domingo, outubro 20, 2013

Kant e as mulheres

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Eu não sou especialista no Kant, e provavelmente também não o serei relativamente às mulheres; até acho que percebo mais do primeiro do que das segundas. Mas às vezes não é preciso perceber muito do assunto para perceber quando algo não bate certo. Por exemplo: quando se diz que se consegue destruir a filosofia kantiana com "as mulheres".

A metafísica kantiana, a fundação de tudo que Kant escreve, tem duas bases fundamentais: as noções do tempo e do espaço. Sem me alongar muito, basta dizer que sem estas duas peças, não há Kant. Tudo o resto pode ser discutível, mas não é possível abrir mão disto. Como é que as mulheres podem deitar abaixo tal fundação? Ocorrem-me três possíveis respostas:
  1. Não podem.
  2. Polilogismos (a ideia que diferentes raças/sexos/classes sociais/etc obdecem a estruturas lógicas diferentes)
  3. Nenhuma das anteriores.
O prof. Pedro Arroja é óbvio defensor da segunda opção: 

A racionalidade de que a mulher faz prova para entrar num casamento é muito diferente da racionalidade de um homem - a primeira dirige-se ao espírito, a segunda dirige-se ao corpo. O Kant erra ao supor que existe apenas uma forma de razão e que esta é masculina - e, já agora, também universal -, e que mulheres possuem  racionalidade em grau muito inferior ao dos homens.

Eu, por mim, prefiro a primeira. Mesmo que até aceite que existirá algo diferente na maneira de pensar das mulheres, até fruto de diferenças biológicas, duvido muito que isso seja referente às estruturas lógicas da mente; e o que Kant diz (i.e., que todas as pessoas têm uma noção de espaço e tempo, e que há coisas que toda a gente sabe — como regras da lógica simples) aplicar-se-á de igual modo a homens e mulheres. Mas isso sou eu, que não sou casado e não percebo nem de Kant nem de mulheres.

E em jeito de brincadeira, não percebo o ódio do prof. PA ao Kant. Não casou, não teve filhos, nunca saiu da sua terrinha? Ora, parece o Salazar.

terça-feira, outubro 08, 2013

Um post sobre o estado do estado

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Right of the bat, faço uma declaração de interesses. Não sou a favor do estado social: embora acredite que a intenção das pessoas que o promovem seja boa, não acho que seja uma instituição que promova justiça dentro da sociedade. Pronto, ainda bem que tiramos isto do caminho.

No entanto, não consigo mesmo deixar passar em claro certas coisas. Uma delas é clientelismo, corrupção, rent-seeking, e demais doenças que afectam o estado — se bem que é bem provável que não sejam bugs, mas sim features. A outra é a tentativa de branqueamento de medidas execráveis usando a desculpa da "reforma". Ambas estão relacionadas, mas coisa de cada vez.

Porque é que a primeira é uma coisa que não se deve deixar passar em claro? Pela simples razão de que se há coisa que me aborrece mais do que ser injusto com "boas intenções", é promover injustiça com "más intenções". Cobrar impostos para enriquecer uma casta de plutocratas, puro e descarado nepotismo, é roubo puro e duro. É usar do poder coercivo do estado para se enriquecer. Não há desculpa, não há justificação, não há razão. A diferença entre o ditadorzeco no terceiro mundo que faz o que bem lhe apetece com os recursos (naturais e humanos) de um território, e aquilo que se vê em certos e determinados países, é uma mera ilusão; a essência está lá. Violência, coerção, roubo, mas num caso não tem o sugar coating de ser um estado moderno, com o primado da Lei, separação de poderes, uma constituição, e preocupações sociais. No entanto, essas coisas não adiantam de muito quando se continua a alimentar uma classe de parasitas.

