segunda-feira, outubro 19, 2015

Estratégia liberal no esquerdistão

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O panorama político português tem uma forte influência das ideologias de esquerda: entre sociais-democracias, socialismos, e comunismos, pouco espaço sobra para o resto. Isso acaba por se reflectir na comunicação social, que tem uma visão do mundo tendencialmente esquerdista (é irrelevante se essa tendência é ou não premeditada, apenas interessa que ela está presente), e na percepção que existe sobre o que é a opinião pública portuguesa. Afinal de contas, independentemente dos partidos que apoiam, a maior parte dos eleitores portugueses têm mais ou menos as mesmas opiniões sobre qual o caminho a seguir para atingir uma sociedade melhor — e daí se explicar que os partidos em Portugal sejam relativamente parecidos.

Para quem defende algo remotamente liberal, o panorama é desanimador. Isto não é (ou não devia ser) novidade para ninguém. É desafiante tentar participar numa discussão num qualquer espaço público (num café, na faculdade, numa rede social) e assumir frontalmente uma posição liberal. A resposta normal é a pessoa com tal opinião retrair-se, pois ao fim do quarto ou quinto "está calado, seu fascista!" começa a tornar-se cansativo. E isto não faz dos liberais uma espécie de mártir, vítima das maiorias esquerdistas que não gostam de ouvir contraditório. Apenas é o resultado normal de um processo de tentativa de controlo do discurso, onde quem faz parte do status quo fará sempre por abafar aquilo que ponha em risco a sua base intelectual.

O que fazer? Pondo de lado o incitamento à revolta armada e a um movimento secessionista do povo do Norte, onde nos juntaríamos aos nossos irmãos galegos (isso ficará para outra altura), o problema de conseguir fazer com que a ideologia liberal tenha maior peso junto dos que nos são próximos (e só depois sonhar com os que nos são longínquos) é importante. Daí que esta semana me tenha cruzado com duas leituras que me parecem que podem iluminar o que poderá ser uma estratégia liberal no esquerdistão.

A primeira é um artigo no Washington Post, baseado num paper intitulado "The Majority Illusion in Social Networks" que explica como é que é relativamente fácil existir uma desconexão entre a observação local por parte de um indivíduo, e aquilo que é realmente o comportamento/opinião da maioria. Se tivermos em conta que a formação de uma opinião ou o comportamento de uma pessoa é, em parte, baseado em considerações sociais (sendo mais frequente uma pessoa adoptar algo que vê que uma boa parte das suas relações também adoptou), podemos ver o efeito poderoso que um pequeno grupo de pessoas pode ter na sociedade.

A outra é um artigo de Nassim N. Taleb que explica, com recurso a exemplos (e.g., comida kosher, halal, a utilização do inglês em grupos grandes, etc), como é que uma minoria consegue, estando reunidas algumas condições, "impor" comportamentos à maioria. Usando o exemplo da comida kosher, a ideia é que uma pessoa que siga uma dieta kosher apenas pode comer certo tipo de comida, enquanto que uma pessoa que não tenha restrições dietárias poderá consumir qualquer tipo de comida. Daí que a solução de "equilíbrio" tenderá para ser que a produção alimentar adopte as regras kosher, pois assim pode chegar a consumidores kosher e não-kosher. Certamente que esta "regra" (se lhe podemos chamar assim) dependerá do tamanho relativo dos diferentes grupos, do que implica a adopção dos diferentes comportamentos, e por aí afora. Mas a ideia base será sempre a mesma.

O que é que tudo isto implica para a "estratégia" de um liberal (ou grupo de liberais) que gostava de mudar um pouco o panorama? Em primeiro lugar, há que perceber que precisamente pelo facto de o panorama partidário estar completamente "commoditized" — como vimos, os partidos políticos em Portugal têm um eleitorado que, mais coisa menos coisa, tem todo a mesma opinião, e os partidos respondem a isso propondo, mais coisa menos coisa, a mesma coisa —, essa comoditização leva a uma gigante oportunidade para que possa aparecer algo/alguém que diga algo diferente. Afinal de contas, e a julgar pelos números da abstenção, há uma considerável fatia da população que não se revê nessa visão que os partidos actualmente existentes nos oferecem. 

Se a esta ideia de que o espaço político português está maduro o suficiente para ser aproveitado por alguém que diga algo diferente, juntarmos as ideias de que um pequeno grupo de pessoas pode ter um efeito poderoso na percepção da adopção de uma ideia; de que essa percepção pode afectar decisivamente a aceitação efectiva dessa ideia; e de que uma minoria pode, reunidas as condições certas, levar uma maioria a adoptar comportamentos que até então não o teriam; então o que teremos?

Teremos que, e aqui entra a opinião pessoal, o liberalismo pode passar a influenciar o discurso e as decisões políticas em Portugal, dado que cumpra algumas regras base, nomeadamente: 

  1. Que a razão estará do nosso lado, mas que isso implica saber do que se está a falar, implica estudo, e implica o mínimo de coerência e decência — viz., as pessoas não são estúpidas, os esquerdistas não são seres inferiores, toda a gente se engana e que o nosso trabalho é explicar o melhor possível, não insultar.
  2. A noção de que vale a pena entrar em discussões onde se possa dar uma visão liberal sobre o assunto em questão, mas que não vale a pena deixar que a discussão se arraste para o lamaçal do costume; o objectivo não é "converter" esquerdistas, o objectivo é fazer ver que existe uma posição liberal e que terceiros, que leiam aquela discussão, vejam que é uma posição defensável.
  3. A rejeição da associação aos partidos actualmente existentes. A rejeição da participação neste jogo partidário, num ping-pong entre PSD/CDS/PS/etc. Não me vou alongar muito aqui, mas é fácil ver que nenhum eles é liberal ou procura defender o liberalismo. (cf. A direita "liberal" Portuguesa
  4. Fazer o caso positivo pelo liberalismo. Se o socialismo e afins são maus, péssimos, horríveis e tudo mais, é relativamente indiferente. Se aos olhos das pessoas o liberalismo não for uma alternativa credível (e é esse o trabalho que temos de fazer), então de nada adianta que o socialismo seja mau, péssimo, horrível.

Certamente que, posto tudo isto, surgirá a pergunta de como é que se concretiza esta estratégia liberal. A nível individual, é fácil e óbvio: cada liberal deverá evitar retrair-se, e fazer ver que existe uma alternativa legítima ao status quo, e que o liberalismo pode providenciar essa alternativa. Acho que é por aí que deve começar. A nível institucional, não sei responder a essa questão, mas vou pensar sobre o assunto.

sexta-feira, outubro 16, 2015

A distribuição de riqueza no séc XXI

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A distribuição de riqueza, como existe hoje, é um problema. Negar isso e encolher os ombros é um erro de enormes proporções. Note-se que isto não é uma preocupação igualitarista, porque o problema que identifico não é contra a desigualdade em si, mas apenas com a forma como chegamos a este ponto. Este processo de transferência de riqueza para as mãos de poucos — os que beneficiam do modo como o "jogo" está montado — deve ser denunciado, pois prejudica precisamente as pessoas que procuram fazer a sua vida de modo honesto.

