domingo, novembro 24, 2013

O mercado dos livros

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Portugal é um país muito estranho. Simultaneamente óptimo e péssimo. A distância que tenho tido do dia-a-dia em Portugal, bem como as minhas tentativas de explicar o que "é" o país a estrangeiros (vamos dizer assim: a ontologia de ser português*) fazem-me ver isto melhor. Hoje, podendo, vou-me dedicar a explicar um pouco da parte péssima. 

Pelos vistos (contaram-me), está a existir mais uma daquelas polémicas muito engraçadas entre a FNAC e a Bertrand, e os "livreiros independentes". Tudo porque parece que as duas grande cadeias não estão a respeitar a "Lei do Preço Fixo". Hm, conceito interessante. Após uns minutos no Google, acabei por me aperceber o que é a "Lei do Preço Fixo". O texto do decreto-lei, que encontrei no site da APEL, começa assim:

O livro tem sido o instrumento privilegiado de natureza cultural e educativa propiciador da formação das pessoas. Esta função eminente permitiu sempre que ao livro não se aplicassem, de um modo redutor e simplista, as regras normais vigentes e adequadas ao comum produto económico.
A prosa continua por aí fora. Mas a ideia que uma pessoa obtém ao ler isto (aquilo que os ingleses chamam o gist) é clara: por detrás de uma enternecedora preocupação relativamente à importância que o livro tem enquanto objecto de formação da sociedade, podemos encontrar uma não tão comovente preocupação em proteger os livreiros das forças do mercado. Porque no fundo é o que isto é: uma lei que fixa um preço de um produto durante um dado período de tempo. 

Reparem que o livro, tão fundamental que é para a formação de um bom cidadão, não pode ter um preço diferente (e, neste caso, quer dizer mais baixo) do que foi tabelado. Se a FNAC ou a Bertrand decidem baixar o preço de um livro, tornando-o de facto mais acessível às pessoas, estão a cometer um crime. O objectivo não é proteger e formar o cidadão; o objectivo é proteger um dado conjunto de pessoas (leia-se, neste caso, os livreiros). Porque, reparem, não queremos que se apliquem "as regras normais vigentes e adequadas ao comum produto económico." Desenganem-se as pessoas que pensem que baixar o preço de um produto, e por conseguinte que as pessoas tenham maiores possibilidades de acesso a esse produto, possa ser considerado algo de bom. Não queremos que as regras normais vigentes e adequadas ao comum produto económico se apliquem. Não queremos que mais pessoas leiam livros, na verdade. Queremos garantir uma dada ordem das coisas.

Claro que consigo antever que me dizem que os livreiros independentes merecem ser protegidos face às estratégias de preço predatórias praticadas pelas economias de escala que as grandes superfícies conseguem praticar. Se não se proteger estas pequenas superfícies então, reza a lenda, estamos a caminhar para uma massificação de um produto que merece ser estimado. Um livro não é simplesmente um meio para transmitir uma ideia. É toda uma experiência: o cheiro, o prazer de virar as páginas, passar tardes e tardes em velhos alfarrabistas a inalar o odor a livros velhos e a descobrir a primeira edição daquele livro do Pynchon.

E não há nada de mal nisso. Mas, pobres de nós, comuns mortais: eu prefiro ler. Se compro o livro na Almedina ou um ebook na Amazon (o crime! a desmaterialização do livro, c'orror), é-me um pouco indiferente. A mim, o que me dá prazer, é ler aquelas passagens fantásticas do Dostoievski, não o facto de ter na mão um livro em decomposição. E quanto mais barato for o livro, melhor: as edições da Wordsworth Editions, com livros a 2 e 3€ (que, nas edições normais, ficariam algures entre os 20 e os 40€) fizeram mais pela minha educação literária do que todas as leis do mundo. 

E, no fundo, é um pouco isto o ser português: encapotar algo idiota numa mantra de chavões bonitos com que toda a gente concorda. Para depois, se nos revelarmos contra a Lei do Preço Fixo do livro, poderem dizer: "Mas tu não acreditas que o livro tem sido o instrumento privilegiado de natureza cultural e educativa propiciador da formação das pessoas?". Acredito, sim. Mas também acredito que livros baratos chegam mais facilmente às pessoas do que livros na livraria X ou Y. Por muito que goste de ir visitar a Lello.


* Toda a gente sabe que se não se incluem frases pomposas a meio do texto, tudo deixa de fazer sentido.

domingo, novembro 03, 2013

O paradigma e a Economia

1 comentário:
A quote que coloquei no último post e que pertence ao Thomas S. Kuhn podia bem servir de introdução a este post, mas não o fiz porque acho que é importante o suficiente para merecer o destaque. Leiam-na com a devida atenção. Se o fizerem, acho que são perceptíveis duas coisas: segundo Kuhn, há duas condições para que exista uma mudança de paradigma¹: 1) que as pessoas se apercebam que o paradigma deixou de servir a sua função; e 2) que exista uma alternativa. 

Mesmo que se possa discutir ou não se o que há agora é uma "ciência económica", a verdade é que existe um paradigma, que representará a ortodoxia dentro da profissão: uma dada maneira de olhar para o mundo partilhada por uma maioria das pessoas que trabalham naquele campo. Na Economia, claro, isso representará aquilo que vai sendo demonimado como "economia neoclássica", apesar de não sempre bem explícito ou claro o que é que essa "economia neoclássica" representa hoje em dia.

Que essas práticas que representam o paradigma da profissão estão, a nível externo, mais ou menos desacreditadas face a, por um lado, acumulação de anomalias e, por outro, um descrédito enorme da "ciência" (ambos estão relacionados, apesar de não serem necessariamente a mesma coisa). A nível interno a história é diferente: se a maior parte dos economistas até poderá reconhecer que algo vai mal na terra das maximizações de utilidade, por poucas cabeças passará a ideia de mudar o status quo. Mas porquê?

Eu acho que dá para perceber pela citação do Kuhn o porquê de tal acontecer: a resposta é que ainda não existe/surgiu uma alternativa credível. E agora, os leitores mais atentos deste blog poderão agora perguntar: "Mas e a escola austríaca?". A escola austríaca, para mal dos nossos pecados, não parece configurar uma alternativa, do mesmo modo que outras escolas de pensamento heterodoxo não o fazem. Mas seria interessante tentar perceber porquê, e se há soluções para o problema — e é isso que hei de fazer nos próximos posts. Se calhar, basta esperar que os actuais economistas morram.


¹ A palavra "paradigma" é problemática, bem o sei; no entanto, para o efeito, acho que serve se for entendida como um conjunto de técnicas para resolver um dado conjunto de problemas, não haverá nenhum problema em especial.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Filosofia e Economia (III)

1 comentário:
Let us then assume that crises are a necessary precondition for the emergence of novel theories and ask next how scientists respond to their existence. Part of the answer, as obvious as it is important, can be discovered by noting first what scientists never do when confronted by even severe and prolonged anomalies. Though they may begin to lose faith and then to consider alternatives, they do not renounce the paradigm that has led them into crisis. They do not, that is, treat anomalies as counterinstances, though in the vocabulary of philosophy of science that is what they are. In part this generalization is simply a statement from historic fact, based upon examples like those given above and, more extensively, below. These hint what our later examination of paradigm rejection will disclose more fully: once it has achieved the status of paradigm, a scientific theory is declared invalid only if an alternate candidate is available to take its place.

[Thomas S. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, 1962 (1996), p. 77]