domingo, fevereiro 23, 2014

As greves como força de progresso

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Os conflitos laborais são um problema. E como problema que são, convém serem resolvidos. A estratégia normal, especialmente ao nível colectivo, passa por negociação e, caso esta falhe, pela realização de uma greve. A greve é um dos instrumentos de `luta' por parte dos trabalhadores, uma forma de equilibrar uma balança de poderes que pode estar desequilibrada para favorecer a entidade patronal. A instituição da greve está bastante ligada às diversas lutas pelo progresso e melhoria das condições de trabalho do `proletariado'.

Não acho que exista algo de fundamentalmente errado com a ideia da greve. Pode discordar-se se determinada greve tem razão de ser; mas desde que dentro de algumas regras de civilidade básicas, são um instrumento válido de `luta'. Ou seja: para resolver o problema dos conflitos laborais, a greve pode ser uma solução. No entanto, preocupa-me um pouco que seja muitas vezes encarada como solução única para um problema complexo. Sempre desconfiei de quem me dizia que só há uma maneira de resolver um problema; foi por isso, por exemplo, que comecei a procurar alternativas à teoria neoclássica — o problema da `economia' não terá uma solução única, mas mesmo que assim seja, ela não estará naquele paradigma.

Daí a minha preocupação. E daí que acredite que seja possível pensar em algo diferente. Não necessariamente algo que vá resultar ou que seja melhor. Mas acho que um pouco de abertura de mente não faz mal a ninguém.

Mas permitam-me um interlúdio, para que se possa perceber melhor: eu acredito que a economia (enquanto conjunto de trocas de bens entre pessoas e demais relações que se estabelecem entre eles)  funciona e evolui através de um processo de criação de valor. Isto não quer dizer que seja sempre assim (i.e., realizam-se trocas que não acrescentam valor), mas esta parece-me ser uma boa heurística para pensar neste fenómeno.

O que é que quer dizer criar valor? Olhando para Portugal, e pensando em algo que tenho lido com algum interesse, significa o sector do calçado ter deixado de competir com quem fabrica calçado barato e de baixa qualidade, e passado a ombrear com os produtos de mais alta qualidade que se fazem por esse mundo fora. Sim, perde-se volume, mas não quer dizer que se perca receita: afinal de contas, um produto melhor tenderá a ser mais caro. Competir em preço é uma estratégia do século passado. 

Competir em qualidade, neste momento, parece-me ser, de modo geral, a melhor estratégia. Sim, uma empresa pode competir em preço. Há empresas que se saíram bem assim. Mas o problema que isso acarreta é que, quando se compete em preço, é o preço que interessa no momento em que o consumidor/cliente/pessoa faz a decisão (trivial, eu sei); basta aparecer algo ligeiramente mais barato e de qualidade similar para distorcer os padrões de consumo. Quando há um exército de empresas que são capazes de fazer o mesmo que a "minha" empresa, é duvidoso que me vá aguentar muito tempo numa posição saudável.

Para fazer produtos de qualidade, contudo, é preciso mão de obra de qualidade. E, incrivelmente, e nos mais inóspitos sectores, essa qualidade existe. Porque não é só a escolaridade que interessa para saber fazer, mas anos e anos de experiência acumulada go a long way. Seja no textil, no calçado ou na agricultura. Pessoas que até podem ter dificuldades a nível de pensamento abstracto ou nem saber o que é um Riemannian manifold. Ou ler com fluência. Mas que têm um know-how sobre um dado assunto que supera qualquer curso superior numa dada área. E este tipo de conhecimento é completamente desvalorizado.

But I digress. O ponto é: se o problema dos conflitos laborais existe, não tem que ser resolvido sempre com recurso à (ameaça de) greve. Eu gostava de pensar que é possível algo diferente. Às vezes gosto de pensar que é possível haver um problema que pode ser resolvido pela `positiva': em vez das situações que encontramos vezes e vezes sem conta de conflitos laborais, ver patrões, sindicatos e trabalhadores sentados a uma mesa e que cheguem a um consenso sobre criação de valor. Porque criar valor tem todo o potencial para beneficiar todas as partes. Porque criar valor não é necessariamente fazer mais, mas sim fazer melhor. E, sim, são coisas diferentes.

Gostava de ver as partes sentadas à mesa e a chegar a um acordo: vamos fazer uma greve diferente. Em vez de paralisar produção, vamos estar duas semanas a fornecer um `novo' produto. Em vez de ténis de baixa qualidade, vamos fazer ténis de alta costura. Em vez de produzir 300 toneladas de pêras que qualquer zé pode produzir, produzem-se 100 toneladas de pêras de excelente qualidade que se vendem por 4 vezes o preço.

Sim, estou a pensar em coisas que dificilmente são implementáveis. Mas a ideia geral é simples: experimentar. Se uma empresa mudar a sua estratégia, onde os trabalhadores façam `mais' (não necessariamente em número de horas trabalhadas) e melhor, onde recebam melhor e sejam valorizados pelas suas competências (porque as têm), onde o produto oferecido está mais adequado as necessidades dos clientes, onde se vende um produto de qualidade com uma história por detrás, então talvez todas as partes fiquem a ganhar. É possível, certamente.

Não só vejo as dificuldades na implementação, como igualmente na aceitação. Basta ouvir um pouco do que se diz por aí (seja pelos tudólogos da praça ou gente comum na rua). A ideia de que patronato e trabalhador têm que estar em constante conflito — e é essa permanente `luta' que caracteriza a relação laboral assalariada, segundo consta — está bastante enraizada. E é normal que quando digo que pode ser possível chegar a uma situação de acordo em que ambas as partes saiam melhor do que numa situação de ruptura-conflito, seja acometido com alguma estranheza/hostilidade/desconfiança. Daí que às vezes seja saudável manter uma mente aberta.

Mas seria bom poder tentar algo diferente, pelo menos. Acho que não teríamos muito a perder. A não ser que estejamos mais investidos na ideia de luta do que na de progresso.

domingo, fevereiro 09, 2014

Ética libertária, entre Rothbard e Hoppe

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Como primeiro post do ano, nada melhor do que debitar aqui um artigo que escrevi no âmbito de uma cadeira do mestrado que ando a frequentar. Terá certamente uma ou outra gralha, e deixa algumas ideias soltas (limites de palavras, eh), mas penso que poderá ser interessante para quem gosta destas coisas.