A seguinte imagem ajuda a perceber porque é que esta não é uma preocupação igualitarista:


A identificação da acção dos bancos centrais como agentes primeiros na criação de desigualdade na distribuição de riqueza já não é de agora. Aquilo a que se convencionou chamar "efeitos Cantillon" (algo já conhecido desde o século XVIII) explica bem o que se está a passar na ilustração acima: a ideia de que as políticas monetárias expansionistas dos bancos centrais são "neutras" e que há um número mágico que coloca o mercado em equilíbrio (sem qualquer efeito secundário no crescimento económico) é mentira; como sabemos que os mecanismos de transmissão monetária estão longe de ser perfeitos, é obviamente diferente receber o dinheiro criado nos balanços dos bancos centrais em primeiro lugar (quando ainda não houve ajustamento) do que em último (quando a economia já incorporou a nova quantidade de base monetária).

Por isso é que não se pode falar do aumento da desigualdade e da má distribuição de riqueza sem falar nas acções que os bancos centrais têm vindo a desenvolver já desde os finais da década de 70, e com especial ênfase desde a crise de 2007/8 (que, lembrem-se, está longe de estar ultrapassada — afinal de contas, dá sempre a sensação que estamos a um espirro de um evento catastrófico, só este ano já foi a Grécia, a China, as flutuações diárias de 5000pts na bolsa americana, etc).

domingo, agosto 02, 2015

Porque erram os economistas?

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0.

«Porque erram os economistas?», publicado no Observador, é um artigo que toca num dos meus assuntos preferidos. E é um artigo especialmente bom de se ler porque põe a nu toda uma série de questões de que gosto muito de falar. Sendo escrito por um PhD em Física, alguém que sabe lidar com uma ciência a sério, estão reunidas todas as condições para que volte a poder falar do assunto (talvez seja interessante ler este post, para quem gostar do assunto).

1.

O primeiro ponto tem que ver com o objectivo da Economia (enquanto objecto de estudo). O que é que podemos esperar de uma teoria económica? Pelo que leio do artigo, é assumida uma posição marcadamente instrumentalista; isto é: a Economia serve para prever fenómenos económicos. É o seu propósito (aim), sendo a "qualidade" (latu sensu) de uma teoria económica medida em função da sua capacidade de prever. Não há nada de particularmente radical aqui, visto ser assim que a maior parte dos economistas pensam, pelo menos, já desde o tempo do sempre muito citado paper de 1953 de Milton Friedman The Methodology of Positive Economics:
Positive economics is in principle independent of any particular ethical position or normative judgments.  As Keynes says, it deals with “what is,” not with “what ought to be.”  Its task is to provide a system of generalizations that can be used to make correct predictions about the consequences of any change in circumstances.  Its performance is to be judged by the precision. scope, and conformity with experience of the predictions it yields.  In short, positive economics is, or can be, an “objective” science, in precisely the same sense as any of the physical sciences.
Esta posição, contudo, parece-me ser a primeira razão pelos quais os economistas erram: porque se focam pura e simplesmente numa Economia que apenas prevê, e não explica. E, correndo o risco de incorrer nos perigos a que o realismo científico nos leva, permitam-me assumir uma forte posição a favor do objectivo da explicação. E é fácil (apetece-me mesmo usar a palavra preguiçosa) equacionar explicação com poder de previsão, mas não é bem isso que estou a pensar; pelo contrário, uma disciplina deverá ser capaz de explicar o porquê de um dado fenómeno acontecer, e terá de ser julgada de acordo com a sua concordância (ou inexistência de contradição) para com a realidade. E sim, estou convencido que é a única solução para que os economistas dêem o passo certo para que deixem de errar.

Resumindo, os economistas erram porque se focam muito na previsão, e nada na explicação. Mas porquê?

2.

Porque o problema da Economia mainstream não é a relativo à qualidade ou abundância dos dados. E suponho que seja aqui que se gere a maior confusão para quem vem de um background onde o "método científico", inspirado no falsificacionismo Popperiano, funciona relativamente bem. De certo modo, percebe-se que haja uma tentativa de emular uma série de processos e modelos que se revelaram bem sucedidos noutras áreas. O problema é quando já andamos há coisa de 70 ou 80 anos (estou a pensar no trabalho de Irving Fischer em meados da década de 20, e de Ragnar Frisch e Jan Tinbergen na primeira metade da década de 30 — sendo que estes dois últimos acabam por ganhar, em conjunto, o primeiro prémio Nobel da Economia) a insistir nos mesmos erros.

Arrisco a responder a pergunta do título da seguinte maneira: os economistas erram porque ainda não perceberam o que deviam estudar. Do meu contacto com o processo de formação de economistas, de economistas em diferentes pontos da sua carreira académica, bem como de economistas já formados, sempre notei que existia uma grande preocupação em entender bem o formalismo que assistia a modelização da economia, em conjunto com a necessidade de se sentir por dentro da espuma dos dias no que toca às movimentações do mercado de capitais, das empresas, e até mesmo das novas trends que davam sinais de se poderem tornar importantes. No entanto, poucas pessoas procuravam entender o ser humano, ficando-se apenas pelos resultados aparentes das suas acções. O interesse não estava no porquê de as pessoas se comportarem de dada maneira, mas apenas em tentar desenvolver modelos que pudessem prever o seu comportamento.

Os economistas erram porque têm a caixa de ferramentas errada. Um físico que ao tentar estudar a formação do universo, use como base um livro de física do século XV, irá chegar a resultados estranhos; do mesmo modo, também um economista que use a framework neoclássica, e a partir daí tentar construir conhecimento através de um método empírico de recolha, tratamento e modelização de data, irá chegar a resultados estranhos. Irá, por exemplo, perceber que há inversão de preferências, que elas não são bem ordenadas, que a maximização não é o objectivo, etc. E, no entanto, continuará a tentar resolver os seus puzzles usando uma forma de ver o mundo que lhe diz que tudo aquilo é verdade, apesar de a realidade lhe mostrar que é mentira.

3.

Há uma série de razões para isto acontecer, e a maior parte podem caber dentro daquilo a que se convencionou chamar sociologia do conhecimento. Já por este blog se falou um pouco sobre a situação ser como é, e não de outro modo. Talvez também contribua para toda esta situação a gritante falta de reflexão que a maior parte dos economistas têm perante a sua disciplina — e se me disserem que um biólogo ou um químico também não fazem reflexão sobre a sua ciência, certamente que terão razão, mas não me parece que eles precisem; algo que não se passa com os economistas: afinal de contas, não é comum escrever-se artigos com títulos como "porque erram os biólogos?".

Sejamos sérios. Os economistas não erram porque a economia é mais complexa de que se pensava. Porque se assim for, podemos já arrumar as botas: especialmente desde a entrada em cena da internet, o mundo está-se a tornar cada vez mais complexo, mais fragmentado e mais heterogéneo, e esta tendência não dá sinais de abrandar. Também não erram porque os dados que tinham ao seu dispor eram de fraca qualidade ou insuficientes.

Os economistas erram porque não querem dar o braço a torcer e reconhecer que andamos a, e perdoem-me a expressão, encher chouriços. Porque não reconhecem os problemas e limitações inerentes ao método que usam. Há que mudar o paradigma

sexta-feira, junho 26, 2015

Isto não é post sobre as eleições legislativas

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Os últimos anos em Portugal (talvez desde 2008/9) têm sido particularmente penosos em termos económicos, com todas as consequências sociais que se conhecem. Falo naquele par de anos porque, apesar de o país antes dessa data já estar numa trajectória de degradação, é nessa altura que se manifesta a verdadeira crise. E há que perceber que Portugal teve, em simultâneo, três crises a acontecer: por um lado, uma crise relacionada com a dívida pública e privada, e do respectivo financiamento; por outro, uma crise relacionada com o reajustamento da economia; e, por último, os efeitos que o abrandamento das economias dos nossos parceiros económicos externos. Claro que todas elas estarão relacionadas — afinal de contas, a economia é um sistema orgânico, que obedece a relações de causalidade — mas para as tentar resolver, será interessante pensar nelas em separado. Sendo que em relação à última pouco se pode fazer, resta concentrar nas outras duas, e eu só vou aqui falar de uma.

