segunda-feira, abril 28, 2014

Um aniversário que não vale a pena celebrar.

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Não deixa de surpreender que, 40 anos depois, o pronunciamento militar que terminou um regime com 48 anos ainda suscite tanto levantamento popular e tanta reverência, estando, como estamos, no meio de uma das maiores crises económicas e sociais da história lusitana recente. Surpreende porque além de ter terminado um regime, fundou outro, e apesar da crise económica e social gravíssima, não parecem haver indícios de crise política.

Existe, naturalmente, descontentamento, por vezes virulento, com a classe política. Mas esse fenómeno não é propriamente novo. Faz parte da narrativa nacional desde os regimes representativos da monarquia e foi estabelecido, sem grandes adendas desde então, pelos desenhos de Bordalo Pinheiro e pelas Farpas de Eça e de Ramalho. É difícil encontrar um periodo da nossa história em que os políticos (a partir do momento em que o acesso à política deixou de ser um acidente de nascimento) não fossem vilificados e vistos essencialmente como oportunistas, usando o Estado para benefício pessoal e dos amigos. Claro, nos 48 anos de Estado Novo, tal inclinação teórica era recompensada com visitas regulares a Peniche. E, além disso, não havendo rotatividade no poder, também era espúria a acusação da mudança das moscas. A análise, diga-se, não está errada. Sucede que também não contribui para a desacreditação de um regime, somente dos seus protagonistas do momento.

Em 74, mesmo sem a mudança das moscas, a guerra e a pobreza e atraso generalizados do país, levaram à queda do regime. Hoje, não temos guerra. Mas temos, porque nunca na verdade deixámos de ter, um atraso em relação à Europa e uma pobreza cada vez mais generalizada, onde a ascenção social é feita quase exclusivamente à conta do Estado.

A verdade é que, apesar do facto inegável da nossa pobreza, ninguém, da esquerda, da direita ou do centro, põe em causa o regime fundado pelo 25 de Abril. Custa-me a acreditar que alguém no seu perfeito juízo ache que a pobreza é um destino natural e inevitável. Portanto, o apoio ou resignação ao regime não é uma resignação à pobreza. Em larga escala, o povo ainda deve acreditar que o regime os pode tirar da penúria.

É certo que, tirando as alas mais anacronistas e cegas da esquerda, se põe em causa o PREC. Mas isso deve-se ao facto de que o regime não foi fundado por ele. Sim, o PREC incomodou algumas famílias, mas foi o pós-PREC que criou através do PS e do PSD novos oligopólios onde antes haviam outros. Os protagonistas do corporativismo indígena mudaram certamente com muita ajuda do processo revolucionário, mas a 25 de Novembro de 75 e a 25 de Abril de 2014 o corporativismo continua, largamente, intacto e como paradigma lusitano.

O que define a manutenção de um regime político é a inclinação ideológica da maioria. Com ruputura ou sem ruptura, o Estado Novo iria transformar-se na Terceira República, socialista, corporativista e democratizada. E essa inclinação ideológica que acabou com o antigo regime é a mesma que ainda sustenta o novo. A guerra acelerou o fim do regime, e o 25 de Abril acabou com ambos, como teria necessariamente de ser. Mas o que se celebra todos os anos há 40 anos não é o fim da guerra, é a fundação do novo regime, em que ainda, penosamente, vivemos.

As conquistas de Abril estão à vista, apesar das queixas choramingas da esquerda, e o que realmente se está a perder não são as conquistas, é o dinheiro para as sustentar. Geralmente, quando o dinheiro acaba, o povo revolta-se. É indiscutível que nestes 40 anos houve algum progresso, o absolutamente essencial, digamos, para fazer parte da Europa. Mas começa-se a ver já um retrocesso. 40 anos, aparentemente, não é suficiente para perceber essa inevitabilidade.

