domingo, julho 13, 2014

A "natureza humana" é o que nos convém

Algures na República, Platão conta-nos a história do pastor Giges. Nesta alegoria, o pastor, numa tentativa de controlar o seu rebanho, acaba por entrar numa caverna que lhe era desconhecida e encontra lá um anel que é capaz de o tornar invisível. Apercebendo-se de tal, Giges acaba por matar o rei, tomar para si o trono, e casar com a rainha. A alegoria, para Glauco, representa bem uma visão bastante proeminente nos dias que correm — mais não seja, no senso comum — de que a moralidade é apenas circunstancial.

E como a alegoria de Giges, poderíamos ir buscar outros exemplos: talvez o exemplo mais fácil é a famosa frase de Lord Acton, «Power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely. Great men are almost always bad men». Se uma pessoa é deixada sem os, digamos, checks and balances da sociedade ou de uma outra qualquer instituição, então entrará numa espiral de perversão e imoralidade. É o fado do Homem: parece que o "bem" apenas está ao alcance daqueles que têm medo das repercussões.

Esta visão é facilmente confirmada com um olhar atento pelo mundo: facilmente somos confrontados com casos de pessoas que assassinam porque acham que não terão problemas se o fizerem; o ladrão que assalta uma casa quando sabe que não vai lá estar ninguém; o governante que aceita luvas porque sabe que o sistema de justiça não funciona e não o vai (ou pode) julgar; o miúdo malcriado que diz o que quer e faz o que lhe apetece porque os pais não sabem impor limites; e por aí fora. E isto serve para podermos afirmar, com alguma substância: o ser humano, naturalmente, não presta.

A mim parece-me que o que temos é um viés contido neste modo de ver as coisas. Não que as observações estejam, per se, erradas: tudo o que foi descrito acontece. Só me parece precipitado tirar daqui que uma pessoa, quando confrontada com uma decisão onde poderá fazer o que lhe aprouver, sem medo do que vier a seguir, irá simplesmente seguir o seu "interesse próprio" (num sentido completamente egoísta do termo, sem qualquer pensamento sobre se poderá, ou não, prejudicar terceiros). E isto acontece por um problema "epistémico" — no sentido de estar relacionado com formação de "conhecimento" — simples.

Quando confrontado com uma situação como a do Giges, podemos falar genericamente de dois cursos de acção: por um lado, o descrito acima, onde a (a/i)moralidade reinará; e, por outro lado, podemos igualmente imaginar uma pessoa que não se aproveitará da situação. Não me parece justo ou sábio dizer que o Homem não é capaz de acções que fiquem dentro daquela segunda categoria. O busílis deste viés, o tal problema epistémico, reside numa propriedade relativamente persistente neste tipo de situações: o peso desproporcionado que o primeiro curso de acção tem na memória colectiva, quando comparado com o segundo.

Toda a gente se lembra do assassino que matou a sangue frio uma pessoa numa viela escura; ninguém se lembra da pessoa que, vendo outro ser humano numa viela escura, não a matou — porque é terrivelmente difícil lembrar-mo-nos de algo que não aconteceu. Posto de uma forma mais genérica: não fazer o "mal" não enche livros de história; e, no entanto, quando se analisa a "natureza humana", convém lembrar que ambos as situações onde uma pessoa tem oportunidade de cometer um crime "perfeito" e não o faz existem; e é isto que torna bastante difícil falar de uma propensão da "natureza humana" numa direcção ou noutra.

Claro que este problema do que não aconteceu ou do peso desproporcionado de determinadas acções não se limita a esta situação particular. O "antigamente a música é que era" padece do mesmo problema: poucos se lembram da quantidade incrível de música horrível que se fazia, por exemplo, nos anos 60 ou 70, tendo ficado dessa altura os Beatles e Pink Floyds desta vida. E, no entanto, existe muito boa gente convencida que "antigamente é que era". E ainda mais gente acredita que a maior parte das pessoas, se dadas a oportunidade, vão agir "mal" (excepto se forem elas mesmas, claro; é difícil alguém conceber-se a si mesmo a agir "mal").

Este não é um post para se tratar sobre o ser humano é "bom" ou "mau", mas sim para denunciar a relativa facilidade com que se cai (e eu também caio) nestes vieses. Não acredito que seja sempre um caso de um viés da confirmação, apesar de acreditar que também possa estar metido ao barulho; explico: independentemente da pessoa que decide investigar esta questão ter, ou não, uma reposta anterior à investigação, o viés dos não acontecimentos poderá existir sempre, sendo que o viés da confirmação só entrará quando se a pessoa estiver à procura de confirmação para algo que já acha. Claro está que ambos os vieses se reforçarão, e mais vale ser afectado só por um do que por ambos.



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