A mais importante, a meu ver, sempre me pareceu a segunda. Portugal, durante muitos anos, viveu à custa da procura interna, com constantes défices da balança comercial, garantindo que o desemprego estava mais ou menos sob controlo através de sucessivas grandes (e muitas, muitas pequenas) obras públicas, e também graças ao sector dos serviços (mais concretamente, aquilo que se pode incluir na categoria dos "não-transaccionáveis"). Certamente que apesar do lip service que se prestava a coisas como a aposta na agricultura e pescas, o desenvolvimento do tecido industrial, o financiamento da investigação e desenvolvimento, e outras coisas bonitas, o grosso da economia era mantido a funcionar através dessas áreas. O dinheiro rolava, umas alturas melhor, outras pior, e ninguém se chateava muito porque a maior parte das pessoas estava razoável.

A verdade é que, surpresa surpresa, esse modo de desenvolvimento se tornou insustentável. O crescimento anémico que caracterizou a economia de Portugal do virar do século em diante tornou-se em verdadeiro retrocesso com o rebentar da crise do sub-prime e das dúvidas que se levantaram sobre a saúde das finanças públicas de alguns estados na EU. Muita gente entrou em verdadeiro pânico. Cantaram-se amanhãs verdadeiramente assombrosos. Mas, contudo, (quase) ninguém cantou o amanhã que se está a viver, e que parece animador. Não perfeito, não algo que assegure o bom funcionamento do país durante muitos e vários anos, mas são sinais que o país está a mudar para melhor. 

Sim, acho que o reajustamento da economia se está a fazer. Casos de sectores como o vestuário, calçado, metalúrgico, alguma agricultura (especial destaque para os vinhos e, em menor medida, os hortícolas e frutícolas), alguma IT. Tudo sectores que, se recuarmos há 10, 15, 20 anos, foram considerados mortos, enterrados e para sempre renegados. Não eram sectores sexy (bem, talvez o caso das IT), e por isso foram largamente ignorados pelo frenesim da política de querer mostrar uma grande obra em menos de 4 anos. E, claro, por um lado isto não é suficiente, porque são tudo mudanças recentes e que ainda não tiveram o tempo necessário para serem criados clusters, massa crítica, que realmente potenciem esses sectores; e, também, porque ainda não se entranhou a mudança de paradigma que está associada a esta mudança estrutural (e esta última não pode existir sem a primeira). Mas, ainda assim, mostra que há uma saída e que é possível as coisas melhorarem.

E convém frisar isto, para o deixar bem claro: esta evolução acontece apesar da existência dos comentadores da praça que muito gostam de falar por falar para se manterem relevantes; apesar de um Governo que, para mal dos nossos pecados, é mais do mesmo; apesar de todas as previsões de que a emigração ia arrasar o país porque estávamos a ter uma "fuga de cérebros"; apesar da contracção da procura interna; apesar de termos os piores patrões do mundo (pelo menos, é o que dizem); apesar da espiral descendente da recessão; apesar de tanta coisa.

Muito mais tem de ser feito. Mas, pela primeira vez em muitos, muitos anos, parece que as coisas se começam a dirigir para algo melhor. Querer negar isto apontado aquilo que o país ainda tem de mau é desconversar, pura e simplesmente. Sim, o desemprego (especialmente entre as pessoas da minha idade) é assombroso; sim, há muita gente, precisamente nas classes mais sensíveis (idosos, desempregados de longa duração, pessoas com deficiência, etc) que sofreu e sofre. Sim, o estado ainda é um empecilho, porque a justiça e a polícia não defendem quem tem razão, porque a Autoridade Tributária e a ASAE estão transformadas numa espécie de cães de caça à infracção, porque tanta coisa. Sim, porque o país vive num plano inclinado, sendo que quem quer ser honesto, trabalhar e realmente acrescentar algo de valor à sociedade sofre de ter de se mover contra essa inclinação. Mas nada disso anula o que o país está melhor em muita coisa.

E eu percebo que muitas pessoas não vejam isso. Literalmente, não vejam. Porque uma das razões pelas quais tenho alguma esperança é que algo está, finalmente, a mudar. A maior parte dessas pessoas, essas que não vêm ou não querem ver, passaram 20, 30, 40, e às vezes mais, anos a olhar para o país e a economia de uma dada maneira, a pensar que a procura interna é que era "o" indicador, que o sector da construção e restauração era suficiente para absorver o emprego da "populaça" com pouca qualificação, que o governo tinha sempre a hipótese dar choques à economia para a ir espevitando aqui e ali. E é normal que agora não vejam isso e pensem que está tudo perdido, que o país está a ir pela sarjeta. Mas tenho para mim que é por não se ver isso que o país está a sair da sarjeta.

Porque a diferença, o que está a correr bem, se faz fora das grandes cidades. Se faz em pequenas e médias empresas, nos sectores abandonados, sem pompa nem circunstância, com muito suor. Se faz longe do olhar da maior parte dos jornaleiros do costume, mais interessados em cumprir com uma agenda política do que em dar notícias. E faz-se. E espero que se continue a fazer, porque é aí que está a saída para o nosso país. É normal que não se veja nem se fale disso. Mas que acontece, acontece: é só deixar acontecer.

PS - Disse que isto não era um post sobre as eleições legislativas. E era verdade. Primeiro, porque tenho a certeza absoluta que vai haver quem leia aqui um elogio rasgado ao actual governo; mas essa interpretação não podia estar mais longe da verdade. A este governo, só posso fazer um elogio, e ter uma esperança: por um lado, não são tão maus como os anteriores, e por outro, que não sejam tão maus como a alternativa. Mas ainda estão longe, muito longe, de ser algo minimamente satisfatório. Faço aqui a minha declaração de voto, em público: se for votar, votarei tal qual como nas últimas legislativas; nulo. Para mim, a minha consciência é mais importante do que o eventual cálculo político-partidário.

quinta-feira, maio 14, 2015

Agricultura em Portugal: organizações de produtores

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Ultimamente, por questões profissionais, tenho andado envolvido no mundo da agricultura (mais concretamente no sector dos frutos) em Portugal. Tal obviamente implica que tenha muito mais contacto com este mundo, e tenho podido confrontar as impressões que tinha "antes" com a realidade que sinto no terreno. E tenho descoberto duas coisas que me deixaram algo surpreso. Em primeiro lugar, é um mundo altamente partido, em dois vectores: falando apenas das empresas que trabalham no meio, temos, simultaneamente, excelentes exemplos de empresas, mas também péssimos exemplos, e incrivelmente pouca coisa no meio; por outro lado, temos pouquíssimas empresas e muitos agricultores, o que revela a parca profissionalização (industrialização?) do sector. O segundo aspecto tem que ver com as péssimas estruturas institucionais montadas, especialmente a nível comercial, que levam quase invariavelmente a um esmagamento do produtor e a um perpétuo atraso do sector. Gostaria de me debruçar neste segundo aspecto.

Este problema de que falo está há muito identificado. Explica-se numa história muito simples: por um lado, há muitos agricultores, que produzem pouco individualmente, visto também não têm parcelas muito grandes; por outro, há poucos canais de escoamento, estando a grande maioria da produção encaminhada para as centrais de distribuição que existam em cada sector, havendo eventualmente um ou outro negociante a título individual que tem possibilidades de absorver alguma produção. Invariavelmente, acontece que são as centrais que definem os preços e, bem pior do que isso, os meios de pagamento. No fundo, não só os produtores se têm que sujeitar a preços fracos, mas para todos os efeitos a financiar a operação das centrais, visto esperarem muitas vezes 6 a 8 meses para verem o pagamento da campanha do ano anterior enquanto fazem face aos custos decorrentes da campanha do próprio ano.

