sexta-feira, maio 23, 2014

Vai bater àquela porta (II)

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Eu gosto dos Mão Morta. Eles são, para mim, a melhor banda a nascer em solo português, bar none. Pelo menos, são a que mais me diz. Cheguei ao ponto de arriscar passar por mentecapto e até gastei dinheiro para ir a concertos deles. E, cá para mim, o Rui devia adorar a Lisboa (Por Entre as Sombras e o Lixo), que cria uma imagem sobre aquela cidade que não é nada... agradável (suponho que seja isto a tal parte parte do bairro alto e da sarjeta).

Dito isto, a carreira recente deles é-me indiferente: o Nus* passa-me ao lado, gosto de ouvir o Maldoror, já o Pesadelos em Peluche é meh, e nem sei se vou ouvir o álbum mais recente. Sim, a julgar pelo videoclip e respectiva música, não nutro muita expectativa sobre as restantes músicas que irão aparecer no Pelo meu relógio são horas de matar .

Mas precisamente por conhecer mais ou menos bem a carreira dos Mão Morta é que me faz um pouco de espanto este celeuma colectivo em torno da videoclip e das letras da nova música. O Rui pergunta: "Isto tudo deixa, no entanto, a pergunta: por trás do marketing, estará um genuíno apelo à violência ou apenas uma peça de arte provocatória?". Primeiro, tenho as minhas dúvidas que o marketing tenha sido assim um factor de decisão na forma como o, chamemos-lhe, processo criativo decorreu; mas, suponho, pode ter sido algo a passar pela cabeça de algumas pessoas na editora, e isso aceito. Ainda assim, tenho ainda mais dúvidas que seja um "genuíno apelo à violência"; precisamente porque é uma "peça de arte provocatória".

Se há coisa que eu gosto dos Mão Morta é a forma como a música reflecte bem a "paisagem" sobre que o Adolfo Luxúria Canibal "canta" (sim, entre aspas). Pensemos na Anarquista Duval, na Barcelona (Encontrei-a na Plaza Real)Maria, Oh Maria, e por aí fora. E se aquilo que transparece desta combinação é (quase sempre) essa provocação. Bófia, do O.D., Raínha do Rock and Crawl: «O bófia empurrava-me e dizia para desandar. Eu não podia compreender porquê. Quis-lhe perguntar. O bófia sacou do casse-tête e deu-me com ele uma, duas, três vezes nos costados.» O desafio constante à autoridade, ao status-quo, àquilo que devia ser dito sobre algo, é Mão Morta, sempre foi. Arte provocatória. O Anarquista Duval suprime a lei em nome da liberdade, nunca esquecer.

Toda esta polémicazita sobre os Mão Morta é típica num país que nunca quis perder tempo com as coisas importantes (o que me vale é que tenho demasiado tempo livre). Entretanto, o Adolfo continuará com a sua vida, e se lhe apetecer, pode ser que os Mão Morta voltem a fazer boa música. No entretanto, sempre irrita alguns papalvos pelo Terreiro do Paço, e isso já não é nada mau.

* lê-se "nós"

quinta-feira, maio 22, 2014

Vai bater àquela porta.

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O novo video dos Mão Morta tornou-se viral, no sentido em que a sua estupidez contaminou quem viu o video e gerou uma polémica. Porquê? Silly season, that's why. 

Primeiro, como já muita gente apontou, a temática da banda sempre andou entre o bairro alto e o bairro social, ou seja, na sarjeta. Isto incomoda-me tanto como ao próximo, mas lido com o assunto da forma admitidamente original de não ouvir os discos da banda e ignorar, quando não surgem polémicas, os videos relacionados.

Em segundo lugar, os Mão Morta partilham com os outros "artistas" da esquerda caviar um extraordinário e irónico talento para o marketing, e este video, nesta altura, é uma óbvia, e não especialmente inteligente, tentativa de lucrar, literalmente, com o descontentamento. Dado que a maioria dos portugueses os ignora com cósmica justiça, os Mão Morta não geraram este descontentamento. Usam-no, dentro dos limites da constituição. Com sorte e algum mérito, talvez levem mais uns mentecaptos a comprar bilhetes para os ouvir. E bem vistas as coisas, nesse aproveitamento do descontentamento, não fazem nada de diferente dos partidos da oposição, embora de forma menos musical.

Isto tudo deixa, no entanto, a pergunta: por trás do marketing, estará um genuíno apelo à violência ou apenas uma peça de arte provocatória? 

Na minha modesta opinião, nenhuma das duas. É só uma parvoice. A parvoice pode incitar pessoas à violência? Pode. O governo é culpado do mesmo. Pessoalmente, parece-me mais que incite alguém ao suicídio.

