização); a noção de que o Homem é bom ou mau por natureza. E isto não acontece por eu acreditar que as noções de bem ou de mal não existam ou que sejam circunstanciais — pelo contrário. Apenas acho que o que torna o Homem bom ou mau são as suas acções, a escolha, aquilo que ele faz; e, bom, se queremos ser realistas e usar da observação, sou capaz de passar aqui horas a fio a apontar casos e casos de Homens que foram simultaneamente bons ou maus; aliás, sou capaz de dizer (mas não me levem muito a sério) que ao longo da vida, o Homem consegue ser bom e mau, não havendo uma qualquer predisposição generalizada partilhada por todos os Homens para ser mais bom do que mau (ou vice versa). 

E isto não teria muito que ver com a história da Direita/Esquerda se não fosse este um dos principais argumentos/crenças na qual se apoia muito da boa (e má!) gente que polula a direita portuguesa, liberal, não-liberal, e anti-liberal.  E eu que nem sequer gosto muito de Filosofia, fico chateado com o critério muito selectivo com que as pessoas olham para a realidade para fazer "Filosofia" — na verdade, esse tal critério muito selectivo é um processo psicológico muito conhecido que se chama viés da confirmação (confirmation bias, não sei se esta é a tradução correcta).

3. A direita com o propósito governativo

Todo o post é feito com o propósito de tentar justificar a existência de um "Governo de Direita". O que só dá mais razão para me querer afastar da direita. O Rui A. sintetiza muito bem esse ponto, quando diz que: "o liberalismo não é uma filosofia do governo e do estado, mas sobre o governo e o estado. Não serve para governar, mas para impor regras e travões ao governo. Donde, por mais que procure, não encontrará nunca um liberal na política partidária." A conclusão que me parece relativamente óbvia a conclusão que a associação entre a direita ("esta direita", aliás), e o liberalismo deve ser recusada e repudiada. 

No fundo, a diferença entre "esta direita" e a esquerda não é muita. Não estão particularmente interessados em mudar o que quer que seja, até porque não há nada de especialmente errado na presente situação; manter o status quo convém porque lhes é favorável, não porque é bom. E, com uma direita destas, quem é que precisa da esquerda?

5 comentários:

Duarte Gonçalves disse...

Parte I

Sabendo tu
i. da minha discordância face àquilo que entendes por socialismo, liberalismo e afins
ii. que me entendo socialista e, por isso mesmo, liberal (poucos perceberão),
realmente deveria saber por que comecei a escrever isto. Digamos que perdi um pouco o interesse na discussão. Às tantas, pensa-se tantas vezes sobre os mesmos assuntos e chega-se a um entendimento que necessitaria de escrever um livro só para me fazer compreender com os termos que utilizo.
Agora, mais de x palavras redigidas, o cmg de continuar a escrever uma divagação na esperança vã de que saia algo é baixo, pelo que continue-se. Gosto muito de ti, mas vou criticar directamente:

a) Restrições à competição como, digamos, a proibição da escravatura voluntária?
b) "completo desprezo"? Sê mais correcto nos termos, senão desmereces a tua argumentação;
c) gostei do 2.!
d) Discordo em completo de 3. Primeiro, aquilo que tu designas de liberalismo não o é. O que tu mais proximamente defendes é libertarismo e não liberalismo (algo muito dissemelhante - isto não é uma picuinhice, são claramente distintos na sua fundamentação, propósito, cosmovisão, &c - como n já alertaram para o erro de confusão). O libertarismo, nem sequer no limite, é anti-liberal. Toda essa linha de argumentação estaria correcta referindo-se a libertarismo e não a liberalismo. Liberalismo, tal como concebido e como utilizado até há muito recentemente era conotado com um progressismo parcialmente ancorado na iniciativa individual e predominantemente sustentado pelo Estado (historicamente) e, filosoficamente, idem. Politicamente, de todo terás razão. (A sua acepção estará talvez mais próxima do termo liberal em inglês)
e) Não é uma questão de ser politicamente correcto ou não, mas acabas por perder com argumentos ad hominem ("bacoco" e afins), até porque há boas teses da pertinência de sustentação do status quo. Até porque é interessante ler os teus argumentos/críticas, não ver-te a atirar hortícolas em pior estado de conservação para o outro lado. Enfim, eu percebo-te. Eu costumo ser bastante pior em termos de emotividade - o que não quer dizer que concorde e estou a tentar mudar.
f) A via negativa não é muito benéfica. Percebo a sua utilidade, mas é a forma incorrecta. Tenta ser tu sendo por, não sendo contra, mesmo que seja só tua a visão das coisas e mais ninguém concorde.