A realidade parece indicar algo muito concreto: os produtores ou se juntam, ou morrem, pois não têm escala para fazer face a condições de mercado que parecem degradar-se com o passar dos anos. No seguimento desta preocupação, e com a nova PAC, surgiram incentivos para que os produtores se organizassem — já agora, note-se que os incentivos passam, por exemplo, pela facilitada aprovação e majoração dos apoios ao investimento no âmbito do PDR 2020. Com a reforma da PAC de 2013, existe uma Organização Comum de Mercado (OCM) que estabelece um regulamento comum comunitário para o estabelecimento e reconhecimento das Organizações de Produtores (OPs). Não há dúvida de que no que depender da existência de formulários, regulamentos, despachos, requerimentos e regulações, os agricultores têm tudo o que precisam para poder triunfar. Excepto, claro está, as condições que realmente interessam.

As OPs já existem há alguns anos em Portugal. Se a OCM veio, porventura, uniformizar a paisagem institucional das OPs, não vem resolver o problema de fundo: até agora, elas foram parte do problema, não parte da solução. A razão de perceber o porquê é simples: as OPs funcionam um pouco como as cooperativas em Portugal, estando completamente orientadas não para servir os seus sócios, mas sim para servir quem lá trabalha. Para ilustrar o ponto: aqui há uns anos descobriu-se que a direcção de uma dada cooperativa usava o rapel comercial (desconto adicional que um fornecedor oferece a clientes que comprem quantidades elevadas — como será o caso de uma cooperativa que compre estrume) não para baixar os preços cobrados aos seus sócios, mas sim para dar algumas bonificações em género aos membros da direcção. E não estando a querer dizer que todas as OPs cometam práticas deste género, a verdade é que fizeram parte, até agora, de um sistema que sistematicamente esmaga e prejudica o produtor; afinal de contas, são as grandes OPs, em conjunto com os entrepostos comerciais, que ditam os preços e as condições de pagamento para praticamente todo o mercado.

Posto isto, é com péssimos olhos que vejo o ímpeto regulador que a OCM introduziu na criação das OPs. Na altura em que se devia precisamente puxar pela criação de OPs que permitissem quebrar os vícios existentes e equilibrar um pouco os pratos da balança em favor dos produtores, faz-se exactamente o contrário. Porque, não nos enganemos: as regulações beneficiam os incumbentes, não quem está a tentar entrar no mercado. 

Claro que a defesa fácil de que são necessárias regras para a criação da OPs visto elas terem benefícios vários no âmbito da obtenção de subsídios cai por terra quando se troca de perspectiva: era preferível que não se oferecessem benefícios nenhuns pela pertença a uma OP, visto que a pertença a tal organização deveria valer por si só — e, se as coisas forem bem feitas, eu acredito que vale. Uma OP tem de valer por aquilo que oferece ao produtor (seja apoio técnico, capacidade de escoamento do produto a um preço melhor, capacidade negocial para melhores condições, etc), e não pelos subsídios que pode captar. Senão estamos só a viciar o jogo de uma forma diferente, não a resolver o problema. A agricultura "profissional" começa a atingir, finalmente, alguma massa crítica. Sufocá-la com burocracia era o pior que podia acontecer ao sector. 

Ainda há muito trabalho a ser feito. Se, por um lado, tem de ser feito um trabalho do lado dos produtores para que as coisas melhorem a nível de gestão de cada exploração, a concentração de agricultores em torno de organizações tipo-OP seria um passo importante para que o sector pudesse descolar e tomar o seu lugar como pilar da economia nacional. Mas devemos desenganar-nos, e apontar desde logo o caminho: mais concorrência, mais diversificação, mais qualidade, menos burocracia e menos incentivos que distorçam o mercado. O resto são peanuts

terça-feira, maio 12, 2015

A mulher sexista, a minoria racista, e o indivíduo metodológico

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Estava a passar os olhos por essa internet fora, e cruzei-me com uma notícia que me fez pensar um pouco: «'I can't be racist because I'm an ethnic minority woman', says Goldsmiths university diversity officer embroiled in racism row». Estou ciente que este é um assunto que, hoje em dia, faz palpitar muitos corações, e tem todo o potencial de chatear toda uma horda de sociólogos especializados em estudos de género. Great.

Retiro qualquer ilusão que possa haver: tal notícia e os seus conteúdos são só a manifestação de terem deixado à solta uma série de tolinhos nos departamentos de estudos sociais. Prima facie, a afirmação é completamente desprovida de sentido: claro que uma pessoa de uma minoria étnica pode ser racista! Claro que uma mulher pode ser sexista! Já ouço gritos de no such thing!, de que tal é impossível. Mas permitam-me citar a senhora:
«I, an ethnic minority woman, cannot be racist or sexist towards white men, because racism and sexism describe structures of privilege based on race and gender. 
Therefore, women of colour and minority genders cannot be racist or sexist, since we do not stand to benefit from such a system.»
Aqui o erro torna-se claro como a água: a não subscrição uma metodologia de análise e estudo do fenómeno social séria e consistente! Se, pelo contrário, tivesse havido da parte de Mustafa uma preocupação em olhar para os eventos seguindo os preceitos do individualismo metodológico, nada desta confusão tinha acontecido; ou, mesmo tendo acontecido, estou certo que teria sido encontrada uma desculpa mais coerente do que a descrita acima. E mesmo tendo um pequeno Geoffrey Hodgson em cima do meu ombro a lembrar-me que esta coisa do individualismo metodológico é terreno pantanoso, já lá vamos. 

Primeiro, acho que é importante perceber o que está a acontecer ali: a descrição do racismo e do sexismo não como manifestação concreta de um conceito abstracto, mas sim como "sistemas/estruturas de privilégio". Daquilo que conheço da filosofia feminista (julgo não ser um erro colocar este tipo de argumentação bem dentro da 3ª "onda" feminista), a explicação de fenómenos sociais será feita sempre em função da relação da pessoa para com o sistema onde ela se insere: "A mulher não pode ser sexista porque o sistema de privilégios da sociedade está montado contra ela!". Daí que o objecto de estudo, o ponto de partida, sejam esses sistemas e estruturas societais que privilegiam ou oprimem pessoas dependendo das suas características.

Isto não parece um tipo de argumentação estranho para quem está familiarizado com o Marxismo. O materialismo histórico segue, sensivelmente, o mesmo modus operandi: a ideia de que a organização da sociedade e os fenómenos societais podem ser explicados se olharmos para as estruturas de produção e para as classes sociais. Não é de todo ao acaso que haja alguma sobreposição entre a "antiga" esquerda marxista e a "nova" esquerda feminista (apesar de, como está bom de ver, as explicações materialistas e feministas serem em larga medida incompatíveis). 

Mas onde é que o individualismo metodológico entra aqui ao barulho? Em primeiro lugar, convém explicar que esta posição metodológica não devia levar (because it can't, and can't implies oughtn't) a nenhuma posição ontológica: isto é, o facto de se analisar algo de acordo com os preceitos do individualismo metodológico não implica dizer que para efeitos de análise só existem indivíduos (e aqui sim, estaria contida uma posição ontológica). Contudo, implica pelo menos o reconhecimento do indivíduo como objecto primeiro de análise (e isto sim, torna-se uma posição metodológica). 