A arma do Adolfo Luxúria Canibal é certamente menos letal que a sua música.

quinta-feira, maio 15, 2014

A propósito do Voteman.

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Apesar da qualidade cómica do video, a mensagem do mesmo, se existe, é difusa.

Afinal, o que é que o Voteman representa? Uma crítica à abstenção e à indiferença? Uma crítica ao peso da UE nos destinos dos seus membros? Uma simples tentativa de levar os jovens a votar nas eleições europeias? Uma crítica aos idiotas que pretendem instituir a preciosidade liberticida do voto obrigatório? Um apelo disfarçado a essa preciosidade? All of the above?

O video foi encomendado e publicado pelo parlamento dinamarquês e, apesar de todas as hipóteses acima serem, em teoria, possíveis, o mais provável é mesmo que seja uma simples tentativa de levar os jovens a votar. A questão pertinente é: porquê?

É certo que a UE se instromete cada vez mais nos desígnios nacionais, mas é dúbio que votar sirva para mudar esse triste destino. A verdade é que é largamente irrelevante, e tal como na democracia interna, o futuro da democracia europeia é traçado sem qualquer feedback dos eleitores. E não falo apenas dos referendos repetidos e outras fraudes do género. Falo das intenções dos burocratas de Bruxelas e de como votar não as altera em nada, nem altera a realização dessas intenções.

A história do Voteman, para ser realista, devia ser outra: um jovem vai votar nas eleições europeias e a única consequência é ter perdido uma ou duas horas num exercício fútil e cosmético.

Entretanto, aproveitem para não ir votar. Enquanto podem.

domingo, maio 04, 2014

Em defesa dos políticos.

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A propósito do novo aumento dos impostos, já houve quem lembrasse, e bem, o mítico Passos Coelho de há menos de um ano atrás a reiterar que não faria exactamente aquilo que fez. Não é difícil apanhar os políticos, e sobretudo os políticos no governo, em situações semelhantes. O trabalho deles é dizer aquilo que o povo quer ouvir. Infelizmente é também fazer o que se espera deles.

Por um lado este aumento de impostos revela, se alguma coisa, o profundo beco sem saída em que o Estado português se encontra: o minúsculo aumento é risível, mas é também uma tácita admissão de que não é possível esticar mais a corda dos contribuintes, sob pena de a partir.

Mas por outro revela algo bem mais importante, e que não é tão óbvio, sobretudo para aqueles que ainda pensam que os meios políticos podem solucionar os problemas sociais e económicos do país. O que revela é que os políticos não actuam no vácuo. E isto não é de forma alguma uma desculpabilização das suas acções. Mas é necessário compreender que, de facto, tentam encontrar um equilíbrio num sistema totalmente desequilibrado.

Esse equilíbrio inclui, infelizmente, não cortar na despesa. Só um ingénuo ignora aquilo que a grande maioria dos portugueses espera do Estado. E só um ingénuo imagina que essa grande maioria aceitará em silêncio que lhes neguem o que esperam. O que eles esperam é, claro, patrocinado pelo orçamento de Estado.

A despesa onde é imperativo cortar é igualmente a despesa onde não se pode cortar, porque assim que se começar a cortar, a festa acaba. Por um lado, não é possível cortar no corporativismo, que alimenta muita gente, porque é difícil negar-se favores a pessoas com quem se almoça regularmente, com quem se partilha relações de amizade ou familiares, e com quem se joga golfe ao fim de semana. O Estado, ao deter o poder de dispensar favores, não puderá nunca não os dispensar. E a quem os dispensar, senão aos amigos, conhecidos e familiares?

Por outro, e ainda mais significativo, não é possível cortar nos benefícios sociais, pois o povo sairia para a rua, em protesto e, possivelmente, em revolta. 40 anos de verborreia sobre direitos positivos resulta nisto mesmo, e não há como os convencer de que esses direitos, na realidade, não existem e, mais, que designam a total destruição da sociedade e dificultam a criação de riqueza.

Sucede que aumentar os impostos é o único caminho para o político democrático. Que político deseja dar a cara por campanhas tão impopulares e com tanto risco? Quem se surpreende que Passos Coelho não queira presidir a um governo que causará tanta raiva e, possivelmente, revolta entre a populaça?

Podemos dizer mal dos políticos e do governo, mas que não se presuma que eles são o problema. O verdadeiro problema é moral, não técnico; é político, não administrativo. Enquanto houver democracia, não haverá cortes, nem liberalismo.

Só a falência do Estado poderá, se tivermos sorte, ditar o fim da mentalidade socialista e parasítica prevalente na população. E o governo, quaisquer que sejam as suas falhas, tem trabalhado incessantemente nesse sentido. Teria mérito, se não fosse inevitável.