Duarte Gonçalves disse...

Parte II

Quanto à discussão em causa, em tempos achei-la mais interessante. Agora não. Esquerda/Direita é um binómio política completamente desinteressante e ultrapassado para mim. E não haverá ninguém que me conheça que me indique como partidário de uma degenerescência política antidemocrática e antipluralista, tendencialmente unanimista, parafraseando a citação do Maltez. Há outras clivagens mais definitórias, como os colectivistas e os individualistas (embora recomende a ambos a leitura do Norbert Elias como uma boa problematização da questão e, talvez, ultrapassagem deste mesmo binómio). Na verdade, num regime liberal representativo, como é o nosso, ser-me-ia mais agradável ver Assembleias com os eleitos livres de disciplinas partidárias e afins e efectivamente a debater problemas e soluções. Prefiro o bom senso e o debate cândido às etiquetas e taxonomias. Haverá ideologias, sim. Muitas até. É pena é que já não se pense e se assuma que são ideo-logias, sistemas de ideias, encerrando uma determinada cosmovisão; mas sim, princípios irredutíveis, fundamentalistas e afins, que impedem qualquer prática que tenha uma semelhança - mesmo que mínima - com a democracia.
Do artigo recenseado, gostei das referências (surpreendido de ver Schmitt!), mas achei-o pobre em conteúdo. À parte dos lugares-comuns sem sentido - e, confesso, pelos quais não nutro grande interesse - (acusações políticas contextuais hedonistas, realistas, etc, não reconhecendo utopismo - não-lugar - em qualquer ideal tipo, como o delineado por Hobbes), e do tom meio inflamado-propagandista, o que realmente me desgostou foi algumas das palavras em inglês, nomeadamente expressões como "sobrevivência do mais forte", "árbitro", "borlismo", "trupe".

Notas finais para prolongar um pouco mais a divagação:
- Os direitos existem apenas onde existe Direito (ergo, sociedade, Estado, etc) e implicam sempre deveres. Não existe nada como "direito à diferença".
- Igualdade de oportunidades ou equidade existiria apenas se a dotação inicial de cada pessoa se justificasse somente por si e não pelo contexto em que se insere (merecimento). Tal não tende a apoiar a tese do direito inalienável de propriedade, algo que frustraria muito a referida autora.
Bem sei que desgostas de Mill (talvez porque seja liberal e não libertário), mas exorto-te a ler a sua argumentação. A ideologia não deve estar acima da logos, senão cessa a razão e a ideia. E o senhor J. Stuart Mill também escreve bem, o que é um bónus.

Grande abraço!

ps: veja-se que, depois disto tudo, até acabei por ter de dividir isto em dois... mais valia ter ficado em silêncio, como diz o outro

Lourenço Vales disse...

Deixa lá ver se eu consigo responder a tudo num só comentário. Respondendo também directamente:

- "a) Restrições à competição como, digamos, a proibição da escravatura voluntária?"

Não. Restrições à competição como por exemplo os taxis: bandeirada com preço definido pelo Min.Econ. e sujeitos a entrada restrita (muito limitada). A esta hora da manhã, é o exemplo mais caricato que me consigo lembrar. Ir buscar a questão da escravatura voluntária é ir logo ao extremo — não sejamos extremistas!

- Questão do liberalismo/libertarianismo/etc e o ponto 3

Aquilo que me ensinaram foram duas coisas:
1) Um liberal "antigo" (clássico) — Adam Smith, J.S. Mill, Locke, Say, Bastiat, Acton, Burke— distinguem-se dos liberais "modernos" — Rawls, Amartya Sen, Berlin, Rorty — porque a. muitas das lutas dos "antigos" já estarem resolvidas e b. uma maior ênfase na questão social.
2) Um libertário "antigo" — Proudhon, Thoreau, Faure, Bakunin — não é a mesma coisa que um libertário "modero" — Rothbard, Long, Nozick, Mises. Os primeiros eram essencialmente socialistas, os segundos nem por isso.