Nesta perspectiva, o que é o racismo? Será uma ideia abstracta que serve para descrever o acto de descriminação de uma pessoa de acordo com a sua etnia. Ou seja, uma pessoa agredir outra na rua por motivações raciais constitui uma manifestação da tal ideia abstracta. Usando o exemplo concreto que a notícia nos deu, uma pessoa que proíbe a entrada a terceiros apenas e só por causa do seu género, orientação sexual, ou étnia, está a incorrer num acto racista/sexista. Independentemente do género, orientação sexual, ou étnia de quem o faz. E aqui reside, a meu ver, a beleza do individualismo metodológico: como olhamos para a acção de um ponto de vista abstracto e sempre com o indivíduo como âncora, permite-nos ver que a mesma acção, com o mesmo propósito, será analisada da mesma forma, independentemente das particularidades do indivíduo em questão.

Se a frase "as mulheres não podem ser sexistas" vos faz alguma comichão, a razão terá algo que ver com o que foi abordado aqui acima. Claro que pode ser sexista! Tanto podem ser, que o são, como se viu. Se porventura vos disseram que não, agora já sabem que tudo não passa de uma patranha metodológica que já tem barbas mais longas que o Marx.

segunda-feira, abril 27, 2015

O papel da política numa sociedade saudável

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Gostaria de começar essa reflexão relembrando uma verdade que a mim me parece inquestionável, o axioma da acção humana: as pessoas agem com o objectivo de substituir uma circunstância menos favorável por uma mais favorável. É este o desígnio do ser humano. Simultaneamente, gostaria de começar por relembrar uma outra verdade, menos evidente mas ainda assim importante: a política, tida em sentido estrito como o exercício de funções de governação e tudo o que isso envolve, é uma função subsidiária numa sociedade saudável. E a importância da política estará inversamente correlacionada com a prosperidade que cada sociedade sente. Permitam-me explicar.

A necessidade que se possa sentir para que exista política nasce da nossa incapacidade de resolver problemas comuns de forma simples: problemas comuns como a necessidade da existência de estradas, relações com outras sociedades, protecção contra ameaças externas e segurança contra ameaças internas, etc; e a incapacidade de resolver esses problemas resulta de limitações de ordem técnica — temporais, tecnológicas, organizacionais, entre outras —, de limitações de recursos, e limitações de ordem "natural" (à falta de melhor termo, mas com isto quero remeter para problemas intrínsecos, de ordem genética, cognitiva, etc, do ser humano). Por isso, criamos artifícios e estabelecemos regras melhor ou pior fundamentadas. Hoje em dia, o artifício chama-se democracia, e a regra é um refinamento da lei da maioria (outrora já tivemos monarquias, ditaduras, e outros que tais). No mundo ideal, onde não existiriam limitações, não teríamos necessidade de artifícios. Claro que o mundo não é ideal — daí ainda existir a percepção da necessidade destes artifícios —, mas não convém estarmos iludidos e pensar que uma dada organização de instituições será o fim da história. Conforme as limitações existentes vão sendo tornadas irrelevantes, ora por desenvolvimento tecnológico ou outros, as instituições tornam-se obsoletas. Pensar o contrário é ter vacas sagradas, um dogma.

Não é demais frisar que estes artifícios têm um propósito: resolver problemas comuns. Nascem de, por um lado, existir necessidade de viver em sociedade e, por outro lado, das fricções que essa vida comunal traz. Essa necessidade decorre directamente do axioma da acção humana: é inegável que o ser humano viverá melhor se inserido no seio de um grupo de pessoas semelhantes (resta saber quão semelhantes, e qual o número "óptimo", algo que variará de pessoa para pessoa), e daí as suas acções serem orientadas para satisfazer essa necessidade. E a resolução dos problemas passará por alocar recursos necessários para que os problemas que forem surgindo sejam resolvidos.

Parece-me natural considerar que quanto mais próspera for uma sociedade, menos necessidade terá de ter e fazer política. Quanto maior for o desenvolvimento tecnológico, quanto mais conhecimento tiver uma sociedade, quanto melhor souber dispor dos recursos à sua disposição, e quanto melhor souber contornar e superar as suas limitações, será naturalmente menor a necessidade de recorrer à política: os problemas comuns passam a ter uma resolução (mais) simples. Basta pensar, por exemplo, que contrariamente àquilo que acontecia há alguns anos atrás, hoje em dia é possível disseminar uma informação de forma completamente fidedigna e imediata para ser consultada numa multitude de locais em simultâneo e, em sentido inverso, é possível todos esses locais registarem uma reacção a essa informação de forma igualmente fidedigna e imediata num local centralizado, que voltará a disseminar a informação e por aí afora — pense-se em algo tipo uma rede social, um website tipo reddit, uma plataforma de blogs, etc. Se ainda pensarmos que graças a inovações como redes mesh, mesmo a limitação da necessidade de um local centralizador da informação tenderá a desaparecer.

Obviamente que isto soa muito a sonho tecnocrata. Convém chamar a atenção que a tecnologia apenas resolve as limitações de ordem tecnológica, podendo eventualmente facilitar a resolução de problemas de outra natureza. Mas isso não quer dizer que temos apenas que apostar nesta vertente e tudo ficará bem; simplesmente é onde se torna demais óbvio que a evolução de um dado sector permite que limitações anteriormente existentes possam ser anuladas. O mesmo se passa pelo simples processo de acumulação de riqueza (que permite um maior investimento inicial, que redundará em maiores rendimentos futuros), ou uma ideia sobre como melhor organizar uma dada instituição. E o próprio processo de adaptação para uma sociedade com menos limitações trará fricções (que se revelam por falências de empresas tornadas obsoletas, desemprego nesses sectores,..) que, talvez, importa acautelar. Ainda assim, o processo será positivo e benéfico.

Ainda assim, e contrariamente ao que nos fazem crer diariamente, a necessidade da política e dos seus instrumentos (genericamente, o estado; mas também partidos, profissionais de política, comentadores e demais) tende a diminuir. A sua subsidiaridade tenderá a ficar mais e mais demonstrada conforme as limitações ficam resolvidas, e mais recursos ficam livres para resolver outros problemas. E o problema de evolução de uma sociedade passa, também, pela constante renovação e mudança do seu status quo. Algo que não se revela fácil, nesta situação em particular, por uma razão simples: entregar o poder a um grupo de pessoas, criar uma casta de privilegiados que confundem a missão pública com o seu propósito privado, para mais tarde o tirar e obrigar esse grupo de pessoas a voltar a uma condição de "civil" não é tarefa fácil. Esperar que os privilegiados renunciem pacifica e conscientemente aos seus privilégios é, talvez, algo ingénuo. Já dizia Lord Acton, o poder corrompe.