A mudança, antes de acontecer na práctica, tem de acontecer na cabeça das pessoas. Tudo indica que ainda vá demorar.

quinta-feira, abril 10, 2014

Portugal: uma relação de ódio-amor-ódio-ódio

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Para efeitos desta mensagem, interessa provavelmente um pouco do contexto. Tenho 22 anos, tenho uma licenciatura em Economia numa boa faculdade, e estou há coisa de 6 meses na Holanda a continuar os estudos. Não vim porque fui obrigado — no sentido em que o país "não me dá oportunidades"; vou porque quero: já desde os 15 ou 16 anos que o meu objectivo era sair do país, primeiro logo na licenciatura (e no sentido em que me mudei do Porto para Lisboa, esse objectivo foi parcialmente conseguido) e mais recentemente no mestrado (e como vim para a Holanda, parece que consegui totalmente). A razão de isto acontecer não tem muito que ver com as condições conjunturais do país: em 2007 o país ainda vivia nos bons tempos do "vamos-construir-um-tgv-4-pontes-sobre-o-tejo-um-aeroporto-em-cada-capital-de-distrito-e-quiçá-na-amadora-e-em-gaia" que iria elevar a economia para todo um novo patamar de desenvolvimento; mas, ainda assim, só tinha vontade de sair.

Nunca me senti Português. O país nunca me deu motivos de orgulho — e mesmo que desse, também duvido que fosse ajudar muito a mudar esta sensação. As coisas que encontrava e que me agradavam eram coisas locais: as relações de proximidade com as pessoas (família e amigos), uma ou outra passeata, uma ou outra saída à noite, and so on and so forth. Nada do que me era inculcado (e peso bem o termo) como motivo de orgulho para me aproximar da Nação resultava porque faltava o sentimento de pertença. E quando eu percebi, quando comecei a ter noção, quando comecei a ter um leve entendimento do que era o país, comecei a reforçar esse sentimento (ou a falta dele). Quase tudo o que acontecia à minha volta parecia ser mais ou menos contra aquilo que eu achava natural, como deviam ser as coisas.

Claro que em muitos aspectos me podem dizer que sou Português. Para todos os efeitos, nasci em território nacional; vivi no país toda a minha vida, exceptuando agora esta interrupção; tenho hábitos, fui aculturado, e geneticamente não serei muito diferente de muitas das pessoas de quem sinto, à falta de melhor termo, repulsa (não por nojo, mas por querer distância). Sei o Hino Nacional, procrastino com demasiada facilidade, odeio de morte (e de modo completamente irracional) Espanha, sou algo desorganizado e tenho-me em melhor conta do que aquilo que realmente sou (o que leva àquele pensamento irritante do "se eu me tivesse esforçado, tinha consigo mais/melhor; eu é que não estive para me chatear" — era quem me desse um tiro numa perna por cada vez que tive este pensamento). 

E, ainda assim, odeio Portugal. Odeio Portugal. Odeio a imagem que construí de Portugal, odeio com força variável as realidades que vivi em Portugal (foram 3, bastante diferentes, em Penafiel, no Porto, e em Lisboa), odeio muitas das pessoas com as quais convivi nessas situações, quer individualmente quer nas suas "dinâmicas grupais", odeio muitas das noções que se inculcaram nas cabeças de muito boa gente, odeio uma data de coisas.

E, no entanto, adoro algumas coisas. A cozinha, claro; e o café, ah, o café; a cidade do Porto, e muitos pequenos lugares espalhados algures entre Douro e Minho;  a casa dos meus pais, a casa dos meus avós (de ambos os lados), a aldeia e a envolvente onde cresci e vivi a maior parte da minha vida, ir pontualmente à praia num dia em que não esteja lá muita gente, os meus pais (que infelizmente por Portugal insistem em ficar).

E ainda assim odeio com mais força tudo o resto. Odeio com mais força aquele sentimento "holier than thou" que pulula em muita gente nos meios por onde andei, irritante até mais não em gente oca até ao tutano; odeio com igual força uma falsa modéstia, ignorância de fachada, que muita gente da ruralidade toma quando fala com pessoas que acham "superiores". Odeio ainda mais a jóia nacional do desenrascanço: por amor da santa, se há coisa que não devia haver orgulho absolutamente nenhum era em conseguir pensar em más soluções para resolver problemas simples; façam é o trabalho bem feito, do início ao fim. Fico piurso com atitudes da mais completa desresponsabilização que vejo a acontecer nas mais variadas situações ("não sei o que se passou", "não fui eu que mexi", "pergunte à Mariazinha", "não vou poder ajudar, apesar de ser suposto, porque tenho mais que fazer"). Com a mania das pessoas se meterem na vida alheia. Com a letargia. Com pessoas que acham que fizeram alguma coisa mas que em nada ajudaram a solucionar o problema. 