Implicitamente, e por achar que são as definições mais comuns (pelo menos, na minha cabeça, são; mas é muito culpa de discutir liberalismo com ingleses e libertarianismo com americanos), quando falo de liberais, falo dos antigos; e quando falo dos libertários, falo dos modernos.

E fazes uma confusão: mesmo que a progresso para os liberais clássicos esteja ancorado no Estado, não quer dizer que a política tenha que ser feito pela via partidária. Isso parece-me um salto lógico. E eu acho, sinceramente, que mesmo o liberalismo (e também o libertarianismo, certamente) não só têm a ganhar como, dentro da filosofia de cada um, não devem alinhar com os partidos. E é para aí que o ponto 3. aponta.

- Ad-homiens

Em minha defesa, fora só pontuais (conto 3, ao longo do texto) e só estão presentes porque estou a escrever num blog pessoal. Se me tiram o cinismo, tiram-me tudo ;-)

- Via negativa

Eu expliquei-me mal, parece. A via negativa é uma óptima forma para comunicar aquilo que eu sou. Eu sou o que sou e tenho perfeita noção disso; mas para evitar confusões, comunico o que sou dizendo o que não sou: já que não posso, por impedimentos temporais e de falhas minhas, explicar exactamente o que sou, acaba por se tornar mais atractivo e mais rápido explicar o que não sou. A utilidade é meramente de comunicação.

Quanto à parte II, deixo-a para quem lhe diz respeito.






Lourenço Vales disse...

Ah, uma coisa que me esqueci!

Acho o binómio esquerda/direita completamente abjecto e sem utilidade. Mas é óptimo para tentar chatear as pessoas que têm de facto uma ligação emocional ao termo.

Duarte Gonçalves disse...

Sublinho ("not without a sense of irony" e, acrescento, de picanço):
- afinal restrições sim, mas só algumas; concordo, o problema é os limites delas e, possivelmente, em boa parte concordamos;
- da tua distinção, aqueles a quem designas de libertários "antigos" (usualmente tidos por anarquistas), são claramente distintos dos liberais "antigos" (pela tua designação). Claramente, também assim ocorre com os "modernos". E podemos estar aqui a discutir o que têm em comum e de distinto, muito em ambos os campos, mas é aquilo do Aristóteles e do Platão e das notas de rodapé (com o qual con- e discordo, mas também não sou partidário de que a lógica dual/cartesiana se aplique a tudo). Em suma, libertário diferente de liberal. Pode ser o liberalismo uma referência do libertarianismo, sobre a qual esta corrente de pensamento constrói, em certa medida. Mas isso também ocorre com o socialismo e muitas outras correntes. Não advogo separações estanque e estritas - há uma interinfluência entre todas as correntes de pensamento -, mas é necessário reconhecer-lhes a devida diferença.
- Pensar que tem a ganhar não implica que seja uma sua característica (liberalismo). E eu não disse que terem-se socorrido do Estado implica política partidária. Eu delineei dois argumentos distintos: a) eles socorreram-se do Estado (até mesmo na formulação teórica da sua cosmovisão, com limites, bien sûr); b) os liberais foram os pais dos sistemas partidários e da sua conceptualização e justificação teórica. Isso não implica que todos os liberais sejam pró-partidos. Mas só pretendia matizar a tua perspectiva.
- Esquerda/Direita sobrevalorizada, check.
- Auto-identidade positiva: compreendo perfeitamente os teus problemas comunicacionais. Há demasiada confusão nos termos e, por vezes, encontra-se pessoas com as quais é difícil perceber e perceberem-nos (ou não o querem), sobretudo percebendo o que o outro quer dizer com y e discordar saudavelmente que seja esse o significado com que o termo y deve ser usado. Enfim, ninguém disse que era fácil. E, de facto, não é.
- Cinismo: touché.
Abraço!