Pode não parecer, mas este texto foi inspirado numa reflexão sobre o 25 de Abril, e sobre Portugal. Afinal de contas, o dogma do Deus, Pátria e Família do antigo regime foi substituído por outro algo, nunca posto de forma tão explícita (afinal de contas, as democracias não fazem propaganda, têm escolaridade obrigatória no ensino público gratuito). Mas, se calhar, convinha começar a dizer alto e bom som que estará na altura de algo mudar. Que a política ocupa um lugar demasiado preponderante na nossa sociedade, e isso revelou-se em 3 bancarrotas, atraso económico fruto de uma performance anémica nos últimos 15 a 20 anos, dívida pública a dar com o pau, e tudo mais. Se calhar, convinha deixarmos de lado fantasmas e esqueletos no armário e perceber que isto não resultou. E que estava na altura de mudarmos o status quo, quer a nível de ideologia, quer a nível de organização política. De preferência, para algo que consumisse menos recursos, e que se limitasse a ajudar a resolver os problemas que de facto existem na sociedade.

segunda-feira, abril 06, 2015

Premiar quem faz bem, não punir quem faz mal

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Independentemente das orientações ideológicas de cada pessoa, parece-me óbvio que o emprego de curta duração é um "menos" — isto é, dadas as mesmas condições e variando apenas a duração do contrato de trabalho, a tendência será que uma pessoa privilegie contratos de maior duração. Isto não significa que contratos de curta duração não tenham méritos e não existam situações onde, de facto, é completamente justificada a sua utilização; significa apenas que há uma preferência abstracta pelas vantagens de um contrato de maior duração.

Se temos que viver numa sociedade onde as contribuições e cotizações para a segurança social são aplicadas de forma coerciva, então o mínimo que se poderia esperar é que os agentes políticos (enquanto gestores da "coisa pública") alinhassem isso com a preferência descrita acima. No fundo, criar uma instituição que, estando de origem contra os direitos básicos de um individuo, pode ao menos estar mais alinhada com aquilo que são os interesses de quem é suposto servir. Parece-me ser o mínimo exigível.

Aqui há uns dias, graças a uma conversa com um amigo (obrigado, Cláudio), deparei-me com esta proposta: «Abarataremos las cotizaciones a la Seguridad Social de las empresas que contraten indefinidamente a nuevos empleados.» Reparem que não é posta em causa a instituição que é a Segurança Social, mas está aqui algo importante: o alinhamento com o princípio acima. Afinal de contas, se se acha que o emprego de maior duração é algo que deve existir, então não faz sentido promovê-lo? 

Agora, para introduzir um pouco de ideologia ao barulho, não sou a favor da medida. Não acredito na ideia de que um estado eficiente é um melhor estado; na lenga-lenga de que "se todos pagarmos, todos pagam menos". Vezes e vezes sem conta, já deu para perceber que os resultados do aumento da eficiência da máquina do fisco revertem a favor do estado sem qualquer benefício para o contribuinte. O Portugal de hoje em dia é isso mesmo: nunca fomos tão eficientes a cobrar impostos e, ao mesmo tempo, nunca se espoliou tanto rendimento dos indivíduos e empresas. Mas, então, porque é que acho que aquela medida tem algum mérito?

A razão é que acho que há uma mudança de perspectiva interessante, que deve ser emulada num sem número de casos práticos: premiar quem faz bem, e não punir quem faz mal.

O sistema que existe agora é, por natureza e desenho, punitivo. Temos um caso por defeito (empresas e trabalhadores a pagar contribuições e cotizações) que trata as entidades contributivas como meros recursos, quase-escravatura, exploração — e peso bem o que digo aqui. O que se espera de uma empresa é que, independentemente das suas circunstâncias e estratégias, simplesmente contribua; se se desvia da norma para melhor, fixe para ela, mas não faz mais do que a sua "obrigação". Se, pelo contrário, faz algo para pior, quebrando a lei (independentemente das razões que levam a essa situação), pune-se. E isto, numa visão de curto-prazo, interessa à máquina do estado: as multas, coimas e demais são boas fontes de receita. E no entretanto, vamos ouvindo palavras de ordem que clamam pelo fim da precariedade, dos contratos de curto-prazo, recibos verdes e afins. E, claro, que se ponha fim a esta situação, punindo empresas que tenham essas práticas.

Eu gostava de tentar a outra perspectiva. Certamente, quando uma empresa faz mal e lesa outra parte (empresa, trabalhador, stakeholder, etc) não deve ficar impune. Mas o objectivo principal não deve ser esse. Pelo contrário, deve ser o alinhamento com aquilo que se considera ser o melhor. As partes devem cooperar, e não andar num terrível jogo de gato e do rato, com burocracia à mistura, para ver quem engana quem mais depressa. E aquela medida reflecte isso: há um claro objectivo de promover o emprego de longa duração, e então beneficia-se quem o faz. É essa a mudança de perspectiva nas relações entre as diferentes partes da sociedade civil — especialmente quando uma delas tem um claro ascendente negocial que lhe é conferido pelo facto de, de modo mais ou menos arbitrário, poder impor as regras que mais lhe convém — que seria interessante ver implementado. 

Nitidamente, tenho pouca esperança que isto aconteça. O estado é, desde a sua concepção, uma força de conflito na sociedade. E já sabemos como é: de boas intenções está o inferno cheio. De políticos, também. Mas pensar não custa.

sexta-feira, abril 03, 2015

Pormenores que fazem toda a diferença

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A Rita I Carreira, no Destreza das Dúvidas, tem um post onde fala sobre gestão de risco na agricultura. Usando o exemplo dos EUA — que são, de facto, um dos líderes mundiais na indústria que é a agricultura —, a conclusão a tirar do post pareceu-me que é algo próximo disto: Portugal tem imensos problemas a nível das instituições que suportam a actividade agrícola, seja a nível do sector público ou do privado. Para combater isso, é sugerido que se olhe para o exemplo dos EUA e se tente emular aquilo que de melhor se faz por lá a nível institucional. Tudo certo. But the devil is in the detail.

O detalhe que interessa está escondido no meio do texto citado: «Producers, mostly family enterprises operating medium sized farms (average 445 hectares. Imaginando que isto não é erro — e, do pouco que conheço do sector agrícola nos EUA, não deve ser ―, este pormenor explica bem porque é que o exemplo dos EUA não pode (não deve!) ser seguido em Portugal. Salvo eventuais herdades no Alentejo, não existe em Portugal nada que se assemelhe a propriedades com 445 hectares, muito menos 445 hectares a produzir. Olhando para aquilo que os EUA produzem, faz todo o sentido que todas aquelas estruturas para gestão de risco existam: em culturas intensivas, onde 1 ou 2 cêntimos de variação de preço/kg se traduzem em centenas de milhares de dólares no final do ano para o produtor, faz todo o sentido que se faça uma gestão extremamente cuidadosa destes factores. Quando as margens são razor thin, é assim.

Aqui há uns tempos tive oportunidade de conhecer um produção de vinho no Dão. Uma quinta enorme, cerca de 40ha, tanto que permitia fazer várias experiências no tocante às misturas de castas. Cada garrafa era vendida, à saída da quinta (que também engarrafava, claro) por cerca de 3€ ("Preço de amigo!"); nos supermercados, chegavam aos 7.5€, às vezes mais. Se havia variações nos custos ou nas receitas na ordem dos 1 ou 2 cêntimos por garrafa, era relativamente indiferente — claro que era chato, e no final do ano todos os cêntimos contam, porque era trabalho que saía do corpo de alguém que não era remunerado. Mas o produtor sabia que aquele não era o jogo que ele estava a jogar. No médio prazo, sabia que era mais importante preocupar-se em conseguir subir o preço da garrafa em mais 50 cêntimos ou 1€, do que propriamente brigar com um distribuidor por causa de um desconto de 1%. Afinal de contas, ele não tinha uma commodity; tinha um vinho de alta qualidade. O seu produto era muito difícil (impossível?) de copiar, tinha uma marca associada, e acreditava que era de qualidade. E tinha margens de 20, 30, às vezes 40% por garrafa — especialmente nas reservas.

Tudo isto para dizer algo muito simples: Portugal não é os EUA. Portugal não deve (porque não pode) jogar o jogo das commodities. E não pode porque não tem dimensão, independentemente das suas potencialidades: produtos indiferenciados só são rentáveis em situações de economia de escala. 