E não posso, mas é que não posso mesmo, com a completa incapacidade das pessoas de reconhecerem que estão erradas. Seja por "finca-pé" ou uma completa incapacidade de seguir um raciocínio. Ou de desligarem, por 5 segundos que seja, uma reacção única e exclusivamente emocional quando se ouve "isso não está bem feito", "não concordo", "acho que está errado", etc. Se há coisa que raramente vi num português é a capacidade de desligar a ideia da emoção: dizer "isso está mal" parece equivalente a "és uma trampa".

Claro que estou a ver a reacção: "tu não és melhor do que aquilo que descreves", "eu conheço portugueses que não são assim", "lá fora não é melhor", "tens 22 anos, por amor de deus, que sabes tu sobre a vida", etc. E, de facto, a primeira objecção será bastante válida; a segunda é idiota porque isto não é uma hipótese científica à espera de falsificação; a terceira ainda mais idiota é porque não estou a fazer uma comparação, estou a avaliar Portugal; e a última volta a ser bastante válida. Mas não deixa de ser a minha experiência.

Ainda assim, voltarei a Portugal. Tudo indica que vou viver lá a maior parte da minha vida. Não por amor ao país, mas porque quero, tal como quis sair de lá, visto precisar de respirar — e há já muito tempo que nesta latrina que é Portugal o ar se tornou irrespirável (coisas boas em Portugal: Mão Morta). Porque, tendo muita sorte de ter nascido na família em que nasci, tive o azar de ser português. De viver nesta permanente contradição. Se há coisa que me apercebi ao viver fora de Portugal é precisamente dessa contradição. Porque todos os portugueses que conheci no estrangeiro parecem melhores do que praticamente todos os portugueses que conheci em Portugal, mas ainda assim poucos são os que não preferem viver rodeados dos seus compatriotas.

Sou sincero. Viver em Portugal, especialmente nas grandes cidades (Porto, e acima de tudo Lisboa), faz-me encolher o coração. Cada vez que se ouve as notícias, só desgraças. Nada de bom acontece no país. Mesmo havendo milhares de coisas boas para falar sobre o país. E eu nem sequer acredito que deva existir um esforço para falar das coisas boas, para levantar a moral, mézinhas do "pensar positivo". Basta que as pessoas se calem um bocadinho.

E é isso que faz falta em Portugal: silêncio. Em bom inglês, shut the fuck up. Pensar antes de falar. No discurso político, naquilo que se diz em comentários nos mais variados assuntos e que a imprensa publica, nas manifs, naquilo que se ouve no café. Não, não é preciso estar calado todo o tempo. Não, não quer dizer que se vá chegar a uma conclusão diferente (apesar de eu achar que sim). Não, isso não ensina as pessoas a pensar. Não, isso não vai mudar a natureza emotiva e impulsiva que tão bem caracteriza o autóctone. Mas vai dar um bocado de paz de alma a quem quer fazer algo com a vida.

Portugal tem pessoas maravilhosas, com ideias fantásticas, que não se importavam de carregar o mundo dos outros às costas para tornar esse mundo um lugar melhor. Contudo, essas pessoas não se vêem, sentem, ou ouvem. Porque são a maior minoria, e mais oprimida. Sim, opressão. Deixem lá trabalhar quem quer trabalhar, deixem lá as ideologias cegas, os comunismos e os liberalismos. Confesso: o estado do país é tão mau que eu, libertário empedernido, quero lá saber se se cobram impostos ou não, ou se os impostos são 30 ou 40%. Gostava era de poder viver a minha vida em paz. Se depois é possível cobrar menos impostos, ainda melhor. Mas ao menos que as coisas funcionem decentemente. Que não tenha que levar com as lutas de poder pelo controlo do aparelho estatal sempre que quiser fazer algo. Que não seja obrigado a arrastar processos em tribunal porque, sei lá, o nosso código civil é uma aberração do tempo da outra senhora. Que a máquina do estado, pelo menos, e não peço mais que isso, seja o menos dolorosa possível. Se há ferramenta que serve bem para oprimir pessoas, é o estado. Chegou ao ponto em que eu já nem peço pureza ideológica, mas simples pragmatismo. E não, isto não é uma implícita mensagem anarco-capitalista, mas parece-me simples bom senso.

Acho que é isso que também faz falta em Portugal. Bom senso, especialmente a nível colectivo — e a nível individual, talvez, quem sabe. E o bom senso diz-me que já chega.