Obviamente que por certos e determinados países se pode perfeitamente ler Portugal. Portugal tem essa casta de parasitas bem alapados no "sistema". Podem chamar-lhes "deputados da AR", podem chamar-lhes "empresários do grande capital", podem ser "funcionários públicos", "subsídio-dependentes", etc. Estão um pouco por todo o lado, em todas os estratos sociais, em todos os brackets de IRS. Seja através de uma ou outra (ou várias) PPP, de alguns bailouts, de manutenção de privilégios (seja em salários, subsídios, ou géneros — carros, motoristas, empregadas de limpeza, comida grátis), ou de excepções selectivas a dadas regras. Claro que todos essas benesses estão investidas de uma grande utilidade para a sociedade, e são portanto invioláveis. O beneficiário ao lado é que não merece mesmo o que recebe. Eu, qua beneficiário, mereço. 

Não me parece que esteja a afirmar algo particularmente controverso quando digo que estas "coisas" têm que acabar. Sejam as centenas de institutos, os carros topo de gama para tudo quanto é senhor ou senhora com um cargo mais ou menos importante, sejam os "contratos blindados", as despesas em festarolas, comidas de luxo, deslocações "de serviço", a socialização dos prejuízos de certas e determinadas empresas de alguns sectores estratégicos da economia, algumas (*cof*quase todas*cof*) empresas públicas. Não dá mais, algo tem que mudar. E sim, estas coisas vão provocar desemprego, vai-se diminuir o rendimento de famílias, vai haver dramas. Pois vai, sim senhora. Mas, pergunto: para evitar os dramas desta casta de privilegiados, vale a pena continuar a massacrar continuamente todas as restantes pessoas? Ofereço a minha resposta: não.

No fundo, tudo isto se resume bem dentro de um conceito muito batido que é o da "reforma do estado". O estado precisa de ser reformado, transformado, revigorado, tornado mais justo, mais eficiente, mais sabe-se lá o quê; desde que não fique assim, parece que tudo cabe na "reforma do estado". Na minha opinião, a reforma de estado é necessária: ele, estado qua monstro, tem de se acometer a um papel consideravelmente mais passivo. E ofereço a minha sugestão para começar: comecem por arrumar com aquela classe de privilegiados, parasitas, de quem falávamos ali em cima. Não é nada de particularmente extraordinário o que eu digo, acho. 

No entanto, há certas ideias que me deixam absolutamente piurso. Por exemplo, que quando os exemplos de coisas absolutamente supérfluas e desnecessárias na sociedade (o rui a. oferece aqui um exemplo engraçado, com o qual concordo), venham dizer que cortar pensões de sobrevivência cabe dentro da "reforma do estado". Permitam-me a analogia: é como uma pessoa com excesso de peso a dizer que vai cortar nas 3 bolas de berlim que come por mês com o intuito de emagrecer, mas depois continua a atafulhar-se de fast food todos os dias. Não computa.

Eu gostava de ter uma reforma do estado. A sério que gostava. E também gostava que, de facto, o estado não tentasse andar a redistribuir riqueza como se nada fosse. Que não tivesse centenas de milhares de funcionários. Que, se existisse, não fosse um empecilho na vida das pessoas. Mas, quando temos tanta coisa sem ponta por onde se lhe pegue, é absurdo começar por estas coisas. Não é saudável, não ajuda nada nem ninguém, só promove um sentimento de injustiça e revolta em quem não tem propriamente culpa (pelo menos, não culpa activa) na situação em que se vêem metida.

Se é preciso cortar nas pensões? Provavelmente, sim. Não fiz as contas — duvido que seja possível fazer as contas com antecedência, há demasiada incerteza aqui pelo meio — mas o mais provável é que o actual sistema de pensões não seja sustentável. Se se deve começar pelas pensões de sobrevivência, ou pelas pensões de quem realmente descontou e merece reaver o seu dinheiro, quando temos tanta, tanta coisa que se pode mudar? Não, também não. E querer misturar isso com deixar falir BPNs ou cortar com as PPPs ou acabar com institutos, fundações, e demais, é ser desonesto.