Se isto quer dizer que algumas das coisas de que são faladas dentro da umbrella "gestão de risco" não fazem sentido existir? Claro que sim, informação é sempre bem-vinda. Mas tudo isto serviu para tentar fazer ver uma coisa: as nossas instituições (públicas ou privadas) têm, por necessidade da nossa realidade, de ter uma missão diferente das dos EUA. Não negando que em Portugal o Ministério da Agricultura (e quejandos) são pura e simplesmente, única e exclusivamente um entrave ao desenvolvimento do mundo rural e agrícola, parece-me mais ajustado uma estrutura institucional que reflicta as necessidades de flexibilidade, experimentação e não-comoditização da nossa produção agrícola. Porque, parece-me, só assim é que vamos conseguir explorar as nossas potencialidades.

segunda-feira, março 30, 2015

Estratégia, valor, e capitalismo

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Durante os anos 30 do século passado, houve um senhor (o senhor McVicker) nos EUA que fez uma descoberta interessante: se misturar água, sal, ácido bórico, e óleo mineral, tudo nas quantidades certas, então obtém-se uma óptima maneira de limpar o papel parede que havia nas casas americanas, sempre tão sujo pelos sistemas de aquecimento que funcionavam a carvão. No entanto, e após a WWII, dá-se uma migração na utilização de carvão em favor do gás natural, deixando por isso de haver (tanta) necessidade de limpar. No entanto, o senhor McVicker, vendo que o seu produto tinha um uso alternativo (viz., que servia para entreter crianças), decide que está na altura de mudar. Mais coisa, menos coisa, nasce assim a Play-Doh. 

Esta história, quase anedota (apesar de ser verídica), serve para ilustrar dois pontos essenciais sobre o capitalismo: por um lado, a importância que a definição de uma estratégia tem para uma empresa — podendo, realmente, ser a diferença entre a falência e o sucesso; por outro lado, que o processo de criação de valor num sistema capitalista é algo que pouco (ou nada) tem que ver com histórias de exploração, e vai muito para além de uma lenga-lenga redutora sobre lucros. 

De há uns tempos para cá, duas coisas têm acontecido que me fizeram ver o valor da estratégia na lógica empresarial: uma delas, foi ter começado a trabalhar numa empresa; a outra, foi o que ia lendo no blog Balanced Scorecard. O conceito de estratégia parece-me que pode ser resumido da seguinte maneira: «strategy is about being different.» Posto de outro modo, e no contexto empresarial, a estratégia serve para nos guiar no caminho para criar diferenciação, serve para nos relembrar no que somos realmente bons e no que nos permite ser melhor do que os outros. 

Isto, num contexto de um sistema de mercado livre, é fundamental. Especialmente no séc. XXI, não chega ser "eficiente", não chega oferecer o preço mais baixo. É preciso saber onde é que podemos ser os melhores. A história da Play-Doh mostra um pouco disso: mesmo que o produto inicial fosse excelente a desempenhar a sua tarefa de limpar papel de parede, não era suficiente. Daí que a mudança de estratégia, com a reconfiguração do produto (que passou a ser um brinquedo para crianças), tenha salvo aquela empresa; e não só a salvou, como a levou ao sucesso. Reparem que não houve alteração ao produto (fora a introdução de coloração), simplesmente houve uma mudança no foco. E isso foi o suficiente.

Esta mudança na estratégia de uma empresa, e os seus resultados, reflectem o ponto de que a criação de valor numa economia capitalista está removida de uma narrativa de exploração, e igualmente mostra que outras narrativas sobre maximização dos lucros, eficiência, e tudo mais, para além de redutoras, podem ser destrutivas — para uma empresa, um sector, ou mesmo mais. 

Quando confrontado com as dificuldades que a evolução tecnológica trouxe, tornando o produto de limpeza em algo supérfluo, o senhor McVicker podia ter seguido a receita do costume: cortar custos, apostar na eficiência, por ventura até gastar algo mais em marketing. Se calhar, até resultava. Mas, provavelmente, iria ser a maneira que a empresa iria definhar, até por fim falir. E mesmo que resultasse, era extremamente difícil que resultasse tão bem quanto a mudança de público-alvo.

E reparem que houve aqui algo incrível a acontecer: a simples mudança estratégica de escolher um público-alvo diferente fez com que a empresa passasse de um estado de pré-falência para um de sucesso. Sem grandes alterações na estrutura de custos, sem mudar pessoal, processos ou fornecedores. Para alguns, o senhor McVicker passou a extrair ainda mais mais-valias aos trabalhadores por ter passado a vender o produto a pessoas diferentes; para outros, passou a ter lucros porque foi mais eficiente. Ambos parecem estar errados. O senhor McVicker ficou rico porque ajudou a resolver o problema fundamental da economia, o da alocação de recursos escassos para fins alternativos que competem entre si. O senhor McVicker, pela simples alteração de estratégia, foi capaz de criar valor. E é isto que deve acontecer no capitalismo.

sábado, janeiro 10, 2015

À propos de Charlie

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Este é um texto difícil de escrever. Essencialmente, porque é superficial.

Aquilo que tem vindo a acontecer em França nos últimos dias faz parte de um processo que me parece ir levar ao fim de alguns princípios que regeram boa parte (toda?) a sociedade ocidental provavelmente desde o fim da segunda guerra mundial. Digo-o desde já, para não haver confusão: o princípio da liberdade de expressão entra em conflito com a existência de uma sociedade multi-cultural nos termos que a conhecemos. Também digo desde já que me parece possível o princípio de liberdade de expressão existir numa sociedade multi-cultural, mas não me parece que isso acontecerá sem tensões. Ainda assim, de certo modo, espero estar enganado. 

Há um grupo de pessoas que não gosta de ver determinadas coisas publicadas. Acham-nas ofensivas. Que denigrem de uma maneira não-desculpável aquilo em que elas acreditam. Há um sub-grupo dessas pessoas que acham que isso lhes dá motivo suficiente para assassinar pessoas, e há um sub-sub-grupo que age de acordo com essa motivação. A sociedade ocidental, de acordo com as tuas tradições e instituições, age para punir este sub-sub-grupo, os que realmente cometeram ou contribuíram para o crime. Sinceramente, acho que faz bem: criminosos, assassinos, gente assim não tem lugar numa sociedade onde eu gostasse de viver. 

Eu, genuinamente, ri-me com os cartoons que fui vendo, gozassem com Alá ou o Papa. Mas também não deixo de ficar apreensivo por haver gente a reagir tão violentamente a um cartoon. Primeiro, porque não acho que um muçulmano seja um animal irracional apenas a operar num binómio de pura acção-reacção: se der um chicote num cavalo, é provável levar um coice. Pelo contrário, não acredito em polilogismos: diferentes grupos de pessoas não pensam de maneira estruturalmente diferente; podendo ser isso temperado com o sabor de uma cultura, claro, mas haverá algo que nunca muda. Então, o que leva um ser humano - pior, um grupo de seres humanos - a reagir assim?  Há algo que correu mal.

O motivo último para esse grupo estar chateado com os cartoonistas é, para mim, idiota. Sátira é algo maravilhoso, algo que me faz reflectir e rir, e então se for para chatear algo pelo qual não tenho simpatias, melhor. Mas também sei um pouco de cortesia, e se vir que algo que faço está a deixar alguém incomodado, procuro perceber o porquê de tal estar a acontecer. Acho que é assim que se vive saudavelmente, no meio de pares que não partilham as mesmas sensibilidades ou as mesmas regras: tento respeitar. Posso não concordar, mas respeito. Não consigo imaginar fazer algo, muito menos de forma repetida, que deixe outra pessoa numa raiva descontrolada ao ponto de me vir assassinar. Não porque a pessoa que me veio assassinar tenha alguma direito de o fazer, mas porque imagino que seja algo realmente grave.

Claro que isto é realmente fácil de se fazer quando falamos de uma sociedade mais ou menos homogénea em termos de valores: nunca faria um cartoon a satirizar actos de pedofilia, porque é algo que chocaria e enfureceria uma boa parte das pessoas à minha volta. E porque não sei desenhar. Afinal de contas, humor com pedofilia - ainda por cima, humor gráfico - não é propriamente algo muito bem visto no âmago das pessoas que partilham dos meu valores. Para algumas pessoas, o nível de ofensa ao fazer sátira sob forma de cartoon de uma dada personagem religiosa é semelhante. Não acho que eles tenham escolhido bem, há coisas mais importantes com que uma pessoa se deve preocupar, mas não me parece que isso interessa: o mais importante é que há um grupo que se sente realmente ofendido. Não "ofendido" no sentido de fazer peito e bufar, mas ofendido ao ponto de ir matar um outro ser humano. 

Eu percebo que seja difícil perceber este ponto, estou a ouvir algumas pessoas a dizer "gente que assassina seres humanos não merece compreensão, ou empatia." Eles atingiram a sociedade ocidental num dos pontos mais sensíveis, depois de tantos anos a viver "cá". Mas eu não imagino bem o que deve ser viver numa sociedade onde regularmente vejo algo que ofende uma das minhas crenças fundamentais; numa sociedade onde supostamente deveriam respeitar a minha religião. É isso mesmo, não faço ideia do que deve ser. Duvido muito que conseguisse viver numa sociedade assim, apesar de tudo. Não gostaria, certamente.

Quando vivemos numa sociedade multi-cultural, com valores verdadeiramente diferentes, é normal que existam pessoas que se sintam verdadeiramente ofendidas com algo que achemos indiferente. Afinal de contas, é essa a beleza do multi-culturalismo: a possibilidade de expor e estar exposto a ideias, costumes, culturas diferentes. E saber viver com o que isso implica - i.e., respeitar. Do mesmo modo que teria sido bom se aquelas bestas tivessem respeitado a liberdade de expressão. Tudo teria sido melhor, não era?

"Mas em França, a Lei protege a liberdade de expressão, mas não quem se sente ofendido com a merdinha de um cartoon; e ainda bem!" O cumprimento da lei nunca é uma boa maneira de avaliar a correcção de uma dada acção. Há pouco dei o exemplo de um cartoon com pedofilia para tentar estabelecer o paralelo para alguém que viva numa sociedade ocidental, mas se calhar um melhor exemplo seria ter um sujeito algures em França a ser aplaudido por proferir discursos que enaltecem as qualidades da mutilação genital feminina. Ou algo igualmente grotesco. Que a mim, pessoalmente, me deixa enfurecido. Suponho que a maior parte da sociedade ocidental concorde. 

Aconteça o que acontecer, uma sociedade, mesmo uma multi-cultural, terá minorias. Terá uma opinião pública dominante, terá um set de valores dominantes, terá pessoas que se sentiram mais à vontade do que outras. Não há muito a fazer. Mas convém que haja noção disto. É, para mim, completamente esquizofrénico que se diga que toda a gente tem direito a praticar uma religião, a ter o seu set de valores, que não será discriminada por isso (!), e, desde que cumpra com algumas regras básicas (ergo, a Lei), estará tudo bem. Mas acho, genuinamente, que a Lei falhou, aqui. Falhou neste sentido: não soube acautelar diferenças profundas de valores. Economicamente, falhou em resolver este problema de coordenação. A Lei, qua instituição, permitiu que um grupo se sentisse humilhado ao ponto de assassinar um ser humano, vários seres humanos. Não me parece difícil de perceber que haja quem se sentisse humilhado, descriminado, com aqueles cartoons. É aqui que reside esta esquizofrenia.

A sociedade ocidental parece então encontrar-se numa encruzilhada, onde terá que escolher entre verdadeira liberdade de expressão, ou verdadeira aceitação de uma cultura diferente a viver no seu país (multi-culturalismo). A forma como vai escolher, e procurar resolver este problema parece-me que será um marco importante para perceber a nossa sociedade. E o potencial para que, como de costume, isto vá correr mal é enorme. 

Não me sinto propriamente Charlie, apesar de gostar muito da liberdade de expressão. Também não acho fixe que se silenciem pessoas por opiniões radicalmente diferentes em assuntos muitos sensíveis. Mas que este problema, esta tensão entre duas (ou mais) partes com visões muito diferentes, parece presente é-me relativamente óbvio. 

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Let it grow

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A agricultura, pelo menos em Portugal, ainda sofre de um enorme estigma. O pior é que o estigma começa na cabeça de quem lá trabalha, como se não fosse suficiente o estigma de quem está de fora. Uma das condições que consigo facilmente enunciar para que a agricultura possa ser um sector de excelência é o fim da ideia de que uma pessoa que trabalhe no sector agrícola é um agricultor qua lavrador — certamente que muitos serão, e nada contra. Mas do mesmo modo que uma pessoa que tenha uma fábrica de sapatos não será um sapateiro, essa mesma mudança de perspectiva terá que acontecer em quem trabalha e com quem lida com a agricultura.

Explico: o agricultor qua lavrador será a imagem mais comum pela simples razão de que foi (e, provavelmente, ainda é) o que mais frequentemente se encontra. A pessoa que, como ouvi os antigos a dizer, "fazia campos". Independentemente do que plantavam, mesmo que tivessem pessoas a trabalhar para si, e sem diferenciação da dimensão da propriedade, ou da existência de "actividade comercial" (i.e., a produção não era [só] para consumo próprio, mas também para dar rendimentos através da venda da dita produção). O lavrador terá os métodos de produção estabilizados, saberá que produtos aplicar e em que alturas, e mais do que isso, saberá até alterar os seus processos em função dos factores que não controla (temperatura, humidade, chuva, etc). Não estará em causa, de todo, o seu know-how no que toca àquilo que faz.

No entanto, faz falta algo mais. Pensamento estratégico, função comercial, capacidade financeira. Actividade empresarial; no fundo: uma indústria agrícola. Acabar com o estigma do agricultor-sapateiro, passar a ser o agricultor-empresário, que tem uma empresa que explora algo no sector primário. E ter uma empresa é ligeiramente diferente de ser um lavrador. Porque implica mais do que estritamente a agricultura; do mesmo modo que ter uma fábrica de sapatos depende um pouco mais do que saber fazê-los.

O problema da agricultura não estará na mão-de-obra, no "proletariado" — afinal de contas, hoje em dia, a agricultura é cada vez menos um sector de mão-de-obra intensiva, apesar de ainda haver muito espaço para melhorar aqui, especialmente a nível da actualização/melhoramento do conhecimento prático. O maior problema estará, a meu ver, na falta de visão de quem quer investir no sector. Quando isso mudar, e quando a massa crítica estiver no lugar para fazer o que, por exemplo, o que algumas pessoas já perceberam no vinho (que a qualidade compensa, que exportar também, que o vinho não é só as uvas espremidas num copo de vinho, que as pessoas procuram mais do que o álcool) e noutros sectores, então será possível que as coisas se encarreirem para um lugar melhor — desde que a Assunção-Cristas-da-altura não se intrometa.